Cinema
Diogo Berni
26/05/2016 às  17:57

Ralé, por Helena Ignez, para seu feriadão

E mais: Coração Vagabundo, de Fernando Grestein Andrade com participação de Pedro Amoldóva


 Ralé, dirigido e roteirizado por Helena Ignez, Brasil, 2016. Sim, trata-se de um cinema genuinamente marginal no melhor sentido da palavra. A obra fílmica faz questão em estar à margem, ou anarquicamente remando contra o fluxo do cinema “civilizado”. 

  O filme aborda três temas: As minorias, o transcedentamento através do chá da Ayahuasca e consequentemente a liberdade de escolha de cada um. No filme híbrido da Helena Ignez temos Ney Matogrosso como personagem central. 

   Este representa um sujeito que fora preso no aeroporto de Bruxelas portando heroína. Após cumprir pena e ler livros de filosofia e antropologia dentro do cárcere, o sujeito pega voo ao Brasil de volta e para direto no Acre em busca da raiz da arvore que origina o chá. 

   Poderíamos afirmar que o filme é uma ode ao chá e suas transformações espirituais, todavia a celebração ou o tomamento do chá não acontece. 

    A narrativa do filme explica a dimensão do chá, porém não mostra o momento do fato consumado e a experiência. É provável que a Helena tenha feito isso de propósito: Atiçar e não mostrar para instigar  ainda mais a experiência. Pois bem na narrativa temos o Ney que é esse cara ex-dependente de heroína e encontra a raiz xamânica e amazônica como seu remédio contra outras drogas, e também para um alto conhecimento. 

   Ney o faz o papel desse cara muito bem para um cantor e ainda se casa com um homem ( coisa que na vida real ele jamais faria uma celebração, como afirma em entrevista na coletiva de lançamento do filme), e ainda tem um filho que é inteiramente ligado a ele, seja espiritualmente e fisicamente, cheio de beijinhos e abraços a toda hora que beira o enjoo tamanho chamego. Mas é a Helena Ignez, um ícone vivo do cinema nacional, então já era esperado amor, sinceridade, rompimento de barreiras físicas e espirituais, anarquia absoluta sempre! 

   Porém amor nunca é demais, principalmente para alguém tão sensível como a diretora  e ex-mulher do cineasta brasileiro mais importante que este país já teve: Glauber Rocha. O filme é uma experiência total sensorial assim como o chá deve ser. Indicadíssimo. 
                                                                                 *****
    X-Men: Apocalypse ,de Bryan Singer, EUA, 2016. Diferente da maioria especializada inclusive não achei o filme longo , e olha que cometi a gafe de ver uma versão dublada, mas pra quem não curte os gibis e não viu principalmente o anterior da franquia ( que pra mim foi o melhor), terá dificuldades em compreender tudo e de fato boiará em alguma hora na trama da série número Seis da Marvel. Todavia vamos a um resumão de duas horas e meia de tela; seguinte como é sabido X-Men conta a estória dos mutantes que foram recentemente descobertos pelos 
humanos. 

    Mutantes neste caso não é a Rita Lee e nem o Arnaldo Batista da  extinta banda, mas seres com poderes sobrenaturais e que tem características físicas de pessoas normais e de mutantes, então não dá pra apontar o dedo na trama e falar quem é e quem não é mutante. Nos cinco primeiros filmes da trama , e em especial aos dois últimos, criou-se uma escola para esses seres viverem a sombra e distante da 
sociedade, fazendo assim que nós, humanos, não correríamos o risco de ser enganados por eles. 

   Como em toda sala de aula , existe uma ovelha negra , e no filme esta é o mutante poderoso que atrai metal, o Magneto.
 
    Ele saí da escola e perto do seu mestre Xavier ( que não é espírita, porém é o mutante mais poderoso por ler as mentes de todos, e por isso é  também o líder), mas como ia dizendo , Magneto manda Xavier tomar naquele lugar e vai construir sua vida em um rancho na Polônia constituindo família e tentando ser um humanoide comum.

   Até aí tudo ia lindo: os superdotados na escola com Xavier, e Magneto feliz com mulher e  filhinha. Mas quando os policiais descobrem quem é Magneto de fato e matam mulher e filha com uma flechada só, este volta a encarnar o mutante “ovelha negra” da família. Paralelo ao caso, já que o filme era bem dinâmico, estava acordando um mutante super poderoso que tinha ficado nas trevas por um bom tempo, e agora se intitulava como o mais poderoso de todos os tempos ou o Deus supremo dos mutantes. 

O “acordado”  fala pra galera mutante que tava tudo errado e este Xavier era um otário por querer unir sua espécie com humanos harmoniosamente. Magneto e  outros compram a ideia e agora o Deus mutante recém-acordado marcha com  eles para caçar Xavier, e tomar o seu poder de ler as mentes de todos os mutantes da terra ( existia pra caralho em 1973, imagina em 2016!). E  a trama fica nessa: Quem era favorável e fiel a Xavier ou quem tinha comprado a ideia do dizimo do ódio do Deus do inferno e exterminar de vez os humanos e a Terra seria só um lugar para eles; os fuckings mutantes. Vale um saco extra plus de pipocas. 
                                                                               ****
    Coração Vagabundo, de Fernando Grostein Andrade com participações de Pedro Almodóvar, Michelangelo Antonioni, David Byrne e Gisele Bündchen, Brasil, 2008. O filme documenta o primeiro álbum do Caetano com todas as faixas cantaroladas em inglês. 

    O músico já estava na casa dos sessenta e decidiu realizar um sonho de juventude, que era fazer um CD na língua dos Beatles, desde quando foi convidado a ser retirar do Brasil e ir passar um tempo em Londres devido a ditadura militar, junto com Gilberto Gil. Fato é que a obra fílmica se desenrola com as viagens 
que o musico fazia para uma turnê de lançamento do seu disco, aliás disco agora, que voltaram com a moda dos vinis, mas em 2008 era o CD. Caetano percorreu Tóquio, Londres, Nova Iorque e Paris. 

    Todos os lugares  com suas particularidades a parte e o músico adentrando a cultura de cada país dando elementos mais que necessários para que observemos um documentário de pura beleza, e como não poderia deixar de ser diferente o nosso síndico do Brasil dá palpites em tudo que acontece em sua volta e  de tudo que acontece não a sua volta também. Caetano é singular por exatamente isso, ou seja, tem uma opinião própria pra tudo, é o tipo de sujeito que não fica em cima do muro pra nada! 

    Devido a isso alguns imbróglios o músico passa, como por exemplo, ser chamado de musiquinho 
por alguns colegas por ter se rendido ao pop, ou ao rock. Rendição esta visionária desde 1968 quando foi vaiado no principal festival de música do Brasil. 

    Vaiado porque colocou elementos do recente rock rol em sua música e melodia que concorria ao festival, e como tudo novo causa estranhamento ele é vaiado e taxado como um anti-herói nacionalista. Ledo e Ivo engano que só o tempo fez perceber como Caetano já em 1968 estava à frente do seu tempo. Azar para nós e a cultura tupiniquim que somente fez se atrasar para se desenvolver, mas Caetano ainda está por aí, então ainda há chances. A Bossa Nova não é foda, o Caetano Veloso é que é.


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