quinta-feira, 04 de junho de 2020
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

CINEMA NOVO, de Erik Rocha, um ensaio poético

Outros documentários do Festival de Brasília
24/09/2016 às 20:00
  Cinema Novo - Filme de Abertura do Festival  de Brasília do Cinema Brasileiro, dirigido e roteirizado por Erik Rocha, Brasil,2016. Fui ver o documentário do filho, que tem minha idade-38, do mito Glauber Rocha. Logo na Van que sai do hotel para o Cine Brasília deparo-me com o cara no fundo da Van. Não puxo assunto por hum: não conhecê-lo pessoalmente, e dois: sou tímido; mas já percebo no trajeto da Van a puta "responsa" de ser filho de quem ele é: o maior cineasta brasileiro de todos os tempos por criar o cinema novo, este fora apenas uma ideia ou na melhor colocação das palavras:um ideal. 

   O cinema novo era tão transcendental que ele pegava "um puxadinho" de ideologia dos cinemas: russo, italiano , francês e também do norte-americano, por incrível que possas imaginar e parecer, mescla tudo isso e temos a concepção da ideia do que se tratava o Cinema Novo ou seu movimento da anarquia total. 

   Já na apresentação do filme o diretor discursa sobre a sua tentativa , exítiva, escreva-se de passagem, de misturar foto montagens e cenas inéditas do pai com a poesia. Sim: Óbvio que por ser o festival de cinema mais tradicional do país teve um Unisino "FORA TEMER", sendo este o primeiro grito dado por Eryck Rocha quando subira no imenso palco do cine Brasília, local este para um público de seiscentos assentos super confortáveis e ainda um ar-condicionado também condizente.

  Ou seja: nem frio e nem quente demais; no ponto pra ninguém reclamar, se é que isso é possível por Brasília realmente abrigar todos os brasileiros de  todas as partes desse nosso continente. Os noventa minutos do documentário premiado esse ano em Cannes como Palma de Ouro -Palm D'Our passa-se tão rápido como uma forma visceral, latente e por vezes tortas de uma bela poesia. 

  O filme ganhou Cannes este ano, e poderia ser ano que vem ou o passado, pois ganharia em qualquer ano, porque os franceses, criadores do cinema,  tem a sensibilidade de "sacarem" que a história do cinema brasileiro e "quiçá" do cinema latino-americano já estavam prontos e escancarados para quem pudesse querer entender de certa maneira o surgimento do Cinema Novo.

   A obra fílmica não esquece de cravar que tal movimento que vinham ganhando premios a granel em festivais internacionais mundo afora tinha a sua certeza de origem: na Bahia sob o comando firme e louco de Glauber Rocha e seus companheiros , e uma vez ou outra alguns diretores centristas contribuíam com ideais e filmes que tinha o espírito do Cinema Novo, no inicio dos anos 1960.

   Aém da homenagem poética ao pai e seus fieis escudeiros, que eram cineastas também e membros da "ideia da implantação do Cinema Novo", mas não na utopia, e sim realidade. Todos estavam no mesmo barco em busca de uma utopia para melhorar não somente o cinema nacional, mas o país como um todo através da ideologia do Cinema Novo de Glauber. 

   Tenho convicção que a solução da sétima arte serviria para o Brasil também: pegar o formato e ideias principais a partir do cinema novo da turma de 1960 e mandar bala, mesclando com os poucos bons que produzimos hoje em comparação aos grandes papas prêmios de troféus internacionais. Sei que os tempos e o cinema também são outros e evoluiu, porém ideia como a do movimento do Cinema Novo é mais que urgente para o momento político que vivemos, isso sendo PT ou PSDB, ou direita ou esquerda,se é que essas bandeiras ainda existem. 
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  Precisamos Falar do Assédio, da Paula Sacchetta, Brasil, 2016. A ideia é entrar numa caixa preta, como a de uma fotografia feita manualmente, e através daquele único feixe de luz, tentar sair da escuridão e se comunicar com o mundo. 

   No caso da "caixa preta" o documentário improvisa uma Van totalmente escura onde quem entra só vê, quando a porta fecha, aquele feixe de luz, mas só que agora na Van. É curioso olhar pessoas no escuro, de certa maneira elas ficam cegas também pensando que está falando com ninguém, só com a luzinha que não quer dizer nada imediatamente. Particularmente este foi o filme que mais me mexeu hoje no segundo dia de Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. 

