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08/07/2019 às 08:25

PRAÇA DA PIEDADE: simbolo do poder e da forca na época colonial

A praça da Piedade é uma das mais antigas e simbólicas da cidade do Salvador

Tasso Franco

 A praça da Piedade é uma das mais antigas de Salvador e tem uma simbologia muito forte, pois, neste sítio em 1799, foram enforcados os revoltosos da Conjuração Baiana ou Revolta dos Alfaiates, movimento emancipacionista ocorrido no final do século XVIII (1798-1799), na então Provincia da Bahia. Protesto de caráter popular que defendia a independência, o fim da escravidão e a implantação de um governo republicano, democrático e com liberdades plenas.

   A praça já se chmou 13 de maio e nos tempos iniciais da fundação da cidade era uma aldeia de tupinambás. A Conjuração Baiana, inspirada na Revolução francesa, teve participação de pessoas com profissões mais simples, como alfaiates, sapateiros, borradores, ex-escravos e escravos. Houve apoio de profissionais como advogados, padres e médicos.

    A população pobre passava fome e se encontrava em um nível muito grande de insatisfação, cenário que se iniciou a partir de 1763 quando foi decidido que Salvador deixaria de ser capital da Colônia perdendo o posto para o Rio de Janeiro. Com a diminuição da atenção para a Bahia, recursos passaram a ser menores, o que provocou dificuldades administrativas. Havia carência de alimentos e os impostos cobrados eram altos para a população, o que acabou culminando na revolta.

    Entre os principais líderes do movimento, destacam-se o político e filósofo Cipriano Barata, o soldado Luís Gonzaga das Virgens e os alfaiates Manuel Faustino dos Santos Lira e João de Deus do Nascimento. Houve delações e prisões de dezenas de pessoas e o governador da Bahia, dom Fernando José de Portugal e Castro, agiu com dureza diante dos negros e pobres.

   Após o processo de julgamento, os mais pobres como Manuel Faustino e João de Deus do Nascimento, Luiz Gonzaga e Lucas Dantas foram condenados à morte por enforcamento, sendo executados no Largo da Piedade a 8 de novembro de 1799. Outros, como Cipriano Barata, o tenente Hernógenes d’Aguilar e o professor Francisco Moniz foram absolvidos. 

  Os pobres Inácio da Silva Pimentel, Romão Pinheiro, José Félix, Inácio Pires, Manuel José e Luiz de França Pires foram acusados de envolvimento "grave", recebendo pena de prisão perpétua ou degredo na África. Já os elementos pertencentes à loja maçônica "Cavaleiros da Luz" foram absolvidos deixando clara que a pena pela condenação, correspondia à condição sócio-econômica e à origem racial dos condenados.

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   Essa área onde se situa a Praça da Piedade na época em que Thomé de Souza chegou para fundar a cidade do Salvador, em 1549, era ocupada por uma aldeia tupinambá. Mais adiante, onde está situado o mosteiro beneditino havia outra aldeia e ambos esses locais ficavam distantes de uma visão mais alta do mar. Daí que Thomé e sua equipe foram mais em frente e ergueram a fortaleza num platô desabitado, onde hoje está a sede da Prefeitura e o Palácio Rio Branco, com ótima vista para o mar onde instalariam os canhões para proteger a fortaleza de invasões.

   Relatos de jesuitas que acompanharam a missão Thomé apontam que os tupinambás que habitavam a Piedade e o São Bento, do cacique Iperu (Tubarão), eram paupérrimos e viviam em chocas de palha.

   Com a expansão da cidade e a abertura das portas Norte (com a instalação do Colégio dos Jesuitas, na Sé) e Sul (com construção do Convento de São Bento), mais adiante, ergeu-se o Hospício dos Capuchinhos na Piedade entre os anos de 1683 e 1686. Até o ano de 1702, o convento foi cuidado pelos Frades Capuchinhos da circunscrição da França. Dois anos após a supressão, em 1705, os Capuchinhos italianos assumiram a casa. 

    Em 1712, o Hospício de Nossa Senhora da Piedade foi elevado à residência e Prefeitura, recebendo o nome de missão da Bahia ou do Rio São Francisco. A Igreja de Nossa Senhora da Piedade, já sofreu muitas reformas desde a sua construção, ao passo que, quando os Capuchinhos italianos assumiram a missão, acharam por bem demolir a igreja e reconstruí-la nos padrões atuais, sendo uma igreja imponente.A fachada do edificio foi modifica e, atualmente, convento e igreja estão bem conservados. 

   No dia 01 de agosto de 2016, a Igreja foi elevada á título de Santuário Arquidiocesano, pelo Arcebispo de Salvador, Dom Murilo Krieger, em comemoração pelo jubileu dos 330 anos de construção.

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   Nos séculoa XIX e XX, a Piedade era uma das praças mais importante de Salvador com duas belas igrejas – Nossa Senhora da Piedade e São Pedro - e dois outros prédios – Gabinete Português de Leitura e o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (antiga sede do Senado) e mais duas estruturas que destoam completamente das referências acima citadas – antigas sedes da Secretaria de Segurança Pública e da Escola de Economia da UFBA

    Igreja de São Pedro

    Na primeira metade do século XVII, já existia uma primitiva capela sob a invocação de São Pedro, no local onde hoje se encontra o Forte de São Pedro, pertencente a particulares.

