Colunistas / Cinema
Diogo Berni

Diogo Berni faz um balanço do Festival de Brasília e Deserto

O Festival de Cinema de Brasília é o mais importante no país
15/10/2016 às 00:05
 Deserto, dirigido e roteirizado por Guilherme Weber, Brasil/RJ, 2016.

   "Este é um filme feito para o ofício do ator, então quem estiver na plateia e tem essa profissão, esse filme é com certeza em vossas homenagens". E de fato concretizou-se a afirmação do diretor estreante, mas primeiramente um ator curitibano global carimbadíssimo. 

   O enredo é o seguinte:uma trupe circense em sua maioria idosos, sai do lugar que estavam e encontram uma terra de e sem ninguém  com água vasta. A trupe, capitaneada sempre por Lima Duarte decide então primeiramente passar alguns dias por lá, todavia estes pequenos dias se tornam em muitos após a morte do eterno Sassá Mutema da novela Roque Santeiro da década de 1980. 

   Pois bem agora com outro líder a trupe circense resolve morar naquela cidade esquecida, e talvez por isso quiseram ficar lá, pois se sentiam perante a sociedade igualmente a cidade que conheceram : também uma trupe de esquecidos, de modo que o tempo é cruel e não esquece ninguém, e este vai levando aos poucos três membros fundadores da trupe, além do Lima Duarte. 

   Os sobreviventes ficaram : um anão, um gordão que engolia facas, uma menina prestes a ser tornar moça e duas atrizes bastante e pra lá de excêntricas. Com as mortes ocorrendo como em cascata, o grupo resolve tentar acabar com esta sangria desatada e descabida, afinal e apesar de estarem no sertão brasileiro, a cidade ainda assim tinha água pra modo de plantar e beber e animais a modo de matar e comer. 

   Os sobreviventes do cruel, árido e quente sertão brasileiro resolvem então ou bolam uma estratégia pra modo deles viverem mais ou então pra modo a esperar a morte de forma digna, mas vai saber o que passastes pela cabeça do diretor curitibano Guilherme nesta cena tão importante para o restante rumístico do filme. 

   A cena em questão é a conhecida como o ponto de mudança do roteiro, onde uma decisão será tomada e essa mudará o rumo do filme pra sempre. O jeito ou a direção que tiveram que tomar para não ficarem loucos naquela cidade sem público, mas com água boa pra se beber, foi estabelecer e nomear a cada integrante da trupe agora a terem uma profissão normal, não de artistas como sempre foram e só saberem sabe isso da vida.

    Mas em uma cartola improvisam um sorteio para saber quem seria o que naquela cidade. E os cargos ficaram da seguinte forma: o gordão, que antes tinha se apaixonado por uma privada, fazendo esta como uma das cenas mais fortes e também engraçada do filme. Fato é que o gordão machão da trupe agora, por sorteio honesto, seria a puta da cidade. Uma das atrizes fica com a incumbência da cozinha e a outra fica com o cargo de médica da cidade, e existiam também as autoridades municipais como o padre anão e escravo velho, que este último serviria para alguém puder mandar em outro alguém, uma necessidade humana feia essa, inclusive.

   Livremente inspirado na obra Santa Maria do Circo, de David Toscana, nos mostra a agora relação entre os atores e de que modo o poder os mudaram. O longa tem uma baita fotografia mostrando o real sertão brasileiro , mas mostrando também as idiossincrasias dos piores vícios da vida civil. Taí um filme que me surpreendeu e aproveita que ano que vem deve tá passando no Canal Brasil e nos cinemas também, de repente... 

   A carga poética do filme é surpreendentemente a cereja do bolo, alias refletindo melhor não, a carga poética e utópica do mundo cigano circense é o bolo completo da obra e isso com a cobertura do melhor chantilly que achar; uma pérola em um festival que prima por filmes de engajamentos políticos, e não propriamente artísticos. Deserto foi um dos melhores  que vi na competição para melhor longas metragens, se não o melhor dentre todos os competidores, pois fala das mais profundas necessidades humanas: que é só amar e ser amado.
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    Procura-se Irenice, de Marco Escrivão e Thiago B. Mendonça, Brasil/SP, 2016. Sem querer puxar, mas já puxando o saco ,e isso somente por competência deles, mas se um filme tem o carimbo do jornalismo esportivo da ESPN-Brasil, e internacional também, é bem provável que seja uma história interessante, no mínimo. Fiz questão em escrever isso de início para compararmos mesmo os jornalistas esportivos brasileiros, onde em especial refiro-me aos do Sportv/globo.

