terça-feira, 25 de julho de 2017
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

A OESTE DO FIM DO MUNDO, e a solidão em cena

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12/05/2017 às 18:28
A Oeste Do Fim Do Mundo, de Paulo Nascimento, Argentina/Brasil, 2014. Estamos na Argentina em um velho posto de gasolina perdido na imensidão da antiga estrada transcontinental que é o refúgio do introspectivo Leon (César Troncoso). De poucas palavras, poucos gestos e nenhum amigo. Sua solidão só é apenas quebrada por um ou outro caminhoneiro eventual que passa por ali para abastecer. Ou pelas visitas sempre bem humoradas do sarcástico Silas (Nelson Diniz), um motociclista com ares de hippie aposentado. 

   O tempo passa devagar nas margens da velha estrada. Até o dia em que a enigmática e inesperada chegada de Ana (Fernanda Moro) transforma radicalmente o cotidiano de Leon e Silas. Aos pés da imponente Cordilheira dos Andes, segredos que pareciam estar bem enterrados vêm à tona, reabrindo antigas feridas e mudando para sempre a vida dos protagonistas. Esta poderia ser uma sinopse perfeita, mas ou todavida também seria "imprecisiva". 

   Fato é que Silas como a mulher que acabara de chegar ao local estavam paralisados devido a traumas do passado, caso contrário não estariam naquela situação limítrofe onde nada mais importava, principalmente as pessoas. A mulher se separou porque perdera seu filho por um vacilo maternal, e imaginamos a culpa que ela carrega por tal distração, isto é, em deixar afogar seu único filho de dois anos. O protagonista estava na Argentina, mas poderia estar no Marrocos que não faria nenhuma diferença: era um ser errante e sem rumo, assim como a mulher que chegou. 

   Trocando em miúdos , ou por outro lado, o nosso protagonista era outro desgraçado que a vida o predestinou a sofrer por um motivo quase igual: a diferença é que seu filho ainda estava vivo, mas como não o via e não se relacionava com ele era a mesma coisa como estar morto. Ou seja: dois desafortunados da vida que se encontram pelos seus destinos errantes , ambos querendo se esconder do mundo, seria os seus destinos finais? Pra quem acredita nisso poderia até ser, mas os mais céticos poderiam cravar afirmando que seria a “desgraçatez” unida para entender o porquê a vida fizera isso com aquelas almas revoltosas , e com razão, escreva-se de passagem, pois carmas não podem ser não aceitos, é tipo uma missão que já vem desde o berço e a pessoa não tem pra onde correr porque jamais conseguirá mudar seu carma de vida. 

   Entretanto o filme pode, sim, ser considerado um rodie movie embora não ande pela estrada, mas sim paralise-se nela. A fotografia de um lugar tão bonito e inóspito e os silêncios barulhentos dos personagens são os pontos fora da curva de uma obra fílmica que de primeira não nos mostra nada, mas que, com um olhar mais atencioso ou generoso vemos a fragilidade dos homens por justamente sermos seres sociais por excelência e por genética. 

   E por mais que lutemos ou discordemos acerca disso cairemos na mesma discussão sobre a solidão ser boa ou ruim para nós, e o filme nos mostra que ser sozinho é impossível hoje em dia, até mesmo porque sempre tem alguém que consegue te encher o saco, e isso para o bem ou para o mau. Bela obra que nos permite pensar na vida e com uma estupenda fotografia que vale muito ser conferida.
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   Contracorrente, de Max Gagino, Brasil, 2014. O diretor é meu amigo, porém antes de tudo prezo pelo papel de crítico de cinema. Entendo que o diretor sai de um lugar litorâneo da Itália, deixando parente em meio a crise europeia, e isso está retratado no filme, mas como um "tripé" da direção para com o público, que este é o papel do crítico, tenho que escrever o que achei: Pois bem, tanto a narrativa como também os personagens são demasiadamente fracos, o que o faz do filme também taxado como ruim. A história é de um italiano que vem a Bahia para se autoconhecer, até aí tudo bem e louvável até fazer uma obra que apresente as ruelas da capital soteropolitana. 

   A respeito do protagonista, poderíamos comparar como ele indo à Índia e esperasse que todas as suas respostas existenciais fossem respondidas. É lógico que o Max fez do protagonista ele mesmo, seu alter ego, porém o diretor tem origens africanas e o personagem é um genuíno branco italiano, ou seja, não colou. Ainda assim  a estória se desenvolve com o italiano migrando à Bahia devido a crise e este se esforçando a aprender o "baianês" através de um amigo "boa praça" que o coloca nas mais diversas situações, inclusive o levando a comer uma feijoada na casa de "Mainha" em um baita bairro barra pesada, Nordeste de Amaralina: local dos mais perigosos traficantes do estado. 

   Fato é que o italiano ganha o pão de cada dia dando aulas do seu idioma as pessoas interessadas, e através do seu lavoro ele consegue encontrar o que tanto procura: uma grande paixão. A moça é da região da Chapada Diamantina, mas precisamente Itaberaba, e veio a Salvador fugida de um namorado ciumento que a batia, nada fora da realidade nordestina e brasileira, inclusive. Aulas de italiano vêm e aulas vão até que o italiano dá o bote na sertaneja. O romance é rápido e sem muita frescura como o filme inteiro, mas é fato que os dois se envolvem e se se apaixonam,e com isso somos agraciados a a tour aos mais belos locais de Salvador, desde a Ribeira até o Rio Vermelho. 

   Porém como é sabido por todos, o visto de turista em qualquer país dura em média três meses de modo que nosso italiano ultrapassa esse período e a polícia federal fica em sua vigília ou em bom baianês: em sua butuca. O que achei mais tosco foi o final do filme figurando a ideia de que o protagonista italiano tenha dado um “mais nunca” no agente federal e finalizando o filme, literalmente, com a frase “alguma coisa de ânus é pênis”. 

   Ou seja: supõe-se que o imigrante italiano muda de endereço e com isso engana a polícia federal e fica o tempo que quiser no Brasil, ou seja, até hoje. Por o filme ser autobiográfico lança-se a pergunta: será que o diretor Max Gaginno passou por essa situação constrangedora. 

   Por ser bisneto de italiano me aprofundei o suficiente na trama para afirmar que a obra fílmica poderia ser mais desenvolvida, tanto no quesito roteiro como na direção. Se foi o primeiro longa do diretor é perdoável os erros, mas pelo que acompanho sua trajetória afirmo que ele já fez vários curtas bem melhores e talvez por isso, pela expectativa, que o resultado do longa deveria ser melhor, pois todos os curtas do Max são de extrema qualidade e premiados , inclusive em Gramado, coisa que não acontece neste longa metragem nem de longe. 

   Nunca fiz um curta ( mas o primeiro já está a caminho) nem tampouco um longa metragem, sou crítico de cinema e por enquanto estou satisfeito com isso, mas se pudesse dar um conselho ao diretor este seria que ele ficasse fazendo seus curtas-metragens de qualidade e dar um tempo,ao menos por enquanto, na ideia de filmar longas metragens, até que tenha a maturidade suficiente para tal lavoro.