segunda-feira, 23 de setembro de 2019
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

BLACK MIRROR e as relações humanas com a tecnologia

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05/11/2016 às 10:10
   Black Mirror - Terceira Temporada, da NetFlix, 2016. A Série teve os direitos adquiridos pela NetFlix, esta que é uma nova televisão a cabo mundial pelo serviço de streaming . Ou seja, basta ter uma conexão de internet e pagar uma taxa irrisória para ter acesso a inúmeras séries e filmes com uma qualidade acima da média. 

   Mas vamos focar na Terceira temporada de Black Mirror. Bom, do que se trata a série? A virtuosa série mostra a nossa relação com as tecnologias em um futuro não muito distante, e de suma nos joga uma pergunta no ar que é: usamos as tecnologias ou ficamos escravizados por elas? 

  O formato dos episódios de Black Mirror, que tem como ação propagandista a frase: “Nem tudo que reluz é ouro”, tem episódios independentes entre si. Ou seja: não existe paralelismo ou continuação. 

   Quando um acaba outro se inicia totalmente novo, porém focando o mesmo tema que é: o usar as tecnologias e ser usado ou manipulado por elas. Especificamente nesta terceira temporada temos seis episódios com cerca de 50 a 60 minutos cada. Destacaria o primeiro onde somos conectados a uma rede social ( fato este igual ao nosso atual momento), mas que nessa rede social as coisas são levadas mais a sério, escrevemos assim.

   As pessoas tem que se mostrarem simpáticas e sorridentes sempre para adquirir boas avaliações de terceiros e assim subir social e economicamente. E isso meio que já acontece hoje também, mas no seriado as consequências em desobedecer isso são catastróficas ao ponto das avaliações que te dão te jogarem na prisão ou no “paraíso” social.

   É interessante analisar como a opinião dos outros pode vir a ser tão importante a este ponto que o episódio da série mostra. Além desse primeiro temos o terceiro que é superinteressante também onde um rapaz é pego com “ a mão na massa” ou no “cinco contra um” e depois ameaçado por alguém que filmou através da câmera do computador a vazar o vídeo.

   Com a ameaça e o suicídio social que isso iria provocar o rapaz segue a risca uma série de ordens de algum anônimo que manda as mensagens por celular até ao ponto de obrigar o garoto a assaltar um banco na presença de outra pessoa que também estava com rabo preso por ter sido filmado trocando fotos com uma prostituta, fato este que acabaria seu casamento e este também fica na mão do cara das mensagens anônimas. 

   Enfim, são sempre em todos os seis episódios situações limites por você ter sido observado sem permissão e que pode colocar toda sua vida em risco. A série deixa um recado que é: Use a tecnologia do seu celular ou do seu laptop, mas não se esqueça de que o mundo não gira ao redor dela, então quando estiver em uma mesa de restaurante ou apenas com amigos passeando desligue esses aparelhos e dê atenção às pessoas reais, pois quando estas encherem do seu não comprometimento com elas, aí verás que tecnologia por ela só não serve pra muita coisa realmente fundamental.
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   Solon, de Clarissa Campolina, Brasil-MG, 2016. Este com certeza fora o curta mais louco que esse ano. O filme nos conta a nossa própria evolução como seres bípedes oriundo das aguas, então pode-se afirmar que em essência somos seres aquáticos. De início temos um cenário super apocalíptico com uma espécie de mostro que seria um ser que nós éramos a milhares de anos passados. A ideia da diretora em realmente extravasar e colocar uma carga filosófica para nossa existência é que de fato instiga duas sensações e fazermos pensar. 

    A primeira indagação é perguntar para a diretora: mas como alguém pode ter a capacidade de fazer algo tão tosco? E segundamente pensamos e então percebemos que a viagem temporal e transdimensurável da diretora é válida pela sua obra permitir que embarquemos naquele emaranhado de movimentos e criaturas estranhas como uma espécie de ebulição que dá como resultado o ser atual: aquele bípede que tem só duas pernas , entretanto sua capacidade de fazer merda é incomensurável. 

   A respeito do título do curta: Solon , acho  que a diretora quis colocar em voga a questão da solitude do ser contemporâneo onde por mais de mil amigos que temos nas redes sociais na real não temos nenhum de verdade. Solon é estar sozinho e cuidar de si. E acredite: isto é a única coisa que podemos fazer pra tentar nos defender e sobreviver de forma digna hoje em dia, principalmente no Brasil.
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    Cinema Novo -, dirigido e roteirizado por Erik Rocha, Brasil/RJ,2016. Fui ver o documentário do filho do mito Glauber Rocha. Percebo a baita "responsa" de ser filho de quem ele é: o maior cineasta brasileiro de todos os tempos por criar o cinema novo, este fora apenas uma ideia ou na melhor colocação das palavras: um ideal.

    O cinema novo era tão transcendental que ele pegava "um puxadinho" de ideologia dos cinemas: russo, italiano, francês e também do norte-americano, por incrível que possas imaginar e parecer, mescla tudo isso e temos a concepção da ideia do que se tratava o Cinema Novo ou seu movimento da anarquia total. 

   Os noventa minutos do documentário premiado esse ano em Cannes como Palma de Ouro -Palm D'Our passa-se tão deveras rápido e caceteiro como uma forma visceral, latente e por vezes tortas de uma bela poesia. O filme ganhou Cannes este ano, e poderia ser ano que vem ou o passado, pois ganharia em qualquer ano, porque os franceses, criadores do cinema tiveram a sensibilidade de "sacarem" que a história do cinema brasileiro e "quiçá" do cinema latino-americano já estavam prontos e escancarados para quem pudesse querer entender de certa maneira o surgimento do Cinema Novo. 

   A obra fílmica não esquece de cravar que tal movimento que vinham ganhando prêmios a granel em festivais internacionais mundo afora tinha a sua certeza de origem: na Bahia sob o comando firme e louco de Glauber Rocha e seus companheiros , e uma vez ou outra alguns diretores centristas contribuíam com ideais e filmes que tinha o espírito do Cinema Novo, no inicio dos anos 1960. 

   Obviamente não poderia deixar de comentar que além da homenagem poética ao pai e seus fieis escudeiros, que eram cineastas também e membros da "ideia da implantação do Cinema Novo", mas não na utopia, e sim realidade. Todos estavam no mesmo barco em busca de uma utopia para melhorar não somente o cinema nacional, mas o país como um todo através da ideologia do Cinema Novo de Glauber. 

   Tenho convicção que a solução da sétima arte serviria para o Brasil também: pegar o formato e ideias principais a partir do cinema novo da turma de 1960 e mandar bala, mesclando com os poucos bons que produzimos hoje em comparação aos grandes papas prêmios de troféus internacionais. 

   Sei que os tempos e o cinema também são outros e evoluiu, porém ideia como a do movimento do Cinema Novo é mais que urgente para o momento político que vivemos, isso sendo PT ou PSDB, ou direita ou esquerda, se é que essas bandeiras ainda existem.