quinta-feira, 04 de junho de 2020
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

Estado Itinerante, drama de uma mulher no Brasil

Filme que retrata o cotidiano de brasileiras
08/07/2017 às 08:58
Estado Itinerante, de Ana Caroliina, com Lima Dias, Brasil, 2016.      

Com um arpor poético que foge dos padrões vos apresento-lhes a nossa obra fílmica dessa fria semana soteropolitana. A estória, ou o roteiro do filme, cuida-se em apresentar-nos Júlia, essa personificada por muitas mulheres brasileiras. Nela percebemos a olhos nus marcas roxas em seu corpo, entretanto nada se comenta sobre o ocorrido, apenas deduz-se que Júlia sofre agressões físicas e psicológicas do seu companheiro, embora este nunca apareça em tela. 

Percorremos, ao lado de Júlia, a angústia de existir sem um emprego, e pior: azar no jogo e no amor, também. Ainda assim aquela mulher, assim como tantas outras brasileiras, não entrega-se as picuinhas da vida , e consegue um emprego de cobradora de ônibus, profissão essa stressadíssima devido aos rushs das capitais, esta no caso, Belo Horizonte.

 A perspicácia da diretora foi a de chamar, excluindo-se a protagonista e outros papeis, mas de “deixar” que funcionários deste ofício desce corpo a obra fílmica. As conversas que Júlia tem com suas colegas de trabalho são de fato com todo teor do termo “conversas de botequim”, e talvez por isso que o filme seja tão sensual, poética e bom de se ver. 

Homens, salário, empresa, colegas, bolsa ou simplesmente um pedido de trago de cigarro ou um pouco de batom emprestado permeia a historieta de uma mulher vulgo “comum”, porém como já diria o poeta: “de perto ninguém é normal”.

 Então, dessa forma, a cena catártica do filme em seu final, mexendo, inclusive, com formatos de roteiros padronizados onde o ponto máximo de tensão está no meio do filme. Todavia especificamente sobra esta obra, temos esse ponto máximo de tensão, ou catarse, acontece após uma bebedeira e a Júlia ouve uma canção que a faz surtar ao ponto de desmaiar de cansaço quando a música acaba. 

A cena é forte, visceral, e mostra a Júlia, por pelos menos uma noite, ser um ser humano feliz. No dia seguinte vemos Júlia e uma amiga de costas conversando ou divagando após aquela catártica noite que a faz tomar decisões em sua vida para, quem sabe, ser feliz todos os momentos dos dias, e não somente por uma noite. Bela poesia exposta em lente do cinema mineiro.