segunda-feira, 23 de setembro de 2019
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

A CIDADE DO FUTURO, o filme de Cláudio e Maricila Hugnes

E mais: Elon não acredita na morte, de Ricardo Alves Jr
10/10/2016 às 20:29
 A Cidade do Futuro, de Cláudio Marques e Marília Hugnes, Brasil/BA, 2016. Corro o risco em ser ininteligível, mas achei o filme "bom pra ver e não pra comentar", e tentarei explicar o porque. A fotografia de uma cidade do interior da Bahia faz muito a diferença no visual da obra fílmica, por esta nos "saltar os olhos" com tanto cenário bonito, e por natureza. 

   A trama em si é convincente. As personagens são elas mesmas, na medida do possível óbvio que existiu um trabalho de elenco que todo filme faz, mas os atores que ser "eles mesmos mais bonitos que são ou eram". Claro porque pra vender qualquer coisa é necessária a sedução de fazer a cabeça do outro, e o cinema não foge a regra. Portanto é necessária a sedução em não mostrar olheiras ou um bocejo por exemplo para que os personagens se tornem aprazíveis para o público se identificarem e "chamarem de seu". 

   Identificação: este é o tema que gira em torno da trama, ou talvez o termo certo para o filme seja liberdade ou a falta dela. Na segunda trama de longa metragem da dupla e casal de diretores Marília e Cláudio; eles trocam o asfalto de Salvador do seu primeiro filme Depois de Chuva, por planos abertos e longos do interior da Bahia , agora em A Cidade do Futuro. 

   A narrativa gira em torno de um casal atípico formado por dois homens e uma mulher grávida de um dos homens do casal, este que resolve assumir o que fez, e apesar de ser gay, tem muito mais coragem que muito machão que faz e vai embora. O protagonista não, ele fica com o bofe e a mulher e amiga de uma noite de cachaça. 

   O arco narrativo do filme se desenrola na aceitação desse novo  formato da família brasileira, bastante não cristã por sinal, onde o tema dos gêneros é colocado na mesa da sociedade brasileira. Fato que apesar de algumas situações, no mínimo, constrangedoras o casal ambíguo segue em frente e peita os valores culturais e religiosos dos habitantes de uma cidade típica do interior do nordeste brasileiro , e como existem tantas delas praticamente iguaizinhas a do filme,  este que por sinal entrou na cidade para tomar um gole d'água e continuar a viagem para outro local onde seria filmado um outro novo longa.

   Claudio e Marília conhecem e se apaixonam pela história do casal contada rapidamente pelos próprios, de modo que os diretores mudam os planos e resolvem "jogar fora" o filme que estava previsto para acontecer e adentram-se naquela história atípica  de corpo e alma .

   E atípica em se tratando de qualquer lugar, mas de um interior pequeno, esta torna interessante ainda, e também engraçada em certas cenas.  O filme foi visto em Brasília, no seu festival anual, mas já tinha "dado as caras" no V Olhar de Cinema, em Curitiba, junho passado, ganhando inclusive o prêmio de melhor filme escolhido pelo público. 

   Certamente o filme estará em cartaz em breve e no Panorama Internacional Coisa de Cinema, há se realizar em novembro próximo em Salvador no Cine Glauber Rocha. 

   Em síntese poderia descrever o filme com duas emoções: ele  consegue ser tentador na medida que tentamos descobrir o seu final; e também é um filme deveras angustiante  pelo modo como se posiciona na temática dos gêneros,e pela sociedade que sabemos como agem a sua bandeira vira meio que uma utopia, mas a sétima arte e a poesia não estão aí para isso mesmo: para dar espaço a coisas inalcançáveis e inatingíveis.

   O filme é bastante duro e contestador na ideia de que quando alguém vem ao mundo, já vem com os genes indicando se gostará mais do gênero feminino ou masculino ou até em certos casos, de ambos. 

   Uma obra super interessante e bastante atual que serve como retrato para repensarmos que conceito de família queremos: A igual , a do jeito que estar ou outra que faça seus membros pensarem de forma independente e assim tirarem suas próprias conclusões do que é "certo" ou o que é periclitante "erradíssimo". 

  Quando mencionei no inicio da critica que o filme era melhor de se ver ao invés de se comentar, porque trata de todos esses valores que nos estão impregnados e temos de engolir goela abaixo, sem nenhum tipo de escolha alternativa, e quando saímos da sessão nos perguntando:será que o Brasil está andando de marcha ré? E saio piamente com a conclusão que sim: estamos andando de marcha ré quando a questão é a dos gêneros sem dúvidas, e isso independe de ser hétero ou homossexual. Livre arbítrio: nunca tivemos. 
                                                                               *****
   Mate-me Por Favor, da Anita Rocha da Silveira, Brasil-RJ/Argentina, 2016.  O crítico de cinema tem de chamar a "responsa" e taxar uma obra como boa, ruim, até mesma mediana. Julgar alguém nunca é confortante, em tratado-se de um trabalho artístico onde dura meses ou anos para ser finalizado, aí vem um jornalista e escreve: é ruim e ponto.