   Em 1679, foi criada a "Freguesia de São Pedro" (antigo nome de Paróquia), pelo primeiro arcebispo de Salvador. Data de 1691 a construção da primeira igreja de São Pedro. Em dezembro de 1692, uma carta-régia ordenava que fosse cedido ao rei de Portugal, D. Pedro II, "o padroado e direito livre da igreja" e se providenciasse a construção de uma nova igreja, a cargo da Fazenda Real, que serviria de matriz para recém-criada Freguesia de São Pedro.

   A capela foi demolida e reconstruída, no início do século XVIII, próxima ao Mosteiro de São Bento, no largo que passa a se chamar de São Pedro, (Calçadão do Relógio de São Pedro). Em 1912, o governador José Joaquim Seabra desapropriou a igreja para, em seu lugar, construir a Praça Barão do Rio Branco e abrir a Avenida Sete de Setembro. Sob protestos dos paroquianos e devotos, a igreja começou a ser demolida em maio de 1913. A construção do novo templo começou em junho de 1916, num terreno situado na esquina da Praça da Piedade com a Avenida Sete, com inauguração em 2 de dezembro de 1917.

    Gabinete Português de Leitura

   Foi inaugurado em 2 de julho de 1923, por ocasião das comemorações do centenário da Independência da Bahia. Abriga preciosidades como uma biblioteca de 15 mil volumes, pinacoteca com 168 telas, comendas e condecorações significativas da história da Bahia e do Brasil.

   O Gabinete Português de Leitura de Salvador foi criado em 02 de março de 1863, na sala de sessões da Real Sociedade Portuguesa de Beneficência Dezesseis de Setembro, por iniciativa de um grupo de portugueses, que tinha por finalidade a aquisição de um maior número de obras de "reconhecida utilidade", escritas em português e francês, para utilização de todos. Seu fundador e primeiro Presidente foi o português Comendador Manoel Joaquim Rodrigues, acompanhado de seu irmão, Francisco José Rodrigues Pedreira. Ambos portugueses, idealistas, nascidos em Soutelo, Município de Vila Pouca de Aguiar, Portugal. No mesmo ano, em 09 de junho, foi instalada a sua primeira sede, na Rua Direita do Comércio, n° 44, 2° andar, onde tiveram início as suas atividades.

   Devido à sua crescente procura, o Gabinete foi transferido três vezes, sendo a última instalação em 27 de junho de 1896, a da Rua do Palácio n° 40 (originalmente era chamada Rua Direita do Palácio e, depois, Rua Chile).

   Instituto Histórico e Geográfico da Bahia

  Foi inaugurado em 2 de julho de 1923, por ocasião das comemorações do centenário da Independência da Bahia. Abriga preciosidades como uma biblioteca de 15 mil volumes, pinacoteca com 168 telas, comendas e condecorações significativas da história da Bahia e do Brasil.

  A PRAÇA ATUAL

  Na parte Sul da praça encontra-se a igreja de São Pedro (que substituiu a de São Pedro velho) com lateral para a Av Sete. A entrada principal fica de frente para a praça e ao seu lado existem dois casarões. Mais adiante o prédio da Faculdade de Economia da UFBA. Quem vem das Mercês (Av Sete) pode entrar à direita nesta rua à esquerda da praça, lado Sul, e acessar os Barris. 

   No lado Oeste da praça situa-se o prédio da SSP, um bar e a sede da associação dos policiais civis. Há uma rua que dá acesso aos barris entre esse prédio e o Convento dos Capuchinhos e Igreja de Nossa Senhora da Piedade. À direita do convento está a rua conselheiro Junqueira Ayres onde se situa os shoppings Piedade e Center Lapa. É uma rua comercial ocupada de um dos seus lados por camelôs e suas tendas. Esta rua tem mão única em direção a Praça da Piedade e Joana Angélica.

  Na parte Norte da Praça estão os prédios do Gabinete Português de Leitura e do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. A entrada principal do IGHB dá-se pela Avenida Sete e esse prédio onde se situa o instituto à frente dele (que dá de testada para a praça) é ocupada por um colégio. 

   A ex-presidente do IGHB, Consuelo Pondé (já falecida), tentou de todas as maneiras ocupar esse espaço do colégio, mas, nunca conseguiu. A parte Leste da praça é ocupada por prédios comerciais e pelo Beco da Forca (também comercial) que dá acesso peatonal à rua Carlos Gomes e também em direção a Rua da Forca rumo ao Largo 2 de Julho (praça Inocêncio Galvão).

  Esses dois locais têm o nome de forca exatamente porque, nos séculos XVIII e XIX era por esse caminho que os escravos e outros executados na força na Praça da Piedade percorriam acorrentados até chegar a praça. Nos prédios comerciais dessa área existem uma farmácia, uma grande loja de eletrodomésticos e lojas de confecções e tecidos. Há, ainda, o antigo beco do mijo que dá acesso ao Edf Totonha e a Carlos Gomes.

   A praça da Piedade é também conhecida como praça dos aposentados e foi reformada no governo Antonio Imbassahy quando tornou-se gradeada com gradil obra de arte de Carybé, bancos de mármore, fonte luminosa e a colocação de pedestais dos executados na Conjuração Baiana. No banco que fica de testada com a Av Sete os aposentados se sentam por aí, mas, hoje, dividem os espaços com os camelôs de vendas de coco, bananas, comerstíveis e outros. Há uma feira dos aposentados recém instalada aos domingos. 

   A praça passou por nova limpeza e conservação no governo ACM Neto e está bem conservada, porém, repleta de ambulantes vendendo todo tipo de produtos e alimentos. Os gradis também são usados pelos ambulantes como mostruário e eventualmente pelos moradores de rua como secadores de roupas. Há, por curiosidade, em sua área verde camaleões e pombos. (TF)


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