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12/07/2015 às 14:05

ENCICLICA VERDE: Olhar do papa sobre a natureza

Dom José Ruy Lopes é bispo de Jequié

Dom José Ruy Lopes

Assim o “pobrezinho” de Assis expressava mais que gratidão. Louvava a Deus pela vida da criação e a presença do Criador em sua vida !

   Assim também, o Papa homônimo, evidencia mais que uma denúncia, expressa um grito de louvor e escreve um apelo aos cuidados especiais.

   Com grande louvor à criação e também ao Magistério da Igreja, uma vez que o Papa Francisco evidencia a “hermenêutica da continuidade” ao se referir às Encíclicas anteriores, demonstra uma interpretação equivocada da grande mídia que tem destacado o ineditismo do tema abordado nesta Encíclica. 

  Todavia, convém recordar, que o tema faz parte da Moral Cristã, mais precisamente da Bioética Católica. Não sem porque, nos primeiros parágrafos da “Laudato si”, o Papa Francisco faz referências aos seus antecessores, João XXIII e João Paulo II, que no magistério da Igreja se referiram ao compromisso cristão de construir a paz e cuidar do bem comum. 

   Também o próprio Francisco destaca os acenos contidos no Documento de Aparecida, quando o episcopado sul americano e caribenho demonstrava preocupação sobre esta questão. Mas, se queremos uma boa fundamentação destes pertinentes acenos anteriores, é suficiente recorrer ao Compêndio de Doutrina Social da Igreja (Paulinas, SP, 2008) e ali teremos no capítulo décimo, cujo tema é “salvaguardar o ambiente” as grandes referências às Encíclicas  Solicitudo rei socialis e Centesimus annus do magistério de João Paulo II. Diligentemente o Papa Francisco reporta-se a estas Encíclicas.

   A ética do cuidado não se restringe a uma nobre causa ecológica, mas da responsabilidade que o ser humano e, especialmente o cristão, possuem como expressão de um amor por toda a criação, também pela criatura e, sobretudo, pelo Criador. Quando se cunha o termo “ecologia humana” imediatamente nos remetemos ao segundo mandamento do amor ao próximo.  

   Destarte, ao se referir a São Francisco de Assis, seu inspirador, o Papa reporta-se a uma ecologia integral, defendida e vivenciada pelo Santo e que é objeto de reflexão de todo o capítulo quarto. De fato, “o sujeito da ecologia é próprio ser humano”, já afirmara São João Paulo II. 
 Se o Papa Francisco reafirma o planeta como nossa “Casa” imediatamente no primeiro capítulo da sua Carta, nos faz lembrar  que se não vivemos bem a nossa fraternidade nesta casa transitória, colocamos em perigo, e bem maior, a nossa Casa Eterna. É assim que o  Bispo de Roma, no epílogo,  dirá de forma poética “para além do sol”. Isto estará presente em todo o segundo capítulo na fundamentação bíblica da relação do ser humano com a terra e toda a criação em vista da fraternidade e do louvor ao Criador e Pai. 

   Quando esta relação não é boa demonstra-se claramente como resultado uma crise de relação do próprio ser humano consigo e com seus semelhantes e com a própria natureza. A isto, o Papa Francisco denomina “crise do antropocentrismo moderno”.

  De fato, é uma questão da moral social, condição de nossa relação fraterna para todos os vértices.

*** Dom José Ruy G. Lopes, OFM Cap
Bispo Diocesano de Jequié - Bahia


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