   É no no mínimo angustiante pra quem o fez e também pra quem dá o veredito. Mas alguém tem de servir de tripé e encurtar a distância entre o que o diretor fez e o que o publico entenderá. Esse é o nosso papel como críticos: tornar o mais entendível possível a obra que está em cartaz. 

   Toda esta introdução foi feita pra taxar sem medo de ser feliz e afirmar que o filme Mate-me Por Favor, o primeiro longa da diretora , inclusive, é deveras confuso e seu arco narrativo nem um adulto cinéfilo, como este que vos escreve, teve a capacidade de entender.

    Quando refiro-me que nem um adulto entende o filme, é porque este destina-se a um público teen, fato este que só piora as coisas. O gênero de suspense é super bem vindo ao cinema nacional, carente deste, porém que venham suspenses mais completos, por favor! 

   A impressão que este crítico teve é que não faltou vontade da diretora em abordar diversos mundos com diversos problemas, mas é que talvez nesse ponto que o filme se torne extremamente confuso e de fato incompreensível. Como pano de enredo temos quatro adolescentes fêmeas, que cada uma diz um pouco da diretora, segundo ela própria afirma. 

   Todavia o problema está nesses tantos personagens "protagonistas" onde várias personalidades falam e "gritam", mas de fato não conseguem comunicar nada. O que tem-se são assassinatos em série em uma escola localizada na Barra da Tijuca, bairro carioca, e uma vontade imensa de saber quem mata e quem será o próximo morto, mas que no final das contas saímos do cinema mortos é de cansaço e sem nenhuma resposta. O filme ganhou os festivais do Rio e Salvador do ano passado, mas se fosse júri, com certeza o prêmio não seria para o filme. A obra encontra-se em cartaz nas salas de arte e nos complexos multiplex da vida.
                                                                                    ****
    Elon Não Acredita na Morte, de Ricardo Alves Jr., Brasil/MG, 2016. Este talvez tenha sido o longa mais interessante do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro  deste ano. A história é tão estapafúrdia que somos sugados por ela por essa "transdimensuração" que ela nos provoca. 

   O protagonista, Elon, um vigia noturno, que de um turno para outro não vê a sua mulher dentro de casa . Ela foi dar um "zig-now", e ele sabia da natureza da companheira. Ainda assim Elon busca a esposa e a si próprio. Elon é de fato um personagem que nos cativa por seu nível de ligar o desprezo pra tudo e todos, assim como fez em estupenda cena em que na hora em fora demitido por faltas o mesmo dá um arrotinho como resposta.

   Somenre por causa daquele ar provindo e destemido saído urgentemente da boca, pegou uma demissão por justa causa, ou seja, uma injustiça, já que Elon já não ligara a nada a não ser o paradeiro da sua amada. Vai na casa da sogra e esta não deixa-o entrar e nem diz do paradeiro da filha. 

   O filme de quase 90 minutos é bom porque é focado na face de Elon ( tanto é que ganhou a menção honrosa do festival, um tipo de prêmio especial porque o júri não tivera a coragem necessária para dar como melhor filme oficial ). Mas o filme tinha a magnitude de focarmos nas nuances da face de Elon, um sujeito bem esquisito, e que de fato como o título sugere, não tinha medo de morrer, porque já o estava quando perdera sua amada.

    Elon é um poeta analfabeto , que por isso teve que ser vigia pra ganhar o pão de cada dia e dizer-se "normal" e " sem periculosidade" para com a nossa sociedade. Na real , Elon explode no fato de que a sua amada o abandonara e faz tudo que queria fazer sempre: transgredir em todos os sentidos e maneiras possíveis, mas como fazer isso se nem saber escrever o nome sabia? 

   Através de gestos os falta destes nos mais simples acontecimentos sociais, como dar bom dia ou não querer se comunicar de forma alguma, e isso não importando-se nem um pouco com o juízo de valores que poderiam fazer dele, na real ele nem tinha a dimensão disso e de nada; ele simplesmente segue seus impulsos de poeta doído e se comporta com a melhor das boas intenções, para ele, para segurar a onda da falta da amada. 

   Eis que um dia, já no fim do filme( desculpe o spoiler, mas como dificilmente verão o filme por não entrar em circuito comercial...), a sua amada magra e bem acabada de farras e orgias, volta pra casa e Elon como um poeta pombo sujo e abestalhado trepa visceralmente com aquela mulher de olheiras grandes e que fazia a cabeça do Elon. Se o filme não ganhou como melhor , levou como melhor ator com Rômulo Braga fazendo o carismático Elon.