segunda-feira, 23 de setembro de 2019
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

FESTIVAL DE BRASÍLIA: Por traz da linha de escudos

Diogo Berni viajou a convite do festival
23/09/2017 às 12:26

Vazante, de Daniela Thomas, SP, 2017. Estamos em 1821 num Brasil ainda colônia, mesmo que apenas por um ano, todavia cheira-se já um querer de independência, esta conquistada em 1822, e redirecionada ou patentiada ao sentimento de libertação dos negros escravos. Filmado em preto e branco a fotografia do longa, nas belas Minas Gerais, é assertiva na escolha de não filmar a cores. 

Além disso temos um grau de pertencimento da obra quando assistimos em P&B, pois enxergamos mais ainda o século IXX, nela. Entretanto o filme não é somente isso. Um fato curioso e enriquecedor da obra é esta não ter a necessidade de protagonista; temos um núcleo de escravos, outro de senhores “cavadores” de ouro e diamante, e por fim tínhamos o ciclo daqueles personagens que iam e voltavam no enredo, mais especificamente: um negro brasileiro, bem interpretado por Fabrízio Boliveira, o Jeremias, que tinha a função de vigiar, e também castigar negros oriundos da África. 

É nítido que existiu um denso material de pesquisa daquele tempo do Ouro no Brasil, e na sua decaída, onde o filme mergulha-se. Temos uma historieta que conta a nossa miscigenação e o perigo dela, ainda hoje, por incrível que pareça. A atuação da atriz Luana Navas é fenomenal; guardem o nome dessa garota; o filme esteve em festivais como o de Berlim neste ano, mas não por isso devemos assisti-lo. Temos de conferir para saber um pouco mais de Brasil.

Pendular, da Júlia Murat, RJ, 2017.

O que é jogado, propositalmente, em tela é um encontro desencontrado entre um casal de artistas. O cara, um escultor, a moça, uma bailarina e outra cositas mais. Mergulhamos nessa relação intensa. Porra, pra quem conhece a filmografia da Julia, já preveríamos que vinha uma fita com uma pegada autoral. No que concerne à autoridade, a Júlia sempre foi reticente e fiel aos seus admiradores, ou seja, sempre existiu um “fogo no rabo” da diretora em qual profissão seguir: Artista plástica ou cineasta? 

Optou pela segunda opção e esse filme meio que afirma a sua escolha de profissão. Neste longa, premiado pelo júri da crítica no último festival de Berlim, temos como roteirista o marido da diretora, Matias Mariani. 

Acho que para esse que vos escreve, não resta dúvida que o filme trata-se da relação da Júlia com o Matias, onde os atores escolhidos a dedo, generosamente os interpretam. A ficção vem numa Júlia dançarina, talvez ela tivesse esse desejo, mas só que não, isto é, sua capacidade era, e é ainda, a mental, e não a corporal. Não sei os desejos do marido da Júlia, se foi um artista plástico frustrado como sua esposa, mas fato é que ele interpreta um escultor com crise criativa. Nesse percurso uma gravidez acontece, esta realçada bem nas lentes do diretor de fotografia. A

ntes da sessão o corpo do elenco quis falar que o filme, tão deveras afetivo, não tinha expansão de lugar hoje, no momento atual que vivemos, com um golpe, segundo eles. O que percebi fora outro golpe: aquele do abismo da querência de compreender o outro, neste caso : o de marido e mulher. O filme inicia-se com uma “faixa de gaza”, delimitando o espaço dele e dela em um balcão propício para as grandes criações do marido, e uma pista de dança pra ela, escrevemos assim, mas sabemos que o lado dela não era somente isso. 

Sim, existia uma faixa literal feita a giz, que dizia: daqui pra lá e seu e daqui pra cá é meu, e a gente se vê na cama após nossos processos de criações artísticas. Embora tenham falado que se amam antes da sessão, a impressão que tive do filme é que o casamento é um acordo ou contrato fadado a falir; uns duram mais, outros menos e outros, por conveniência, e jamais por prazer, duram a vida toda, assim como existe uma felicidade eterna. 

O filme instiga uma relação a dois, porém também alerta que por mais que tenhas um amor, a carga existencial é sempre única, mas ok: vale o risco de viver a dois, porém que para isso aconteça é necessário uma maturidade para deixar que o outro ultrapasse o giz da barreira e sinta-se confortável na zona de conforto do outro.

Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava, de Fernanda Pessoa, SP, 2017.

O filme faz parte da mostra 50 anos em 5 dias, onde o festival de Brasília faz um apanhado político-cultural do Brasil.  No documentário da Fernanda, somos convidados a rever as pornochanchadas, obras populares devido a censura da ditadura no período militar. O documentário é agradável porque a montagem foi muito bem feita. 

