Colunistas / Cinema
Diogo Berni

MOSTRA DE CINEMA SP: Félicité, o orgulho de nós mesmos

O comentarista viajou a convite dos organizadores da mostra em SP
04/11/2017 às 08:02
Félicité, dirigido e corroteirizado por Alain Gomis, França, Bélgica, Senegal, Alemanha, Líbano, 2017.  Esta produção foi a melhor que vi na Mostra SP; e não escrever o porquê, mas tenho certeza de foi ela, definitivamente. 

Trata-se de um filme sensorial, onde adentramos no universo da protagonista, que dá nome a obra. Felicité é uma mulher que vive da música e cultura noturna do seu país e de suas origens. O filme tem takes longos, de modo que isso ajuda a acompanhar e perceber cada sentimento dos personagens, cada respirar deles, ou até cada não ação que eles deixam de fazer pensando em consequências não tão boas. 

No inicio da trama temos a apresentação do conflito maior da eximia e cativamente protagonista: seu filho acidenta-se de modo e fica hospitalizado, seriamente. Félicité, prontamente, vai socorrer o filho sem pai, no hospital e é roubada, ficando sem dinheiro para o tratamento do filho, alias único, que beirava a faixa dos vinte. 

Começa então a jornada da Félicité em arrumar grana para o tratamento do filho, este a esta altura já com uma perna amputada e a cabeça na pior, sendo um vivo em estado vegetativo: pena de ver. A protagonista tenta reviver seu filho de alguma forma, procurando dinheiro para os medicamentos, porém a ajuda, nestes casos extremos, vem sempre do acaso, ou seja, de um transeunte bêbado “consertador de ventoinhas de geladeiras”, que curtia a voz e o som genuinamente africano e belo da Félicité, todas as noites. 

O lindo de se acompanhar no filme é essa história desse casal que, aparentemente, nada teria a ver, entretanto com um ser humano, o filho da protagonista, naquele estado, faz com que esses opostos unam-se em prol do salvamento daquele ser de vinte anos, e isso independentemente de quem fosse afinal tinha alguém na merda e quem tem sensibilidade dá um jeito de ajudar, pois o ajudando se autoajuda, também. 

Tanto o filme, como seu roteiro não existem reviravoltas que passam deste cotidiano citado, mas esse tal “ cotidiano” é nos contado de forma tão digna, poética, verdadeira, intensa, e acima de tudo real, que não tem como se apaixonar pelo filme, pelo simples fato que se apaixonar pela obra é também, de todos os modos, reapaixonar-se pelo homem; de que ainda vale sentir orgulho de nós mesmos , e principalmente de nossos atos, pois no fim ,ou acima de tudo, são as nossas intenções que fazem a diferença para uma humanidade melhor, e consequentemente um mundo também. Crer em nós mesmos é necessário para mudar, caso contrário sempre mais guerras virão. 

Não foi à toa que esse filmaço ganhou o Prêmio do Júri no Último Festival de Berlim. 

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Almost There – Quase Lá, da diretora Jacqueline Zünd, Suiça, 2016.
Após a exibição do longa teve um bate-papo rápido , aliás melhor escrevendo: tiveram respostas da diretora ao público sobre o filme. Por trata-se de um filme hibrido, meio documentário e meio não ficcionalizado, mas sim com narrativas criadas pela diretora-roteirista, fazendo da obra um documentário melhor se fosse somente um Doc sem nenhuma estrutura narrativa.

 Não que essa estrutura tirasse a originalidade das vidas contadas, mas com uma organização maior no que concerne a qualidade a ser exposta, e consequentemente no resultado final mais agradável da obra. São ferramentas narrativas que em todo documentário tem, ou quase todo, e o resultado é bem melhor com este “acordo” entre os entrevistados e a direção. 

No caso específico da obra citada, não houve entrevistas, tipo: tem um microfone lá e a diretora faz perguntas; nada disso. O filme foi feito como uma estrutura de filme de ficção, mas só que não, uma vez que as estórias eram verídicas; então vamos a elas. O Doc acompanha a vida de três senhores: um no Japão, outro na Espanha e mais um nos EUA.

 O modo que cada qual enxerga a finitude da vida é particular, isto por culturas e personalidades distintas. Temos um Drag-Queen que deixa três filhos pra trás por achar que estariam bem melhores sem a sua presença. O velhinho “japa” é o sujeito mais orgulhoso de todos os três e adora receber elogios. Ou seja: existe uma empáfia em sua personalidade, fazendo com que ele se ache o maioral, e a idade evoluída ensina que não; talvez tenha sido o personagem que mais sofreu com o tema da morte, porém consegue abrigo espiritual ensinando crianças a ler; cada um acaba descobrindo o que lhe faz bem, mais cedo ou tarde, e no caso do “Japa”, bem mais tarde. 

Deixei por último o personagem que mais me cativou, e parece que também a diretora, visto que foi o que mais apareceu no Doc. Trata-se de um senhor estadunidense, sem filhos, que resolve comprar um furgão-casa quando sua namorada, que teve essa ideia inicialmente desiste da aventura e do relacionamento, porém ele não. 

A fotografia é belíssima, sendo o bolo da cereja de uma obra sensível, e que não têm como não no colocarmos na pele desses velhinhos que driblam os percalços da solidão e continuam de pés, sabedores há essa idade da vida, que a passagem está por vir, e o melhor ainda virá quando tudo acabar, pois o martírio está aqui e agora na nossa existência. Foi o melhor filme que vi na Mostra até agora, e nada badalado, pouquíssimas pessoas na sala; sinal que a maioria não está entendo nada do que chamamos de vida; eu não: entendi a mensagem graças à sétima arte e a sensibilidade da diretora suíça por nos contar estas estórias de vida com o seu ângulo de visão. É importante salientar que a Mostra homenageou a Suíça, e este filme é um belíssimo exemplar de obras deste país.

* O jornalista viajou a convite da Mostra - SP.