quarta-feira, 18 de setembro de 2019
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

JONAS E O CIRCO SEM LONA, um tapa na educação formal,

Dois filmes para você comentar e assistir
06/05/2017 às 10:49
  Jonas E O Circo Sem Lona, de Paula Gomes, Brasil, 2017. Realizar um filme que tenha a ver com seu universo flui mais rápido, eficiente e prazeroso, de modo que tudo acontece sem stress e com uma naturalidade de quem só vive aquele universo não acha todo o resultado incrível, mas sim fruto de uma vida dedicada e apaixonada pelo circo. 

   Tive o prazer de ver esta obra juntinho com a diretora e o protagonista, Jonas: um menino de treze anos de idade que teve que abandonar o circo para viver “normalmente”, como um menino comum em Dias D`Ávila, na região metropolitana de Salvador, vive. 

   Todavia o longa surge deste impasse, afinal como um menino do mundo fantástico circense pode se alienar e juntar-se com outros numa escola pública da Bahia? 

   A resposta é que sim, isto é, ele não só pode como se junta na educação formal, e com certeza pela inoperância da formalidade e burrice da nossa educação, surge uma necessidade vital para um garoto sensível e inteligente como é Jonas, então este dribla-a e diante da circunstância nutre-se uma vontade do seu estudo informal corporal preferido, este que o mundo circense pode oferecer e não aulas chatas e sem alma alguma de educação física em sua escola. 

   Sim, existe uma certa genialidade do não conformismo instalado na mente do Jonas, e por isso o faz ser um jovem inquieto ao ponto do diretora da escola reclamar com a diretora do pseudo documentário que aquilo estaria fazendo ruim ao próprio Jonas e a turma inteira dele por conseguinte, pois ele fica bem na “fita” quando o documentário é filmado, porém quando as câmeras não estão lá ele é outra pessoa: totalmente desligado das aulas, fato este que é só culpa de um sistema educacional ultrapassado e falido de valores morais, inclusive. 

    O documentário é em suma isso: esse transdesligamento , ou desinteresse mesmo, de um menino por uma educação que pouco lhe daria em troca, ao contrário do circo. 

   A diretora, também circense, consegue ter a sensibilidade e capta essa falta que Jonas sente: a da verdade, a falta de falar com as pessoas olhando em seus olhos ou a ojeriza do garoto por mentiras cotidianas que, tanto poderia ser de um professora como a de um diretor de uma empreiteira, por exemplo. Por isso é que Jonas, cansado desse circo todo que o Brasil se transformou, decide então criar o seu próprio circo no quintal de casa, e talvez por isso o título da obra seja: Jonas e o circo sem lona, isto é, pela sua varanda não ser coberta, ou em em outras letras: por ser garoto humilde não teria nenhum teto de vidro ou dólares nas ceroulas para comprar sua liberdade de continuar sonhando em algo melhor, tanto para ele como para sua comunidade também. 

   Fato é que uniu-se uma paixão antiga da diretora e um amor visceral e transcendental do protagonista pelo circo. O documentário foi bem aceito em diversos festivais mundo afora e agora encontra-se disponível nas melhores salas de cinema que você pode apreciar.
                                                                                  
                                                          *****

   Entreturnos, de Edson Ferreira, Brasil, 2014. O roteiro é até besta, afinal quem não viu um homem casado se apaixonar por outra: fato absolutamente normal. O que instiga neste filme é a forma como ele se apaixona. 

   Temos como protagonista um cobrador de ônibus casado com uma mulher gorda e sem sensualidade alguma; resultado: é traída por outra que nem é tão bonita, mas tem o tal do Tcham, aquela coisa que o homem fica doido por querer: o remelexo, a provocação de um short curto, e mais a consciência que é um ser fêmea e por isso usa e abusa dos seus atributos genuinamente femininos. 

    A trama fílmica se desenrola num romance a três: dois homens e uma mulher, sendo que esta fica grávida de um dos dois, fato este que desestabiliza a esposa do protagonista, mas filho colocado no mundo é sem chance de mudar. 

   A mulher grávida, porém tem um passado conturbado com um presidiário pedindo-lhe dinheiro e com isso complicando-se, afinal não existe almoço grátis. O diretor é competente em mesclar o passado com o presente dos personagens centrais da trama fazendo com que o passado chegue ao presente através de grana e por isso cause um assassinato. 

  O filme é bacana por contar uma estória que pode acontecer com qualquer um, basta estar vivo para acontecer, afinal de contas se apaixonar é um risco que se corre a cada esquina.