O Luiz Cruz montou o filme por temas, e talvez por isso o filme torna-se tão atual. Sendo mais específico, os temas foram divididos por sub-temas, tais como: Tortura, patrulha, o uso do corpo feminino para chamar empresários gringos; e exatamente queria chegar neste ponto, onde se via malas de dinheiro para comprar os corpos sarados destas brasileiras esbeltas, e tal cena se aproxima, bastante até, das cenas dos coronéis nordestinos ou do Cunha recebendo propina na prisão, que vemos todos os dias nos telejornais.

Guarnieri, dirigido e corroteirizado por Francisco Guarnieri, SP, 2017.

Teatro e cinema se misturam no documentário do neto do protagonista. Em síntese, tem-se uma análise antropofágica da carreira de um dos maiores, senão o maior, ator e dramaturgo que do Brasil. O enxuto documentário, com pouco mais de uma hora, foca na obra prima do Guarnieri: Eles Não Usam Black Tie; peça que depois foi adaptada à televisão e cinema, onde mostra o Brasil, em especial o ABC paulista, na luta contra a ditadura e por direitos básicos de trabalhadores metalúrgicos: uma obra-prima brasileira. 

Em debate após a sessão o diretor , assim como inúmeros outros documentaristas, reclama o estado de abandono que está à cinemateca brasileira, e por isso tanto difícil foi achar documentos, fotos, vídeos e cartas, para a feitura do filme no seu processo de pesquisa, fase esta para qualquer documentário que se preze, a mais importante de todas, pois ali se faz o filme, e o que acontece após é a montagem do que fora conseguido achar, e por isso é o processo mais demorado de qualquer documentário, que se preze, mais uma vez. 

Ademais ao protagonista, o diretor, cuidadosamente e também, logicamente, tem um lado emocional envolvido na pesquisa da relação do Guarnieri avô com o seu pai e tio. Muito interessante à mostra 50 anos em 5 dias; sem medo afirmo: são os melhores filmes desta edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
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O Nó Do Diabo, dirigido por Ramon Porto Mota, Gabriel Martins, Ian Abé e Jhésus Tribuzi, PB, 2017. Os diretores são inúmeros porque o filme se desenrola em cinco contos de horror com datas diferentes, porém com uma mesma locação: a fazenda dos Vieiras. Podemos escrever, também, que trata-se de cinco encontros com a morte ao longo de duzentos anos, e que tem como tema central, além do horror e da morte, o da escravidão; sendo estes cinco contos , cinco nós que não se desatam nunca, nem após a própria morte. 

Este foi o único filme de horror que vi na quinquagésima edição do Festival de Brasília, e muito provavelmente seja o único, por este gênero estar tão em baixa na filmografia brasileira, e isso desde sempre, é importante salientar, então quem tenta explorar tal gênero, já é, pelo simples desafio: digno de nossos aplausos, e isso por qualquer que seja o resultado da obra fílmica. 

Pois bem : além de lembrarmos o quão cruel fora o tempo da escravatura brasileira, o filme tem uma belíssima direção de arte e efeitos sonoros, mas principalmente os efeitos especiais, com cabeças e miolos sendo acachapados com tiros certeiros e potentes. A duração do longa pareceu-me exagerada, em suas mais de duas horas, porém o resultado final é bacana, e vemos que o Brasil tem qualidade em todos os seus cantos/estados. Parabéns a Paraíba pela ousadia, marca registrada do seu cinema, escreva-se de passagem. 
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Por Trás Da Linha De Escudos, de Marcelo Pedroso, PE, 2017. O diretor-documentarista é engajado em ideias de esquerda, e talvez por isso, o filme tenha sido o único que foi vaiado no final de sessão no festival de Brasília. 

De início temos um protesto contra a instalação de torres de luxo, no Recife. O batalhão de choque, então, é chamado para espalhar a multidão e acabar com o protesto. Um sujeito acaba resistindo, e por isso, leva dois potentes jatos de lacrimogênio, de uma distância bem próxima, de modo que acha que fica cego, porém só acha mesmo. Após as reais cenas do protesto, já nos aparamos com um take de plano médio na grande ocular de um homem, que em breve saberíamos que seria o tenente daquele pelotão de choque do protesto.

 O documentário se inicia de fato quando esta conversa surge, o tenente com o diretor do filme, e não trata-se de uma conversa, mas sim de entrevista, onde o entrevistador investiga o “outro lado” dos protestos; a lado inquisidor da ordem e da moral: o da polícia. Quando cessam as perguntam ao tenente, o documentário embrenhasse a relatar o que os soldados daquele protesto têm a dizer, ou melhor, o que eles pensam agindo do outro lado, ou no lado da “lei”, esta na qual o diretor deixa evidente, que pode ser injusta. 

