sexta-feira, 22 de novembro de 2019
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

Se Deus Viera que Venha Armado, a voz da periferia

Jovens infelizes ou um jovem que grita não é um urso que chora, de Thiago B. Mendonça, Brasil, 2013: um filme intrigante
22/04/2017 às 10:21
  Se Deus Vier Que Venha Armado, de Luis Dantas ( seu primeiro filme), Brasil, 2015.
O título do filme fora retirado de um trecho do livraço Grande Sertão: Veredas, do mineiro e ícone literário Guimarães Rosa. A narrativa conta os verídicos episódios ocorridos em 2012 na maior cidade da América latina: São Paulo. 

   O PCC peita mais do nunca dantes a polícia e muitos inocentes e policiais morrem neste episodio real que o filme narra. Misturando ficção com realidade temos o um detento que tem o final de semana dos dias das mães em liberdade, sendo que este nem mais mãe têm; buraco de roteiro ao qual a narrativa não o conserta e por isso ressalvo. 

   Entretanto quando em liberdade tal detento entra, interpretado pelo eterno moleque do filme Central do Brasil, Leonardo de Oliveira, este tem de fazer um certo servicinho ao PCC e mostrar a sua coragem a facção, que é matar o máximo número de policias que puder nestas 72 horas de liberdade. Para juntar a fome com a vontade de comer um “puliça” mata seu irmão evangélico e trabalhador quando este o procurava. 

   Este fora o estopim para que as ordens do PCC fossem seguidas, e agora, com mais vontade ainda. O som do Rap é perceptível na obra fílmica e inclusive instrumento de aproximação para que o detento conhecesse uma moça pseudo- atriz que encorajava outros e outras da periferia a não desistir dos seus sonhos, ela que por sua vez não morava lá, mas era amarradona num pó. 

   Numa espécie de triangulo amoroso temos ainda o Palito, um peculiar personagem da trama que ameniza a dor e a violência  por ser um manco, e lógico, todo mundo sentir pena dele ao ponto de querer cuidá-lo e colocá-lo no colo. O final do filme é surreal e mostra a voz da periferia querendo ser ouvida pelo resto da sociedade paulistana.

    Se o filme teve a petulância em misturar um fato real com ficção, então desta forma não tenho como não tirar pela metade a sua nota, ou seja, dez dividido por dois é cinco, isto é, apenas um filme razoável que mostra a voz da periferia, e lógico, o poder paralelo, que alias não é tão paralelo assim, basta olharmos para os políticos que nos representam em Brasília com medo da lava jato: todos ou quase com rabo preso em alguma coisa, digamos, que está fora da ordem da justiça não paralela.
                                                                         ****
   Jovens infelizes ou um jovem que grita não é um urso que chora, de Thiago B. Mendonça, Brasil, 2013. A cada dia acho o universo teatral mais apaixonante pela sua irmandade e verdade dessa arte. A obra fílmica em questão permeia-se neste universo através de um grupo de atores independentes. 

   O filme mostra as ideologias desses artistas que, inevitavelmente vão contra a tudo estabelecido. Ou seja: são estranhos no ninho e parecem nadar-se sempre contra a maré, fato este que por mais que exista irmandade uma hora o sistema mostra quem manda bruscamente e a realidade é transposta as estas realidades utópicas. 

   O título vem bem a calhar: Jovens infelizes, pois uma hora ou outra a verdade vem à tona e aí nem as orgias habituais do grupo salvam uma luz cortada ou uma geladeira vazia. Embora não queiram é preciso fazer dinheiro para, no mínimo, conseguir comer. Porém ideologias radicais não permitem tais sacrifícios e viver só de arte vira um tormento, e isso por mais companheiros que estejam no mesmo barco que você, afinal são mais bocas a alimentar. 

   A questão do “se alienar” transposta na narrativa da obra faz que pensemos que estamos literal e realmente em uma chamada sinuca de bico. Ou seja: para sobreviver é necessário prostituir-se, e hoje a chamada arte ou viver da arte é uma tarefa extremamente utópica de modo que de alguma forma o artista tem que se vender ou fazer algo que não deseja para conseguir vender sua arte. A ideia do filme de transpor o pré-estabelecido é posta em cheque no meio da obra para seu final, pois quem dera viver só de festa, e a obra mostra que a conta sempre chega. 

   O filme é no mínimo intrigante em peitar de frente toda e qualquer forma de alienação ou ordem estabelecida, e isto é bem colocado quando determinado membro da trupo após voltar de um dos inúmeros protestos anti – copa do mundo da Fifa diz: “ Vou continuar lendo Dostoiévski, vou continuar fumando, vou continuar beber, porque a transcendência da razão é a única saída para sermos livres de verdade”. Assisti a essa instigante obra em um festival de filmes independentes ocorrida na sala Walter da Silveira em Salvador, mas dá um Google que pode já tá na rede e vale super a pena.