ter?a-feira, 17 de setembro de 2019
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

INFERNO, de Ron Howard, confuso sem pé nem cabeça, por DIOGO BERNI

Veja também comentários sobre Estado Itinerante de Ana Carolina; Demônia e Vinte Anos, de Alice de Andrade
22/10/2016 às 06:54
  Inferno, de Ron Howard, EUA, 2016. O título é ideal, porque é assim que me senti vendo este filme: num inferno de tão ruim que o é. São mais de duas horas vendo coisa que não ligava nada com nada, então pensei: não li o livro, deve ser por isso que o filme é tão ruim. Mas mesmo não lendo o último best-seller de Dan Brown ( li os últimos quatro dele), posso taxar que o filme é péssimo. 

   Não que os outros que foram adaptados tenham sido bons, mas existia uma conexão entre suas cenas e até mesmo quem nunca tinha ouvido falar nos enigmas do Dr. Robert Langdon, conseguia fisgar alguma emoção e assim entrar na trama, mas nesse último nem isso conseguimos. A única coisa que se salva nesse são os cenários de Veneza, fora isso nada presta. A historia é confusa e os personagens não tem brilho algum. 

   As reviravoltas do roteiro são pífias e sem sal de modo que quando acontece, perguntamos: é só isso mesmo, será que Hollywood está de gozação com nossa cara? Mas de fato a indústria cinematográfica estadunidense não está nem um pouco preocupada em formar cidadãos pensantes e ainda por cima mente lavadamente fatos da história arte, tendo como principal tema a divina comédia de Dante. O filme encontra-se em cartaz nas milhares salas de cinema do Brasil, mas é melhor escolher outra coisa pra se divertir.
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    O Delírio É a Redenção dos Aflitos, de Fellipe Fernandes, Brasil/PE, 2016. Raquel é moradora de um "prédio-caixão" condenado ao desabamento. Como a maioria dos brasileiros, sem escolha, fica sendo a última moradora a ficar no edifício perigoso. Mas não é só isso: o loca,l além de casa, era também o trabalho de Raquel, com sua lojinha. 

   O curta mostra a solidão de Raquel nessa situação periclitante, onde nem mesmo o marido ( um zero a esquerda) a faz sentir-se segura em todo aquele emaranhado de emoções mescladas com situações urgentes que deveriam ser solucionadas. 

   Além de prezar por sua sobrevivência , antes disso até, Raquel queria sair dali a fim de proteger sua cria:um garoto de uns cinco anos que mal sabia que tinha pai. A energia ou a sinergia do curta passa de fato por seu título em tratarmos de uma situação limite, esta dando origem a uma aflição de que algo teria que ser feito para que o pior não viesse a acontecer.

    Raquel, apesar de casada, estava sozinha nessa jornada e agora ela teria que escolher entre sua segurança física, e sair do edifício-caixão, ou ficar nele em prol da sua lojinha(esta mais importante que sua casa) para então conseguir dar o pão de cada dia ao seu filhote inocente , que inclusive percebe com seu ar sensível de criança aquela aflição de indecisão que sua mãe passa, mas como pequeno é e nada pode fazer, fica a olhar a mãe e torcer para que sua aflição não a leve a loucura para salvar a sua própria pele infante, mas que já com o sentimento do medo da morte grite para que sua mãe tomasse a decisão correta. 
  
   A carga de tensão do curta é extremamente perceptível nos vinte e um minutos de sua projeção, onde ainda neste mistura-se sonhos da protagonista com a realidade aflituosa que passa.
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   Estado Itinerante, da Ana Carolina Soares, Brasil/MG,2016. Quem tem um "pombo sujo" dentro de casa, sabe como ruim é retornar a ela após um dia de trabalho. O longa mineiro e todo rodado em lugares públicos da sua capital, Belo Horizonte, nos apresenta Vivi (não Viviane, mas só Vivi mesmo), uma mulher que quer sair de relação conflituosa com seu esposo.

   Este que metia a zorra nela, mas que a tal porra que Vivi esperava dele era outra e não a agressão física. Deste modo Vivi , após anos tentando, um emprego consegue. Não era lá as coisas do sonho, mas foi o que rolou: ser cobradora de ônibus; uma profissão com um grau de periculosidade considerável, e porrada a Vivi não queria tomar mais. 

   Todavia como a necessidade faz a ocasião, Vivi aceita o trampo somente pra ficar o maior tempo possível fora do alcance do seu marido bêbado. O interessante do longa mineiro é que não vemos e temos realmente nenhum lugar para Vivi chamar de seu.

    As locações são todas públicas, como um bar, o ônibus, a porta de empresa, etc. Vivi não tem o privilégio de ter um local seu, e acho que a direção faz isso de propósito para que fiquemos tão ou mais deslocados que a protagonista. 

   Na melhor cena do filme, esta estupenda por sinal, Vivi extravasa literalmente seu estado existencial dançando e cantando a pleno pulmões um sucesso dos Guns Roses , acompanhada de uma recente amiga trans que viu que ela estava na merda e deu uma performance pra e com ela, inclusive com beijo de saliva no final. 

