segunda-feira, 23 de setembro de 2019
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

DIOGO BERNI comenta filmes do Festival Internacional de Belo Horizonte

Elon não acredita na morte foi o filme de abertua
29/10/2016 às 10:26
   Filme de Abertura do 10 CineBH International Film Festival - Elon Não Acredita na Morte , dirigido por Ricardo Alves Jr., Brasil/MG, 2016. Este talvez tenha sido o longa mais interessante que vi esse ano. A história é tão estapafúrdia que somos sugados por ela. Por sua “transdimensuração” que nos provoca. 

   Em suma temos o protagonista Elon, um vigia noturno, que de um turno para outro não vê a sua mulher dentro de casa . Ela foi dar um "zig-now" e ele sabia da natureza da companheira. Ainda assim Elon busca a esposa e principalmente a si próprio. Elon é de fato um personagem que nos cativa por seu nível de ligar o dane-se para tudo e para todos, assim como o fez em estupenda cena em que na hora em que fora demitido por faltas, o mesmo dá um arrotinho sacana como resposta a sua demissão, e somente por causa daquele ar provindo e destemido saído urgentemente da sua boca, pegastes uma demissão por justa causa. 

   Vai então a procura na casa da sogra e esta não o deixa entrar e nem diz do paradeiro da filha. O filme de quase 90 minutos é surpreende porque é focado na face de Elon ,e este fator nos faz um tipo de cúmplice das ações e não ações do protagonista. 

   Todavia ou também assim o filme tem a magnitude de focar nas nuances da face de Elon, um sujeito bem esquisito, e que de fato como o título sugere, não tinha medo de morrer porque já o estava ( morto ou vivo mas morto) quando perdera sua amada. 

   Elon é um poeta analfabeto que por isso teve que ser vigia pra ganhar o pão de cada dia e se dizer "normal" e " sem periculosidade" para com a nossa sociedade. Na real  Elon explode no fato de que a sua amada o abandonara e faz tudo que queria fazer sempre: transgredir em todos os sentidos e maneiras possíveis, mas como fazer isso se nem saber escrever o nome sabia? 

   Através de gestos ou as faltas destes nos mais simples acontecimentos sociais, como não dar um Bom dia ou não querer se comunicar de forma alguma, e isso não se importando nem um pouco com o juízo de valores que poderiam fazer dele, na real ele nem tinha a dimensão disso e de nada aquilo; ele simplesmente segue seus impulsos de poeta doído( de dor) e se comporta com a melhor das boas intenções, para ele somente, para segurar a onda da falta da sua escrota amada.

    Eis que um dia a sua amada magra e bem acabada das farras e orgias volta pra casa e Elon como um poeta “pombo sujo” e abestalhado trepa visceralmente com aquela mulher de olheiras grandes e que fazia a cabeça do Elon. Um filme para ser analisado e assistido mais de uma vez, e o 10 CineBH International Film Festival acertou em cheio em selecioná-lo para seu filme de abertura.
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   Beduíno, dirigido e roteirizado por Júlio Bressane, Brasil, 2016. Tentei achar algumas palavras que definissem o filme, mas a que me vem à mente é somente uma: Cabuloso! Assim percebi a obra do septuagenário diretor carioca. 
 
   Segundo ele, em entrevistas, a sua necessidade em fazer cinema não é provinda de firulas, mas a existencial, talvez por isso explique tanto tempo entre um filme e outro, o último tinha sido em 2007. Em Beduíno percebemos que de fato não existe nada dado ao espectador. 

   É mais uma necessidade interna do diretor mesmo que qualquer outra explicação. O diretor explica que a demora para o nascimento de Beduíno ocorrera por causa das inúmeras fontes que ele teve que apoiar-se para que determinadas cenas surgissem e tomassem corpo, mesmo que para um leigo tais cenas não dissessem nada, mas como o cinema é uma forma de existir para Bressane, este se importa pouco com a receptividade ou entendimento que suas obras provocam. 

   Se formos fazer uma analise por alto da obra, escreveríamos que temos um casal  bastante curioso composto por velhos parceiros do diretor, Alessandra Negrini e Fernando Eiras. Eles compreendem a arte ou acham que a arte surge acompanhada de uma singular pretensão metafísica em um cenário de luz onde se misturam esperança e desespero. 

   E de fato a metalinguagem impera na obra onde poesias e versos sobre várias coisas são citados em primeiro olhar “ ao léo”, mas que a um segundo olhar percebemos a profundidade de cada narrativa desconexa com os personagens apresentam.

