segunda-feira, 11 de dezembro de 2017
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

LE GRAND SOIR e a busca de um caminho

A obra pergunta de tudo um pouco, e mexe com tudo que, até então, pensamos que estávamos convictos e certíssimos.
02/12/2017 às 19:08
   Le Grand Soir ( A Grande Noite),dirigido, estranhamente, pelos dois protagonistas: Benoît Delépine, Gustave Kervern, França, 2012. Título este que não tem muito a ver com a obra, pois a grande coisa dele é a mudança total: ao do dia e da noite; refiro-me a grande transformação perante ao assolamento de um sistema que, escroto, pune e não dá segundas chances de bandeira. 

   Como personas principais temos dois meios irmãos, que após metade da fita, sabemos que nem a mãe sabia quem era o pai de qual, tamanha a bebera quando dera pros caras. A trama ideológica acontece em uma cidadela de médio porte francesa, onde um irmão é punk convicto e têm tatuado em sua testa a palavra Não. 

   Ou seja: ele diz não a tudo e a todos do sistema, vivendo na rua através da ajuda alheia, fator este que deixa , a certo ponto do filme, bem angustiado. Do outro lado do filme temos o outro irmão que, literalmente, pira, quando tem um bebê, e é demitido do trabalho, mostrando a crise econômica que a Europa passara nos meados de 2010.  

   Com o surto do irmão mais “consciente”, porém com os mesmos genes, o punk o transforma em um cidadão de rua, assim como seu cachorro, mas não necessariamente nesse sentido. O que ele queria era dar um pouco de vestígio de nobreza ainda a seu meio irmão ensandecido com a situação político-econômica da Europa. Um filme bem interessante e o grande vencedor do prêmio da crítica especializada do festival de Cannes de 2012. 

   A obra pergunta de tudo um pouco, e mexe com tudo que, até então, pensamos que estávamos convictos e certíssimos; e enfim nos joga a pergunta: será que estamos no caminho certo, ou ao caminho dele? 

   Essa pergunta fica no ar e o filme não dá a resposta, mas sugere para que, cada qual perceba se estás, de fato, fazendo bem ou só sendo uma máquina alienativa , e que um dia certamente pifará, por não permitir deixar-se usar a sua massa cinzenta para deixar-se de ser uma máquina que trabalha muito e ganha pouco, ou seja, o custo-benefício não vale, e isto acontece com a maioria, que por não saber ou por não ter como lutar contra, acaba sendo escravizado por um sistema oportuno e sugador , que é o que nos rege.

   Então o ditado que diz que : “ em terra de cego quem tem um olho é rei”, é mais que válido para nos identificarmos e sabermos lutar contra o que é pré-estabelecido, sem critério algum, e ainda assim enseba e comanda a maioria da massa. Existem filmes para serem contemplados em suas entrelinhas, e Le Grand Soir nos permite esta imersão interna sociocultural, e nos alerta que, com os “dois pés na porta” resolvemos tudo, mas deixa-nos lúcidos que temos dois pés e que estes tais pés podem chutar a porta a qualquer instante, basta saber disso para não bater com eles dois e então driblar as dificuldades sociais que os nossos governantes criam pra gente viver. 

   Quer ser mais livre? Então assista a esse filme ou então fique do jeito que está: afinal a escolha é sempre sua, mesmo você querendo colocar a culpa em terceiros, além de ser uma coisa bastante feia não assumir seus próprios erros, isso para escrever no mínimo: filmaço.