   Dito isto a ESPN nos deu o prazer em ver esse belo documentário no festival de cinema de Brasília, setembro último. O filme de curta metragem ganhou o prêmio de melhor filme na categoria popular. A obra fílmica trata de mais um caso desses da ditadura militar do Brasil, e neste caso de versão esplendorosa. 

   Irenice era uma corredora dos 400 e 800 metros rasos de ponta no Brasil da década de 1960. Carioca, negra, bonita e de personalidade forte, Irenice foi até hoje o mais estranho caso de atletas envolvendo o Brasil em jogos olímpicos. Segundo o documentário a atleta chega a estar no país da Olimpíada , mas na hora de entrar no estádio, desentende-se com um executivo da comissão olímpica brasileira( um peixão grande) , e este o envia de volta ao Brasil e a excluí em fazer sua própria história no esporte.

   A personalidade forte da carioca era já conhecida no meio, de modo quando surgiu a notícia oficial de que Irenice estava fora das Olimpíadas, de fato nenhuma outra atleta tomou as suas dores pelo medo da ditadura. Irenice estivera a frente do seu tempo, lutando contra um governo tirano e repressor, e somente pessoas que talvez tenha um "pavio curto" como de Irenice, conseguirão ter a sensibilidade para lutar por mudanças e fazer a diferença nem que isso ocorra há dez ou vinte anos após. Belo material de um mito nacional que se apagou sem nem sequer ter acendido.
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    Esquadrão Suicida, de David Ayer , EUA, 2016.  O que temos de bom é a trilha sonora ( estupenda!), mas no que se refere a roteiro e personagens o filme deixa bastante a desejar. Como enredo temos um grupo de sociopatas encarcerados por crimes diversos e diferentes. O planeta sofre terrível perigo por estar em mãos e espíritos inoportunos de uma bruxa má. 

   A mandatária da CIA , para salvar a nossa espécie, solicita uma proposta a eles a fim de exterminar a bruxa má sob o pretexto de minimizar a pena de prisão de todos os sociopatas; e o roteiro e a história ficam somente nessa. Ou melhor: fica nessa mesquinharia do uso de pouca massa cinzenta; deixando ou provocando o espectador a ser chamado de débil mental. Se quiseres correr o risco em assistir, não faltará salas de cinema multiplex.
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    Bodas de Papel, de Keyci Martins e Breno Nina, 2016, Brasil/MA. Não fazia a menor ideia de que o filme poderia vir a ser uma comemoração bizarra do matrimônio, já que a palavra "Bodas", sugere, mesmo sendo ela de papel,  a uma sátira a Bodas de prata, ouro, diamante, etc. 

   De cena inicial tem-se um homem abrindo a porta para receber seu pedido delivery de uma Pizza. Profissão esta composta pelo sexo masculino; daí motoboy e não moto-girl. Entretanto tudo bem em ser uma moto-girl, e ainda por  cima, muito bem apessoada. 

   O fato do cara abrir a porta de cueca e a mulher não reclamar da sua vestimenta ou falta dela, também não soou totalmente descabido, já que existem pessoas que não ligariam para esse pequeno detalhe que socialmente não é conveniente. Pois bem, a pizza é paga no débito em conta e quando a entregadora dá seu boa noite, percebe então que a porta se encontrara fechada a chaves. 

    O protagonista, que também é o diretor da obra, dá uma desculpa esfarrapada pra moça que primeiro ela teria de conferir se era a pizza que tinha pedido e obriga-a abrir a caixa. A virada de tensão do roteiro surge no momento em que, ao invés da moça conferir o sabor da pizza, puxa então um "Três-oitão", e o que era uma simples entrega de pizza vira na obra fílmica propriamente feita com suas intenções claras e interessantes. 