    O tema que um ser enforcador que mata mulheres loiras é jogado à tona no fim do filme, e as coisas anteriores se conectam com a história do sufocamento até a morte de um ser, aparentemente, alias totalmente assassino. Isso nos faz pensarmos de como as pessoas se sufocam por inúmeros fatores até o ponto, se você permitir, de sufocarem tanto umas as outras de se matarem. São muitas as metáforas que o filme provoca e então percebemos ou imaginamos quantas foram às fontes literárias, plásticas, entre outras para que o filme fosse finalizado. 

   Viver não é arriscado, mas sim existir o é. Viver qualquer bicho vive, agora ter a capacidade e percepção de saber que existe é coisa pra lá de complexa, porém temos que buscar essa amplitude existencial para o entendimento da vida e Bressane nos instiga a tentar a fazer isso. Filme visto no 10 Cine BH International Film Festival.
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   Crisântemos Tardios, de Kenji Mizoguchi, Japão, 1939. Frequentar festivais internacionais de cinema é bom e proveitoso porque tem-se a possibilidade de conhecer a fundo a história da sétima arte, e não superficialmente. Esta é mais uma obra que fica “ad eternum” em nossos corações e mentes por seu grau de significância e profundidade onde só o cinema tem a capacidade de aprofundamento para que captemos em detalhes determinados momentos e aspectos de alguma cultura de um determinado país. 

   O cinema encurta barreiras e nos permite conhecer aquilo em que nem sequer por hipótese acharíamos que existiu, e isto decorre não somente por vossa preguiça em buscar fontes mais rejuvenescedoras, mas sim em um bloqueio das grandes massas corporativas que não permitem que tal história ou determinada informação longínqua chegue a nós. 

   Temos mais uma bela obra do Cine BH International Film Festival em sua décima edição. Esta que grita ou explicita que o show tem de continuar a qualquer custo, até mesmo da morte. Alias a morte é fator fundamental para que a arte respire. 

   Trocando em miúdos a arte só consegue chegar até nós quando esta, marginal e anarquicamente “fura” com algo que já se encontra estabelecido e “intrísicado” como duradouro e confiável. A arte vem pra derrubar o velho e valorar o novo, pois como sabemos: o novo sempre vem, quer queiramos, desejamos ou não. 

   Acho que a essência da obra japonesa do importante diretor de olhos puxados está descrita, ou ao menos foi tentada ser descrita já que o filme não é muito fácil de compreender por inúmeros aspectos que vão desde a sua época assim como a forma de filmar atípica do diretor, e também o tema do enredo do filme. 

   A história fala de uma determinada família japonesa de artistas respeitados em Nagoya e Tóquio, onde o seu símbolo familiar seria um Crisântemos, que é uma espécie de flor japonesa  popular na cultura oriental. A passada de bastão é a ideia central do roteiro. Ou seja: o pai, que era um ator veterano, teria que passar o “bastão” artístico para o filho. 

   Entretanto isso não ocorre pelo filho se apaixonar por uma serviçal e com isso as estruturas familiares, mesmo sendo uma família artística, balança-se a tal ponto de pai e filho romperem relações por vaidades dos atores e pelo nome da família, principalmente. 

   A sessão teve o privilégio de um debate com o crítico italiano Adriano Aprà, este que teve a gentileza de nos iluminar sobre a  difícil , porem encantadora, obra peculiar, por vossas ignorâncias acreca da história do cinema, pois quem pensa que é só pegar uma câmera e filmar, estar redondamente enganado por a sétima arte ser quase uma ciência exata por tantos processos que passou até chegar aos dias de hoje parecendo que é tudo fácil e autoexplicativo em rodar um filme: coitados de quem pensa assim, vais ser eternamente um zumbi que pensa que sabe fazer cinema. Cinema é estudo e os filmes estão aí pra isso, então metas a bunda na cadeira e vai a estudar!
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    Le Bassin de J.W. , dirigido por João César Monteiro, Portugal/França, 1997. Engana-se quem achas que o cinema português se resume só a Manoel de Oliveira. Talvez isso aconteça pela distribuição internacional ser deveras ingrata com outros diretores. 

   odavia em festivais de cinema temos a oportunidade de conhecer os outros diretores lusitanos, e sem dúvidas fora um belo presente, alias um belo achado conhecer João César Monteiro e sua vasta e rica obra cheia de metalinguagens e metáforas que dizem o que foi e o que ainda é Portugal. O filme em questão: Le Bassin de J.W. é falado em francês e português onde o diretor propõe misturar teatro com cinema. 

   O protagonista é o próprio diretor, no qual diz chamar-se Henrique e apresenta-se como um lobo -do -mar na reforma, ocasionalmente de passagem, antes de tentar realizar um velho sonho em que o seu ídolo de infância, John Wayne, mexe maravilhosamente a bacia ( ou os quadris, em brasileiro) no Polo Norte. 