   Os relatos de assédio sexual por parte das mulheres é tão deveras interessante que não é necessário ser fêmea pra sentir ou imaginar sentir o que aquelas mulheres corajosa,spor botar a cara na luzinha, sentiram e sentem até hoje. E posso cravar sem medo: o pior inimigo das molestadas não são os homens e nem elas próprias, mas sim o álcool. 

   Sim, o álcool que as transformam ao ponto de treparem, ser penetradas e não lembrarem de nada ou somente de alguns vultos de alguém por trás delas. É inacreditável o numero de mulheres entrevistadas que foram estupradas quando estavam sob o efeito do álcool; mais ou menos de cinco, três relatavam a mesma história de bebida com o final que nem elas sabiam, apenas sentiam as dores físicas no corpo e a "ficha" caindo após falarem com amigos. 

   Agora o mais incrível caso da Van Freudiana fora de uma mulher na casa dos seus quase quarenta ser violentada por um pai de santo de Umbanda de 96 anos. 96 anos e o senhor com este vigor físico é surpreendente, mas a violada ficara puta e em todas as delegacias que fora prestar queixa, inclusive a das mulheres, falavam a mesma coisa pra ela: " Moça, você se esqueça desse acontecimento, porque será dificil provar que alguém de 96 anos tenha feito isso contigo". Como ter uma vagina, e não um pinto, pode ser tão diferente assim?

    Desde sempre o seu corpo e curvas foram feitos para tirar os homens do sério, e se algum homem a bulisse a culpa seria delas por mexer no psicológico deles. De fato o filme joga no ar diversas perguntas referentes a direitos, genética, cultura ou simplesmente falta de sensibilidade com o sexo oposto, e este sendo o feminino então, nem comenta-se o oportunismo masculino de contar essa estória da carochinha do tal libido que não os deixa pensar, e se aquela mulher está com uma saia mais curta ou um decote "bom de se ver".  Um tema que deveria ser mais discutido: até quando há empoderamento de um corpo/gênero para com outro, é possível criar barreiras?? 

   Fisicamente sabemos que o Homem é mais forte que as mulheres, mas e aí, será que é possível cravar uma superioridade mental , por exemplo? Óbvio que não! Para mais informações não deixe de acessar: www.precisamosfalardoassedio.com 

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   Rifle, de Davi Pretto, Brasil, 2016. A principal pergunta, em minha modesta opinião, esta que também já vem com uma resposta do filme é clara e firme: Será que se você não se encaixar no sistema, te deixaria em tão maus lençóis assim ao ponto de sua sanidade ser colocada em cheque, neste caso, o cheque mate? A reposta é curta: Sim, é possível e bem provável  ficar louco e até virar um sociopata, isso no mínimo, caso não queira jogar o sistema que tem-se obrigatoriamente de jogar, e isso faça pelo bem da sua sanidade. 

   Entretanto vamos a uma resenha super quentinha. Rifle é um daqueles filmes que torcemos pro bandido. Mas em um sistema que temos , seria possível apontar e dizer com toda certeza: aquela ali é mocinha e aquele ali é bandido? É muito provável que erremos de primeira no julgamento das aparências físicas ou de roupas de grife. 

   O filme gaúcho ( e isso do interiorizão gauchão mesmo) é latente e gritante como um porco em hora de abate, mas também necessário deveras, porém pouco ouvido serás por defender uma classe pequeníssima e sem poder de barganha algum: os ruralistas produtores do seu próprio alimento que, anarquicamente, não se vendem aos grandes produtores ou empresas para que estas comprem os terrenos desses seres que insistem em remar contra a maré. 

   O titulo do filme é apropriadíssimo e meio que é autoexplicativo também. Trocando em miúdos, o filme sugere e conta a história de um cara que diz NÃO a venda da terra da sua família, e com a insistência de compra de quem estava interessado, o cara aquece tanto a cabeça que enlouquece. Óbvio que o filme não é só isso, alias é muito além disso, pois explicita de forma categórica e elegante a invasão do espaço, e também joga a pergunta no ar: será que de fato alguém tem algum espaço seu mesmo ou estamos sendo vigiados através dos nossos e-mail, das câmeras em cada canto de esquina ou estabelecimento que vamos ou só passamos? 

   A cada dia o horrível big brother global se torna real e desconfortante, mas teria outro jeito para frear o homem (leia-se mulher também), porque também não dá pra confiar em nossa própria espécime.

