Colunistas / Cinema
Diogo Berni

A Velha dos Fundos, um bom filme argentino

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27/08/2016 às 09:15
 A Velha dos Fundos (La Vieja de Atras), 2012, com direção e roteiro do argentino Pablo Meza; trata-se de uma coprodução Argentina - Brasil (leia-se Rio Grande do Sul/Portenhos). A obra fílmica tem como tema principal a solidão das pessoas. Não tem como não “pagar pau” para o cinema portenho, eles são evoluídos nisso em comparação a nós, e ponto final.

   Em especial este filme " A Velha dos Fundos" mostra-se, ou melhor, escancara-se a faceta e situação da humanidade contemporânea: o estar sozinho, e isso acontece por mais que estejamos rodeados de pessoas. Como enredo temos um estudante de medicina oriundo de uma pequena cidade interiorana argentina chamada por La Pampa, que passa no vestibular e então se manda a fim de estudar em uma cidade maior que a sua provinciana La Pampa.

    Esta cidade poderia ser perfeitamente Buenos Aires ou La Plata porque o filme não nos explica da qual cidade ( nome ) a trama portenha se desenvolve. O recém estudante de medicina de inicio consegue se virar para pagar a conta em um freela em um mercado, porém ao longo da trajetória do arco narrativo o rapaz é demitido sem justa causa, e como todos sabem: as contas não param de chegar de qualquer maneira ou situação. 

   Neste segundo tiro do desenrolar do arco narrativo e suas nuances de complexidade devido aos personagens criados, vemos e analisamos a nossa segunda personagem importante da trama e protagonista do filme, inclusive. Sim:a própria velha que morava no fundo , ou seja, no último apartamento mais afastado do seu andar de prédio habitacional onde os apartamentos parecem ser mais cubículos insana e insuportavelmente apertados e cheios de rachaduras nas paredes e tetos em todos os seus poucos e pequenos cômodos indignos de se viver. 

   Mas então, a segunda personagem em questão é uma viúva espanhola aposentada de sangue caliente e com um humor bastante ácido, inclusive personagem tão bem feita essa que consegue dar um ritmo ao interessante a narrativa audiovisual. Pois bem, é com esta despretensiosa trama da vida moderna que a história destes dois personagens se cruzam. 

   Para ser mais claro: se cruzam na solidão ou porquausa dela. Enquanto o estudante tímido de medicina fica sem grana para pagar seu aluguel à rabugenta espanhola o convida para morar consigo, mas com apenas uma única imposição:conversar com ela antes de dormir todas as noites para acalmar os seus nervos, que como uma boa espanhola sempre tem a flor da pele, mas fora isso nada demais além disso, ou em outras palavras: nada de sexo, já que as idades não se batiam ( se é que existe idade certa para apaixonar-se por outro alguém...). 

   De suma é mais uma aula do cinema argentino ao brasileiro por alguns fatores, tais como: pela forma, autenticidade, honestidade em não julgar o público em que vai assistir como “retardados” (coisa que infelizmente acontece com a maioria e os principais filmes nacionais); e por ter uma boa história a ser contada em mãos, alias em tela grande, enorme preferencialmente.pelo poder em transformar o cotidiano em coisas prazerosas de assistir e por fim por entender e ter a sensibilidade em colocar em tela coisas que os espectadores se emocionem e saiam da sala de cinema satisfeitos, não por efeitos especiais ou cenas de violência vulgar, mas pela sinceridade em que uma estória simples e bonita mostra com um orçamento pequeno, escreva-se e passagem. 

    Não é querendo menosprezar nosso cinema, porém já fazendo isso, mas filmes de baixo orçamento como esse batem de levada em nossas superproduções em que nada ou muito pouco tem a nos transmitir de significante. 

   Acho que falta aos diretores brasileiros uma porção de ludicidade em suas histórias alinhadas a uma porção de genialidade, e isso os argentinos tem de sobra, ou seja, cérebro. A melhor saída para o cinema nacional, em minha opinião, é primeiramente: admitir que somos ruins nisso, talvez seja o primeiro passo a nos tornarmos menos piores do que somos, e olha que estou comparando a maioria dos filmes brasileiros a um filme mediano portenho, pois se for pegar um Top de lá, com certeza exterminaria todos “os tropas de elite” e as comédias medíocres que são feitas aqui. 

   Como humilde e ousado resenhista cinematográfico tenho a petulância em dar um conselho ao cinema nacional: Se o orgulho não deixar admitir que somos bem piores que a Argentina nisso, que ao menos os principais cineastas deste país continental mirem seus olhos a escola gaúcha de cinema, pois essa sem medo de errar é a melhor que temos, e se a escola gaúcha for vista como “referência”, aí sim teremos chances de um dia sair dessa mediocridade da maioria dos filmes que produzimos. 