   No filme fica nítida a pretensão do diretor-ator em dizer-nos que não dá mais pra ficar em Portugal no final dos anos 1990. Pois quem aguenta-se a viver naquele país, o Polo Norte seria “fichinha”, já que todos achavam a pior das insanidades o seu desejo de mudar-se pra lá. Paralelo a esse desejo do excêntrico personagem, tinha-se uma espécie de ensaio teatral onde um cara que dizia-se Deus ficava a ler e copiar um texto bem estranho com outros dois indivíduos, uma rapariga e um homem, também pra lá de estranhos. 

   Fora isso, se o roteiro não é lá grande coisa, a obra se supera e eleva-se pelas atuações dos seus atores, principalmente do seu estupendo e criativo anárquico diretor e protagonista da estranha e divertida trama que diz um pouco de tudo que é de ruim do mundo, e talvez por esse excesso de querer consertar o mundo a sua maneira, na tora, a narrativa da obra se perca no meio do caminho. 
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   Gertrud, de Carl Theodor Dreyer, Dinamarca, 1964. O filme é todo rodado em prol da sua protagonista, Gertrud. Por via dela vimos como reflexo outros quatro homens que compõe a trama, e de uma certa maneira estes são espelhos da protagonista. 

   De inicio temos Bertrud casada com um político e apaixonada por um poeta, com o qual esta foge, mas não dá muito certo. Os planos sequencias do filme foram uma revolução no cinema da época da Truffaut e Goddard. Por ora mostravam a cena como um todo e quando queria focar em alguém ou algum objeto a câmera meio que desfocava a imagem e pegava somente o elemento; coisa inovadoríssima para a época. 

   Todo em P&B, como não poderia ser diferente para a época, a narrativa do filme cativa porque mostra um emaranhado de personagens que giram em torno de uma só personagem: Gertrud. O filme tem uma conexão com o teatro bastante interessante também e a ideia do roteiro de focar em um só personagem é bacana porque percebemos o reflexo dos outros personagens e elementos fílmicos em prol da protagonista. 

   A mensagem da poesia como o elemento maior de todas as artes és deveras interessante e faz com que fiquemos pensando nesta indagação durante muito tempo acerca no que é ser poeta; se é uma escolha ou uma imposição existencial. Quem poeta é sabes a dor e dissabores de sê-lo.
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     Recordações da Casa Amarela, de João César Monteiro, Portugal, 1989. Se não foi o melhor certeza que foi um dos melhores filmes que vi em festivais de cinema. Primor porque a obra fílmica reverbera em nossas psiques com tamanha intensidade por mostrar as vicissitudes e translumbamentos que todo e/ou qualquer ser humano carrega: seu fardo de existir. 

   Os melindres da alma humana estão impressos na obra portuguesa, assim como a puxada de sardinha para os sabores e dissabores lusitanos é evidente ora, pois. Este mesmo povo que nos colonizou também nos carregou seus modos de pensar na vida e existência de uma forma particular e um pouco sofrível, onde só o fardo e/ou sofrimento seriam capazes de nos identificar e, por conseguinte um modo de viver e ver a vida.

    No caso particular do filme Recordações da Casa Amarela, e também não muito diferente do que já descrito, temos um homem de meia idade, alias seria melhor classificarmos como um pobre diabo de meia idade. Pois bem, este ser desprovido de qualquer vaidade humana ou animal até, vive em uma pensão barata e familiar, onde vive seus dias entreolhando a fechadura da filha do pensionato: um primor de donzela, e ainda clarinetista de mão cheia. Com os dias e com as fissuras tal protagonista “troca os pés pelas mãos” e ataca à donzela. 

   Ação esta que origina o seu expulsamento da pensão e daí então o camarada vê como a vida seria difícil, bem mais difícil que seus problemas de saúde de um homem de meia idade que se alimentava mal ou não se alimentava. Na rua o esdrúxulo protagonista proeminente de uma magreza peculiar dura pouco, de modo que rapidamente o internam e um hospício e também logo o sai de lá para cumprir uma importante missão dada a um amigo seu interno igualmente débil mental: “Vai, e dá-lhes trabalho!”. 

   Ou em outras letras: volta pra rua e dá-lhes trabalho a quem de direito lhe acha um inconveniente. O filme tem uma carga anárquica considerável já que nosso protagonista vive e está sempre à margem de tudo e de todos, e existe um certo prazer nisso: romper com o pré-estabelecido e se fazer diferente pra não ficar na mão dos que todos ficam. 