    Enfim , obras fílmicas desse calibre e estirpe de elegância, com a anarquia necessária para dizer um Basta a tudo que está e é estabelecido, somente obras desse tipo de expandimento do entendimento dos direitos e deveres de um para com o outro, só pode ser conferida e apreciada em festivais de cinema pelos filmes diferenciados que deixam exibir ao menos pela menos uma única e mísera vez no ano, pois em circuito comercial estas obras contestadoras são raríssimas de entrar em cartaz pelos motivos que estamos carecas de saber, que é deixar, por estratégias, os indivíduos como se fossem vacas e bois no pasto antes do abate, sem informação alguma que preste ou salve seu pescoço da puta alienação escrota que as rádios e televisões fazem por fatores comerciais pra lá de bem explícitos, e só quem não enxerga quem não quer. 
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   Ótimo Amarelo, de Marcus Curvello, Brasil, 2016. O filme foi feito por um coletivo de cinema da UFBA, o CUAL. A linguagem cinematográfica tem a capacidade de transpor barreiras, assim como qualquer arte, inclusive. Entretanto o filme em questão é mais apreciado por quem é da terrinha. 

   Não que o público de Brasília tenha sido frio com ele, ou somente talvez eu fosse ou estivesse muito quente com a sua narrativa do que outrem, já que mostra a vinda de Bebeto para o Vitória em 1997 e a volta de algum lugar do protagonista e diretor do curta metragem . 

   A obra fílmica também aborda a questão da política associada a obras, estas no caso do bairro boêmio do Rio Vermelho. A narrativa é simples , porém com um "quê" de complexidade, onde mostra a subjetividade do protagonista em esperar que alguém pegue ele no aeroporto e leve-o pra casa, fato este que não ocorre e o Curvello vai a cachaça com acarajé, talvez que pelo fato ninguém mais o esperava. Sim, li a sinopse do curta no catalogo do festival; que trata-se de um filme de valorizar a volta as origens e tal, mas o que senti, e isso porque talvez seja da terra, fora o oposto. 

   Ou seja: de um cara que voltava pra Salvador após um período fora e as pessoas esqueceram totalmente dele , e ele meio que não entende isso e fica em Salvador a esperança de que tudo voltara a ser como era dantes. Não era e não será , já que as imagens corridas da reforma da orla do Rio Vermelho afirmam que tudo não será como era, ele querendo ou não.

    Fato é fiquei boiado com o título do filme que induz ao protagonista a não ser ótimo e tampouco amarelo, mas o que é ótimo amarelo, fiquei-me perguntando na sessão. Lembro muito bem de Bebeto voltar ao Vitória e este não ser campeão com o timaço feito pelo técnico Arturzinho, só sendo campeão baiano, mas o titulo brasileiro não veio vingar o de 1993, onde batemos na trave contra o invencível Palmeiras do Edmundo, o animal. Mas o tal do ótimo amarelo eu não sei quem é, e passar em terceiro em publicidade na Estácio é massa também! 
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Martírio, de Vicent Carrelli, Brasil, 2016 ( 1989-1998). Nunca fui ao Texas, mas Brasília deve parecer-se bastante com ele. Aqui tudo é muito desértico, são vastas as imagens planas que terei em mente do caminho na Van do hotel ao cine Brasília, mas porque puxei isso hoje? 

Porque saio da sessão pernambucana de Martírio, e Brasília e esse adjetivo podem se combinar, mas vamos  aos fatos porque com estes não há argumentos. O documentário é um aulão de História brasileira,  pegando como link principal a  relação promíscua, penetrável e inconsistente que o povo brasileiro, que com eles representados por seus políticos, entre os brancos e os índios brasileiros. O diretor pega a história lá do Brasil - Colônia e nos puxa e entrega o material dessa relação filha de uma grandíssima puta, até os dias de hoje. 

E o que chegamos a conclusão após 180 minutos que se diluem rapidamente pela generosidade da obra fílmica, é que pouco ou nada fizemos em relação ao tema. Teve uma frase do diretor , que também narra a história, que fica em minha cabeça, que é: " Quando o povo brasileiro trata mau seus índios , ele trata mau seu próprio país, suas raízes históricas e contundentemente se maltratam". Acho que esta frase também é uma síntese da obra.

 Ou seja; enquanto não olharmos para a classe indígena com decência , seremos um país indecente por natureza. O filme é um martírio por ver a realidade nua e crua em nossas íris, e de fato, enxergamos que estamos na segunda marcha ou primeira de ser um país civilizado, alias fiquei tão puto que nem enxerguei esse problema nacional como só daqui fosse. Fiquei com tanta fúria de " martírio" que pensei filosofando com Nietzsche sobre a raça humana, de fato valeu a pena ou fora mera ilusões acreditar que a gente pudesse dar certo? Quando o filme estiver passando em sua cidade, vá e seja feliz.