   Quando cito a palavra medíocre não coloco Walter Salles, Fernando Meirelles ( que é mais gringo que brasileiro, pois só faz filme em língua inglesa e não teve até hoje coragem para fazer a obra Grande Sertão Veredas do escritor mineiro iconoclasta Guimarães Rosa, mas espero ou torço para que o Meirelles tenha e faça, pois será um filme de suma importância para nossa cultura ) e mais meia dúzia de cineastas alguns pernambucanos e outros gaúchos, e mais dois ou três espalhados pelo Brasil. 

   Meirelles fez com poucos recursos de toda rodem uma ótima e querida cerimônia de abertura dos jogos olímpicos no Rio, porque então não seria capaz de filmar uma obra do tamanho gabarito como Grandes Sertão Veredas. O diretor global paulistano se defende afirmando que o filme não teria retorno financeiro, "seria um desastre", segundo o próprio.

    Bem, pode ser um desastre financeiro, mas teríamos um filme genuinamente de uma história da nossa cultura nacional que até hoje é marginalizada, e que bom seria se ele pudesse "dar" esta contribuição de coração ao seu país, o qual já lhe dera tantos euros, reais ou dólares. Enfim, amadurecer nunca é tarde e o cinema nacional precisa acordar de sua incapacidade ou talvez pela falta de um "start" a quem manda no Minc e na Ancine para justamente incentivar mais obras, como esta argentina ou parecida a essa, que fujam do padrão estético atual onde de suma a única preocupação é cativar a classe C com comédias que nada dizem, mas que arrecadam, e é isso que interessa, mas está errado e precisa ser mudado.

   Para que o cinema brasileiro seja grande e respeitado algum dia é necessário que pensemos grande também, não dando tanto holofote se o filme vai ter bilheteria boa ou não. Precisamos, ou melhor, carecemos urgentemente de conteúdos bons, de cabeças pensantes nas estâncias públicas mencionadas para que algum dia tenhamos uma sociedade um pouco mais crítica e politizada também. Sou esperançoso e acho que um dia teremos orgulho do cinema nacional, todavia essa maturação certamente levará algumas décadas, desde que o conteúdo cinematográfico seja levado a sério a partir de hoje. 
                                                                         *****

   House Of Cards ( Terceira e Quarta temporadas), de vários diretores, EUA, 2016. Ao todo, incluindo as duas primeiras temporadas, estamos nos referindo a quase quarenta e quatro horas do seriado mais visto do serviço de Streaming ( Netflix ); e uma coisa ficou mais que bem resolvida como mensagem da série, que é a intencionalidade de matar para que os personagens centrais ( Claire e Frank ), ou até outros secundários como o editor do Washington post: Lukas, entre vários outros, consigam alcançar suas metas e objetivos traçados anteriormente ou no calor da situação política que pedia. 

    O que quero deixar explicito é que a série mostra de forma genial e visceral de que para ter , ou melhor, de que para pensar grande é preciso grandes sacrifícios , até em tornar-se assassinos sem pudores, se necessário fosse, assim como foi em várias situações para que não ficassem com o rabo preso diante alguns e algumas que sabiam demais da conta.

   Apesar de frios assassinos o casal protagonista é puro carisma, de modo que é impossível ter algum tipo de sentimento negativo por eles; o que sentimos na real é a puta força que os dois são quando trabalham e tramam juntos, e quanto são NADA quando estão em conflito; estes que inúmeras ocasiões ocorrem nas longas e divertidas quarenta e quatro horas de capítulo assistidos quase que sem parar durante uma semana, no máximo. Não aconselho a ninguém assistir o dia inteiro a House of Cards, mas que assistindo um capitulo atrás do outro o nível de compreensão da série com suas artimanhas geniais políticas, é insuperavelmente bem melhor. 

   Ou seja: fazendo só isso da vida durante uma semana você terá visto bem mais que uma respeitosa série política norte-americana, mas estará , até sonhando literalmente, sacando como o jogo político funciona. E se você consegue sacar esse jogo altamente maquiavélico e genial de uma super potencia econômica, é óbvio que outras nações, como o Brasil por exemplo, se tornam até um pouco rasas no que tange e diz respeito as suas obviedades políticas a cerca do jogo de cartas que temos na capital federal: Brasília, isto incluindo a Câmara dos deputados, o senado, o legislativo, o judiciário e o executivo. 

   Ou seja: quem tem a paciência de ver as quatro temporadas de House Of Cards, não só consegue ter em mente um tipo de "pós da pós graduação com mestrado e doutorado juntos" das soluções e não soluções (artimanhas) dos jogos políticos em qualquer país existente, assim como consegue também absorver estratégias eficazes e quase imbatíveis para entrar em uma campanha política e humilhar seus concorrentes devido a tantas informações que a série nos dá. Então antes de mais nada, quero informar que estou na pista nestas eleições municipais, e garanto que as melhores e mais eficazes cartas para se ganhar uma eleição serão dadas quem tiver apostado em um jovem antenado e com DNA de marketing político na veia. É apostar e ganhar, então contacte-me e não se arrependerás, garanto.