segunda-feira, 23 de setembro de 2019
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

Pendular debate a relação a dois na tela

O filme instiga uma relação a dois, porém também alerta que por mais que tenhas um amor, a carga existencial é sempre única
30/09/2017 às 11:35
endular, da Júlia Murat, RJ, 2017.
 
  O que é jogado, propositalmente, em tela é um encontro desencontrado entre um casal de artistas. O cara, um escultor, a moça, uma bailarina e outra cositas mais. Mergulhamos nessa relação intensa. Para quem conhece a filmografia da Julia, já preveríamos que vinha uma fita com uma pegada autoral.

 No que concerne à autoridade, a Júlia sempre foi reticente e fiel aos seus admiradores, ou seja, sempre existiu um “fogo” da diretora em qual profissão seguir: Artista plástica ou cineasta? 

Optou pela segunda opção e esse filme meio que afirma a sua escolha de profissão. Neste longa, premiado pelo júri da crítica no último festival de Berlim, temos como roteirista o marido da diretora, Matias Mariani. 

Acho que não resta dúvida que o filme trata-se da relação da Júlia com o Matias, onde os atores escolhidos a dedo, generosamente os interpretam. 

A ficção vem numa Júlia dançarina, talvez ela tivesse esse desejo, mas só que não, isto é, sua capacidade era, e é ainda, a mental, e não a corporal. Não sei os desejos do marido da Júlia, se foi um artista plástico frustrado como sua esposa, mas fato é que ele interpreta um escultor com crise criativa.

 Nesse percurso uma gravidez acontece, esta realçada bem nas lentes do diretor de fotografia. Antes da sessão o corpo do elenco quis falar que o filme, tão deveras afetivo, não tinha expansão de lugar hoje. 

O que percebi fora outro golpe: aquele do abismo da querência de compreender o outro, neste caso : o de marido e mulher. O filme inicia-se com uma “faixa de gaza”, delimitando o espaço dele e dela em um balcão propício para as grandes criações do marido, e uma pista de dança pra ela, escrevemos assim, mas sabemos que o lado dela não era somente isso.

 Sim, existia uma faixa literal feita a giz, que dizia: daqui pra lá e seu e daqui pra cá é meu, e a gente se vê na cama após nossos processos de criações artísticas. 

Embora tenham falado que se amam antes da sessão, a impressão que tive do filme é que o casamento é um acordo ou contrato fadado a falir; uns duram mais, outros menos e outros, por conveniência, e jamais por prazer, duram a vida toda, assim como existe uma felicidade eterna. 

O filme instiga uma relação a dois, porém também alerta que por mais que tenhas um amor, a carga existencial é sempre única, mas ok: vale o risco de viver a dois, porém que para isso aconteça é necessário uma maturidade para deixar que o outro ultrapasse o giz da barreira e sinta-se confortável na zona de conforto do outro. O filme está em sua primeira semana de estreia, em sessões vespertinas e noturnas, no Cine Itaú - Glauber Rocha, no centro. Prestigiem o cinema nacional, principalmente em sua primeira semana, pra ficar mais tempo em cartaz.