   O trabalho aqui é implicado de outro modo que é dar aborrecimento a quem se acha a autoridade, e essa ação de fato tem uma força estrambólica porque se formos refletirmos de quem dá trabalho a outro alguém, cairemos na mesma resposta: o sistema, então deste modo se levarmos a sério a ideia do protagonista em: “ Vai, e dá-lhes trabalho!”, concubitamente mexeríamos com o estabelecido perante as regras de moral e bons costumes. Sendo este o trabalho outro, temos que ver o mundo de uma nova forma e talvez daí surja alguma coisa boa e nova para termos alegria em denominar de trabalho, pois para vosso protagonista este ponderoso e habitual denominado trabalho, sempre será de cú é rola ora, pois. Filme visto no 10 Cine BH International Film Festival.
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   O Eclipse – L’ Eclisse, dirigido por Michelangelo Antonioni, Itália, França, 1962. O crítico italiano Adriano Àpra vai me desculpar, mas não achei que o filme transpassasse a dificuldade do diretor em se relacionar em um alienante mundo moderno, como menciona em Masterclass após a sessão. 

   Acho até que o protagonista, interpretado por Alain Delon, e por isso um espelho de Antonioni, vai muito bem ao que concerne as mudanças dos tempos. Protagonista esse que trabalha na bolsa de valores de Roma e mora em um edifício pouco moderno, escrevemos assim. Assim como também não achei que a Monica Vitti estivesse com algum tipo de estranhamento no que diz respeito aos tempos modernos e suas consequências. 

   O que vi em tela aqui no CineBH foi um filme experimental que mostra a classe burguesa de Roma à época. No que tange algumas cenas acerca o racismo, onde em uma festinha esses seres burgueses imitavam o dançar e alguns gestos dos negros africanos do Quênia, o critico italiano nos norteia afirmando que não existiu nenhuma má- intenção do diretor, este só quis configurar em tela o quão era difícil encontrar um negro na Itália da época, por volta dos anos 1960. 

   Sobre o título da obra O Eclipse ocorreu-se devido a um eclipse em Roma na época, de modo que Antonioni ficara tão ansioso pelo acontecimento da natureza que nomeou seu filme com este nome, e olha que o tal eclipse seria uma farsa, ou seja, não ocorrera segundo o crítico italiano. Por fim cabe a mim então afirmar que é importante assistir a um clássico desse rompante para ter em mente que o cinema fora construído por camadas ou por época distintas, sendo que cada época contemporânea se alimentava da anterior. 

   E assim caminha a sétima e nova arte em comparação as outras, porém já carimbada como a arte do século XX que veio para representar melhor a humanidade em comparação ou em relação a todas as outras. Filmografia obrigatória aos amantes da sétima e prestigiosa arte.
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    Vai e Vem, de João César Monteiro, Portugal, 2003. Acabo minha cobertura do 10 CineBH International Film Festival com este filme português do excêntrico diretor ao qual tive o privilégio de conhecer nessa semana adorável em Belo Horizonte. 

   Não tenho vergonha de escrever que não o conhecia porque seus filmes são experimentais e por isso se não for um festival internacional de cinema, jamais encontrará em salas de cinema comercial. Se teve uma coisa que me chamou atenção de imediato em suas obras estas  são os planos fixos que o diretor faz: para terem uma ideia a última cena do filme de hoje é a de um olho azul cobrindo a tela inteira há uns dez minutos, ao menos. Ou outra de uma moça cortando as unhas: mais dez minutos estáticos pelo menos. 

    As narrativas são sempre de cunho erótico e inteligente: que nos fazem pensar não somente no coito, mas em tudo: tudo mesmo! Este filme, por exemplo, teve três horas de duração e nem assim se demasiou de tempo, mas vamos a uma breve sinopse critica. Pois bem, novamente o diretor é o protagonista da trama: um homem solitário que pega o mesmo ônibus todo santo dia. Por sua solidão coloca  um anúncio na porta a contratar uma assistente ou em outras palavras : uma empregada do lar ou doméstica. 

  Uma moça chega, depois mais outra e ora que encontremos a personagem auxiliar da comédia existencialista. Com ela o protagonista divaga de tudo e mais um pouco, porem acaba por ter o cú parido ou enrabado por um enorme caralho que a assistente lhe metera, sendo que este ( filho da puta) é levado ao Hospital já em processo avançado de coma. Lá lhe é feita uma cirurgia para tirar o caralho de plástico do rabo, este tendo que ficar de quarentena internado após a cirurgia perigosa. Enfim um diretoraço que não tem medo de ousar em suas obras, tanto nos aspectos dos enquadramentos de câmeras como os de movimento também, ora por vezes a câmera se balança assim como um navio em alto mar.

   Agora falando um pouco de Minas Gerais, e não falo da arquitetura, pois nesse aspecto o Rio ganha, mas sobre o modo de ser o  mineiro é o povo mais parecido com o português: aqui vê-se Portugal nas ruas do centro, no caminhar e no modo de falar do mineiro, enfim aqui é português.