terça-feira, 17 de outubro de 2017
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

CAMINHO A LA PAZ, opostos se atraem

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16/04/2017 às 11:13
Caminho a La Paz (Camino a La paz), de Francisco Varone ,Argentina, 2016 . A pergunta que não quer calar é: Os opostos mesmo se atraem? Digo que sim. Entretanto o enredo do filme se permeia pela seguinte situação: um argentino ,de Buenos Aires, doente com câncer na tireoide, precisa se deslocar até La Paz, capital boliviana, a fim de dar o último tchau aos seus familiares. 

Todavia a viagem requer cuidados específicos, como por exemplo, urinar de hora em hora na estrada, rezar de quatro e quatro horas por ser muçulmano, etc. Ou seja: coisas que um transporte coletivo não faria. Aí então surge o segundo personagem da trama: um portenho taxista pobre e trambiqueiro que vê o dinheiro, única e exclusivamente, como saída para todos os seus problemas, isto é, um capitalista de carteirinha e já com alguns anos de prática percorrendo bem ilicitamente, escreva-se de passagem. 

O pulo do gato do roteiro, e conseqüentemente do filme, é o de juntar os dois personagens tão distintos; enquanto um que só pensa na ganancia de ganhar mais e mais na materialidade, o outro em contrapartida, já no fim de vida, sabe que coisas materiais acabam ao pó de uma forma vexatória, assim como nossos corpos.

 Assim o velho doente convence por uma boa quantia de mufunfa, ao taxista ganancioso que o leve a La Paz, e isso respeitando a regra de urinar e rezar de hora em hora. Porém no caminho até La Paz coisas e personagens surgem de tal maneira que modificam a maneira de pensar e ver o mundo dos dois personagens centrais: O velho: o doente e já em final de vida, e o novo: o ganancioso que não sabia de nada da vida de importante. 

Filmes argentinos tem como premissa fazer o espectador raciocinar ( não a toa os inúmeros psicanalistas no país), e o que vemos é a mudança no pensar dos dois personagens centrais, e isso que implica em vermos o mundo de uma maneira de quem está morrendo e de quem está assistindo por isso, e certamente este último revendo todos seus conceitos do que é se dar bem em uma vida capitalista de puro estandarte. 

 A narrativa do filme se desenvolve nesse limite humano dos dois personagens: enquanto hum luta insanamente pelo respirar da vida, o outro, entretanto desconhece tal desfortuno de modo que vê a vida bem diferente do seu cliente, afinal a esta tem de ser vivida como já dizia o poeta. O dilema do filme se baseia nessa insistente pergunta: A vida tem de ser vivida ou tem de ser aprendida? 

Diria que os dois, pois vivendo você também aprende, de modo que com um pouco de generosidade no coração você ajuda e ainda é feliz, basta ouvir as batidas da seu coração e nada mais, pois a vida é simples: são as pessoas que complicam, e este é o principal recado que a obra fílmica deixa aos telespectadores: Ouvir as coisas mais importantes da vida, porque o resto é inteiramente supérfulo.
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Pixote: A Lei Do Mais Fraco, de Hector Babenco, Brasil, 1980. Aqui está o embrião do que viria a ser anos mais tarde o filme mais conhecido do diretor argentino-brasileiro: Carandiru. Adaptação da obra literária do médico e escritor global Dráuzio Varela. 

Começando do fim ao início temos a cena antológica de Pixote mamando uma das tetas da Sueli; uma prostituta pseudo cúmplice de Pixote e seu bando. Sueli passava pela fase de depressão pós parto, e Pixote ,por sua vez, nunca tivera esta ou alguma vez para ter alguém em chamar de mamãe. Alias teve sim, mas por pouquíssimo tempo, já que fora abandonado pela própria e entregue a Febem. E o filme inicia-se na Febem.

 Imagino como foi preparar estes não atores mirins ou pré-adolescentes, já que na época não existia um preparador de elenco, ou seja, o próprio estupendo Babenco é que fez o laboratório com Pixote e a meninada, fato este que o entristeceu ainda mais quando soube que o ator que interpretava o Pixote tinha dado cabo da sua própria vida, e esta não diferente da sua personagem. Como já mencionado a obra fílmica se dá start na Febem, e após muitas sacanagens de quem mandava os pivetes fogem para não morrerem naquele pardieiro.

 A locação “Febem” pega se não uns quarenta minutos, ou mais em um filme de duas horas e pouco. Por ter tanta “ Febem” no filme, acabamos em adentrar no mundo de cada moleque preso, estes que literalmente estavam jogados aos leões ou aos homenzarrões. Nas ruas e livres os fugitivos sobreviventes fazem o que sabem que é roubar transeuntes. Nestas cenas vemos a ousadia de Babenco filmando os pseudo assaltos em ruas não fechadas para as gravações, ou seja, isso dá um certo frescor, de modo que as cenas se tornam mais reais em comparação das cenas de assalto dos filmes e séries atuais; hoje tudo é muito certinho e jamais vemos figurantes tão reais como os quais encontramos nestas cenas de ruas neste marco que é o filme do Babenco.

 Após alguns assaltos e contatos Pixote e sua trupe se manda para o Rio para bronzear o corpo e agitar as coisas por lá. No Rio o restante da narrativa se desenvolve e também acaba por lá, e então vemos quanto à vida pode ser cruel a quem já tem um carma só seu para carregar. Para finalizar tenho duas ressalvas apenas. Primeiro: o filme deveria chamar-se Pixote: A Lei Do Mais Forte, pois isso é que ele é, sem tirar nem pôr. 

A segunda ressalva é de cunho mais da narrativa empregada à obra, narrativa esta que pode ser considerada a original falando-se de filmes com menores infratores, e copiada por outros filmes após, inclusive colocando no balaio Cidade De Deus, do Fernando Meirelles, filme este que esse critico considera como um dos melhores brasileiros de todos os tempos e gêneros. Entretanto se tratando do recém-falecido Hector Babenco, este fora a sua obra prima número hum: Pixote, um soco no estômago esplendido de filme; não a toa que dizem, ou melhor, diziam que o melhor cineasta brasileiro é ou era um argentino; e quem dizia e diz isso estava, e está, redondamente certíssimo: O Babenco era o melhor dos melhores.