   Na mão com um revolver a suposta moça inocente veste uma calcinha , esta específica por vir embutido um grande pênis grande de plástico na frente, e  supostamente então obriga que aquele homem, com as segundas intenções estranhas por  vir a atender e abrir a porta de cueca, a ficar de quatro e abrir todo o possível das suas nádegas gordas e escrotas. O cara é estuprado por uma pênis de plástico enorme e geme como se fosse uma cadela ,ou talvez uma porca ,perdendo a virgindade em pleno não cio, ou seja, na tora e na força mesmo, sem oleozinho nenhum. 

   E pra  completar a ação a moça improvisa a maionese como o esperma que aquele pinto duro de plástico "teria" produzido, sendo que o "espertinho" teve de engolir aquela maionese toda , cena esta de tão bem executada faz-se que a ânsia de vômito chegue a quem assiste. 

   Quando os créditos sobem junto com o título, supõe  que as tal brincadeira encenada do casal sobre o tema "das Bodas" seria um fetiche dele para estranhamento de quem não tinha lido o título ou não tinha ligado as coisas. O  filme é claramente uma sátira aos casamentos duradouros que já se acabaram, e os casais continuam juntos somente pra dizer: " Vou completar 25,30, 50 anos de casado com muito orgulho", sendo que os dois não se aguentam mais. 
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   Os Cuidados Que Se Tem Com O Cuidado Que Os Outros Devem Ter Consigo Mesmos, dirigido e roteirizado por Gustavo Vinagre, Brasil/SP, 2016. Tam precisa chorar. Esta é a sinopse do filme, mas lógico que a obra é bem mais que isto. Sim, Tam chora, mas porque Tam chora? Acho que esta é a questão que o diretor quis apontar. 

   Tam é um transexual que vive com síndrome do pânico após um dos seus clientes o agredir. Sejamos francos, mas se você é traveco ou se trabalha como maquiador, cabeleireiro ou vai pra rua trabalhar na mais das antigas profissões vendendo seu corpo não entendido para matar a fome e a sede do outro alheio, este que também procura Tam e tantos outros e outras por seus motivos existenciais, também. Mas voltando a crítica, Tam está numa pior e precisa ficar forte para vencer a deprê que nem seu marido consegue ajudá-lo. 

   Marcas são sentidas apenas a quem as têm, de modo que qualquer tipo de ajuda de terceiros é inócua e infrutífera. Gustavo Vinagre talvez quisesse dizer-nos que todos nós somos frágeis, assim como Tam, e também precisamos chorar, porque o choro alivia a alma dos aflitos.
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    Impressões do Festival de Brasília 2016. O festival de Brasília, como é sabido por todos, tem uma pegada política forte  e por isso é considerado como o mais importante do Brasil. Este ano em especial, pela crise política que o País passa, a tensão política estava  mais no ar que de outros anos anteriores. Como também é sabido , a participação do público nas sessões ès devera intensa , de modo que por vezes até atrapalhava um pouco na vista das obras fílmicas devido ao clima host político que passamos e os nervos exacerbados. 

   A participação é sempre bem vinda, ou gritar se gostou ou não, porém os limites por vezes e pelo momento político, alguns muitos exageravam nas doses de sei lá o quê e tornavam-se personas chatas, pelo entusiasmo. Ou seja:gritavam sem nenhum entendimento técnico achando que estavam num parque de diversões. Penetras intelectuais a parte, estes que me refiro ao povo e não aos especialistas. 

   Fato é que gostei da energia pulsante das sessões e seus gargarejos, que são momentos antes de uma sessão começar ou o intervalo de uma sessão a outra, já que os filmes iniciavam as 15:00 hs e acabavam 00:30hs. Sobre a escolha dos filmes, acho que em 70% delas foram felizes, e alguns filmes, cerca de 30%, não tiveram o perfil de víeis político do festival Candango, mas no geral os filmes foram bens escolhidos. 

   Achei  basicamente isso: um festival político, e por vezes com o rabo preso por um dos mais importantes dos seus  patrocinadores,  a TV Globo, mas que no final do balanço das seleções dos filmes, a sua maioria tinha um qualidade de bom nível, e isso meio que apegava a rede Globo e outros patrocinadores que nada tinham a ver com a vontade de democracia brasileira atual, e isso lembrando que não sou nem esquerda nem direita, minha onda é somente a arte pura, se é que isso é possível.

    Até ano que vem Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.