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28/03/2019 às 09:24

SALVADOR 470 ANOS: Tupinambás ajudam erguer a cidade, ZÉDEJESUSBARRÊTO

ZédeJesusBarrêto é jornalista e escritor

ZédeJesusBarrêto

 No dia 29 de março de 1549, há precisos 470 anos, aportava na enseada do atual Porto da Barra, o fidalgo português Thomé de Souza, no comando de uma enorme frota de naus, caravelas, bergantins e cerca de mil homens - soldados, técnicos em construção, artífices e artesãos, religiosos, cirurgiões, peões ... - com a missão, estabelecida pelo El Rei de Portugal Dom João III, de aqui, nas bordas da Baía de Todos-os-Santos, construir  uma cidade, porto e fortaleza, que seria a primeira capital do Brasil-Colônia, no Novo Mundo d’além mar. Os projetos vieram prontos de Lisboa.

   Quando cá chegaram Thomé de Souza, nosso primeiro Governador Geral, e sua comitiva, o sítio da Barra já era o Povoado do Pereira, depois Vila Velha, erguido por Caramuru (o negociante português Diogo Álvares de Souza), os nativos Tupinambás e um magote de traficantes de Pau Brasil e especiarias, a mando de um capitão donatário chamado Francisco Pereira Coutinho (daí o nome povoado do Pereira), de quem os tupinambás não eram muito chegados.

   Thomé foi bem recebido. Um certo Gramatão Teles, capitão e cavalheiro da Casa Real, chegara antes para preparar os caminhos e acolhimentos. Caramuru e os Tupinambás também chegaram perto.

   Os emissários do Rei passaram uns poucos dias descansando da longa travessia do Atlântico e logo partiram para a prospecção do melhor espaço, no interior da Baía e o mais próximo possível da entrada norte, para a fundação da “cidade porto e fortaleza”.

 Já no mês de abril, com o dedo do mestre Luis Dias (projetista, arquiteto, urbanista e engenheiro ... podemos assim dizer) e a decisão de Thomé de Souza, foi escolhido o local para as primeiras fundações da cidade.  Num cume ou promontório, diante do mar (Porto), e muito bem protegido por escarpas e ladeiras, água abundante. As obras começaram em dois espaços: na parte alta, entre o que hoje é a Praça Castro Alves e a Misericórdia; na parte baixa, entre a Praça Cairu e a Preguiça.

 Todo o ano de 1549 foi de uma labuta intensa, com participação ativa também da mão-de-obra indígena. Segundo escritos de Frei Vicente do Salvador (o maior historiador desse tempo), “ o próprio governador (Thomé de Souza) era o primeiro que lançava mão do pilão para os taipais e ajudava a levar a seus ombros os caibros e madeiras para as casas, mostrando-se a todos companheiro afável, parte mui necessária nos que governam novas povoações”

  Portanto, a fundação propriamente dita da cidade aconteceu meses depois da chegada do Governador Thomé de Souza, essa sim acontecida no dia 29 de março de 1549.

 

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   À minha cidade amada do São Salvador da Bahia – de todos os santos e orixás, inquices, voduns e encantados das matas e das águas -, Mãe Preta que abriga tantas contradições e misturas, todo o meu respeito, todo o amor de um filho de suas águas, de seu azul, de sua luz, única !

 

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  Em sua homenagem, o poema de Geraldo Maia, de 1999, para as comemorações dos 450 anos, intitulado  “Timbalacity” :

 

Te abadá, Salvador

Tiararana

Timbalada bacana

nos treitos de tua cama

nos feitos de tua fama

 

Tiemanjar, cidade

Tiansã com vontade

de viver para sempre

no teu coração de aia

na barra da tua saia

na baía que agasalha

a amplidão ao léu

 

Te abará, Salvador

Sussuarana

Beiju com caldo de  cana

que a menina  cigana

ciranda ao somdo tambor

Araketu teu Axé

no axexê do Ilê

Didá pra mim teu amor

 

Rastafariar Salvador

Tiumburana

Tintinar os teus encantos

Quatrocentoscincoenta anos

de te festejar com gana

Titã de cultura e arte

berço de paz e grão forte

de liberdade no grito

acode aos teus aflitos

no brado do bardo eterno

 

Rima de céu e inferno

filhos da mesma barriga

parto telúrico e cósmico

cidade mãe  da poesia

 

Ludicidade plural

amor de bem e de mal

dança de laser magia

trança de raças e  cores

alma de vários sabores

 

Teu pelo, cidade, é negro,

moreno, mulato, cafuzo

caboclo, cajá, siriguela

galego, mangabo, canjico

peço que fiques comigo

no por-do-sol em teu porto

 

Na dor do teu jeito gostoso

nas brumas da duna lagoa

no encanto de Nana Caymmi

do jeito que rime com lua

o sol silente, na sua

e um galho de mar no cabelo


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