   No final das contas a escolha por filmar só planos públicos e com muita gente , faz com que o filme grite o estado que sua protagonista se encontrava: em trânsito ou itinerante, bem comum da alma humana, sempre em movimento e evolução, que as vezes pode ser ou estar numa "desevolução" também, ou até uma evolução espiritual com dor, coisa esta que não é difícil de acontecer a inúmeros espíritos em processo. Filme visto no festival de Brasília.
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    Demônia - Melodrama em 3 Atos, de Fenanda Chicole e Cainan Baladez, 2016, Brasil/SP. Aos mais conservadores o filme nem deveria estar em um festival tão politizado como o de Brasília. Até na sessão de debate do filme na manhã seguinte da sua exibição a protagonista, e também diretora do curta, Fenanda Chicolete disse surpresa pelo filme ter sido selecionado no festival mais antigo do Brasil, porque nada tem a ver com o histórico político do festival, e de antemão já sabia que seria bem difícil ganhar algum tipo de prêmio pelo júri, mas a história foi diferente quando nos referimos ao público. 

   Sem dúvidas o curta foi a obra que gerou mais gargalhadas aos seiscentos assentos e corredores lotados do Cine Brasília. Agora o porque do curta não ter ganho o premio do público pessoalmente pra mim é um mistério; vai ver que lá no fundo as tais gargalhadas na sessão não foram suficientes para desarmarem os candangos ( pessoas que nascem na capital federal), fruto da crise e  tensão política que o Brasil passa.

    Como está no título o filme tem três atos definidos. O primeiro começa com uma tremenda e literal ralação de mandioca de dois vizinhos, aparentemente um macho e outro fêmea fofocando sobre a vida dos moradores do bairro da Ema em São Paulo. 

   O indivíduo, ou melhor, o personagem masculino é o eterno guri do filme Central do Brasil com a atriz Fernanda Montenegro. Ele é peça fundamental para que o curta tenha o resultado que teve. Trocando em miúdos o ator traz um clima ideal para que as historias ou fatos contados a posteriori sejam cômicos ao ponto do Cine Brasília esquecer por vinte minutos a situação política do país.

    O primeiro ato se desenvolve ou continua no diálogo fofoqueiro junto com a ralação da mandioca, e também com uma conversa de que o vizinho era amante do marido da mulher que ralava a mandioca junto com ele. Não só pegava o marido da próxima, pois ela era evangélica, mas roubava também as calcinhas da dita cuja para que o marido lembrasse dela quando tivesse com o vizinho nos momentos íntimos.

    Após a declaração surge o segundo ato que é : tirar a prova dos nove e perguntar ao maridão se aquela história estapafúrdia era verdade ou não. O marido consente e entramos no terceiro ato do curta onde a policia é chamada, e através da discussão em rua sobre o acontecido cria-se genialmente ( foi a primeira vez que vi isso de forma tão bacana em filmes) um hit com um fundo musical pegajoso sobre as frases dos personagens, tais como:

    " Eu sou cristã e ele é o demônio", frase esta com toda a simbologia e carga dramática de um terceiro e final ato para um curta metragem que ri a beça. Uma nova forma de linguagem cinematográfica que traz a música ou elementos sonoros para compor de maneira de igualdade, ou melhor, na frente a obra fílmica. Trocando em miúdos o curta é interessante porque não se limita só ao "audiovisual tradicional", mesclando ficção com realidade e ainda de lambuja permite a inserção do "engraçado real" para um "engraçado fictício". É ruim de comentar, mas incrível como resultado fílmico. Tomara que venha um longa com a mesma pegada cômica.
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    Vinte Anos, de Alice de Andrade, RJ/ Costa Rica, 2016. É muito interessante assistir em tela a história de um país como Cuba, e isso é feito através do acompanhamento de três casais durante vinte anos, alias como o título do longa. 

   O documentário mostra a vida de casais que foram pros states após casaram-se e depois voltam a terra. O genial do filme são as "querências" materiais que aqueles casais super americanizados conseguem adquirir como herança durante o período de ganhar grana "nos gringa". 

   Entretanto ainda assim, pois acho que poderia mostrar Cuba de outra forma, até com os próprios cidadãos que não fugiram da sua terra, mas se o diretor quis assim tudo bem, pra ele. Voltando a crítica, temos a história narrada por eles mesmos, mostrando-nos os carros antigos do ´valente país caribenho, entre outras cositas.

   Quando retornam a Cuba aqueles casais jovens, após vinte anos, eram cinquentões com filhas e filhos crescidos e o nível de estranhamento que seus filhos tinham em relação ao país de origem dos seus pais é enorme. A narrativa da obra fílmica é sóbria e inequívoca em dizer-nos que o regime de Cuba tem que ser respeitado, anos que resistir, e ainda bem que existe uma Cuba pra dizer que somos anarquistas, ainda!