Mas isso é óbvio; então para sua obra não torna-se rasa narrativamente, o documentarista percebe a necessidade em adentrar-se no mundo de um pelotão de choque da policia militar, esta no caso, de Pernambuco. Antes disso, o diretor deixa claro aos policiais , que estava naquele fatídico protesto, e por sua surpresa alguns soldados o reconhece, entretanto ainda assim, permitem a sua imagem e testemunho a obra fílmica. Nasce assim, o corpo narrativo do filme, onde, minuciosamente, a obra tenta pegar a visão dos soldados na hora H. 

Mas porque o filme foi vaiado no final? Porque para o público leigo, existiu um “bundamolismo” no sentido do filme falar, em alto e bom tom, de que lado estaria: da polícia ou dos protestantes (povo); tendendo a ficar mais ao lado da polícia. Sob um olhar um pouco mais especializado, tendemos a anular essa visão dos “espectadores comuns”, e analisar o documentário de uma visão que o diretor quis, ou queria passar. Oras, o cara que fez o filme: Brasil S/A, premiado em Berlim e Brasília, inclusive, não iria ao desencontro de suas ideologias e filmografia, principalmente. 

Lógico, e isso sob um olhar mais apurado, que não existiu nenhum “puxa-saquismo” sob o lado da polícia de choque, mas uma tentativa de entendimento como o “outro lado” funciona e pensa na hora do conflito, e lógico que tal resposta não viria de soldados ou tenente, mas sim de uma posição bem acima deles: o status quo da república federativa do Brasil, onde um dos soldados nos lembra de que, inicialmente antes de governos, a ideia de ordem e bons costumes vem de uma disciplina militar; não a toa tivemos o golpe da ditadura para restabelecer a ordem no país naquela época.

  E, hoje, alguns milhares concordam que tivemos um golpe estabelecido com a queda do governo Dilma, mas quem está no poder é seu vice, então fica difícil fazer algum tipo de comparação entre o golpe da Ditadura e o tal “golpe” do Temer, já que este era seu aliado e por causa dele e do seu partido, também, a Dilma conseguiu reeleger-se. 

  Achei corajosa a ideia do documentário em abordar o universo de uma polícia de choque, e isso com direito a conhecermos as suas armas , tais como: spray de pimenta, gás lacrimogênio, granada, estratégias de defesa em um confronto, e até o motivo dos policiais serem resistentes as armas tóxicas que usam em combate. O diretor quis mostrar que, para ganhar do seu opositor, é necessário antes se igualar a ele: psica e fisicamente (ou com armas à altura); e óbvio que o público não entendeu tal profundidade; pena.
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Música Para Quando As Luzes Se Apagam, de Ismael Caneppele, com Júlia Lemmertz, RS, 2017. Nunca se teve tão em voga a temática dos gêneros no Brasil. Até a rede Globo apoiou a causa em sua revista eletrônica, aos domingos à noite. O longa gaúcho tem o mesmo tema central. Ou seja: um homem que nasce em um corpo feminino, mas poderia ser vice-versa. Todavia no filme, temos uma menina vendo que não aquilo que parecia ser em sua puberdade. 

A mãe, em ótima atuação da global Júlia Lemmertz, vê a transformação da filha para filho; e para não ter nenhum contratempo, elas isolam-se numa ilha para que, essa transformação aconteça sem traumas de terceiros preconceituosos. A luz do filme é sensível, assim como o tema, e a menina, por sua vez, não apresenta nenhuma sensibilidade aflorada, pelo contrário, existem nela os hormônios masculinos e femininos digladiando-se em um jogo de bola e gandula.

 E a bola, ou melhor, os hormônios masculinos detonam os femininos.  A mudança é vista pela mãe, que também é autora, e usa aquele momento para alguma inspiração, além de ajudar a filha. O que vemos é uma junção entre mãe e filha, sendo que as duas parecem serem um só corpo em determinada cena, onde as duas , nuas, caminham perante alguma resposta sobre o estranho inevitável: a transformação do “eu- feminino” ao “eu- masculino”. Não existe culpa, apenas indagações do que fariam a partir da transformação da puberdade da Emilyn: a filha. Um filme honesto com o tema dos gêneros , e que pode pode vir a ser a zebra, domingo no Festival de Brasília; é ver para crer.


* O jornalista viajou a convite da antológica e memorável quinquagésima edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.