Colunistas / Cinema
Diogo Berni

Mãe só há uma aborda a questão do gênero em São Paulo

Dois bons filmes para seu final de semana
13/08/2016 às 09:01
Mãe Só Há Uma, dirigido e roteirizado por Anna Muylaerte com Naomi Nero, Brasil, 2016. Entre uma ou outra zapeada pelos inúmeros canais olímpicos me deparo com uma entrevista da Anna quando tinha vinte anos nos anos oitenta. Ela já queria fazer filmes sobre travestis e seu figurino já era um tipo de new wave com punk daqueles tempos. Quando vemos o seu último filme tudo se linka. 

   Ou seja: Ela não fez um filme sobre travestis, mas sobre gêneros. A Anna não bobeia e pega carona do seu penúltimo filme ( Que horas ela volta?), surfando a mesma onda da família de classe média brasileira e seus limites de entendimento das coisas. 

   Sim, como em todos os seus outros, temos um filme tipicamente paulistano, mostrando o asfalto da metrópole e seus habitantes espalhando-se nele;entretanto neste em especial temos como enredo uma estória real: do menino Pedrinho que fora raptado na maternidade por uma pessoa de bom coração, até. 

   Mas falemos um pouco do nosso Pedrinho da trama; trata-se de um garoto tipicamente comum de dezessete anos que estava conhecendo as maravilhas e desamores da vida real. Não era adulto nem criança, estava na coluna do meio termo, se conhecendo. Tocava em uma banda de Rock e tinha relações tanto com homens como mulheres. 

   Quando nosso protagonista, Pierre/Felipe soube que sua mãe o tinha roubado da maternidade, e eis que teria que conviver com sua nova e biológica família, pois sua mãe que o criou estava agora presa, como na estória real. Quando ele soube disso então: aí que ele ficou mais radical ainda. A trama gira em torno dessa aceitação dele próprio e dos seus novos pais de um adolescente bissexual. 

   Mas pra quê tanto enxame se o garoto queria ficar com meninos e meninas e ainda pintar suas unhas e usar vestidos só para se mostrar de dificil perante aos seus novos pais e sua nova realidade com um irmão super pentelho? O filme tem essa pegada de estranhamentos e aceitações de um garoto que estava apenas se conhecendo. A obra fílmica tem a marca registrada da diretora, e por isso vale o ingresso. 
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    Marlindo Paraíso e a Kombi do Amor. Nem tudo que reluz é ouro, nem prata ou bronze. Temos aqui o novo curta metragem do italiano radicado e com família em Salvador, com traços e origens egípcias Max Gaggino, Brasil, 2016. 

   A obra fílmica em questão aborda o universo popular e brega, mas não somente isso, leva-se em conta também a complexidade existencial de apresentador ( ou animado?) de televisão que tem como missão juntar novamente corações partidos devido aos percalços da vida.

   É realmente muito massa como a comunidade na qual a fita foi filmada, abraça o projeto do cineasta italiano; por vezes parece que ele convidou todos a um churrasco e na hora disse que ia rodar um curta lá. 
   Todo mundo com sua cervejinha na mão e naturalidade mais acho impossível. Entretanto voltemos ao nosso protagonista; trata-se de um "Varelão" ou um Bocão, ou até um Datena da vida, mas só que com viés romântico não político , Pois bem, esse cara , que todos pensam que é alegre o tempo todo, assim como aparece na televisão, tem uma puta solidão na vida real. Ou seja: o seu oficio é juntar pessoas , mas ele que é bom , nada!

   Podemos ter uma noção da sua solidão quando conversa com o câmera man e motorista da Kombi do amor: " Porra motor, hoje você tá um filósofo da porra!". Essa frase solta e sem muito entusiasmo indica que nosso protagonista sofre uma profunda crise existencial e ainda mais: recorre a vã filosofia e livros de Jorge Amado para descobrir o que é a vida e como viver e se apaixonar por outra pessoa, já que ele está careca de ver pessoas apaixonadas, mas por tanto ver isso, ele meio que se bloqueia nesse quesito de doar seu coração a outro alguém, seja lá quem for. Calhou de ser uma entrevistada sua que fora rejeitada pelo pai do seu filho. 

   O nosso Marlindo então, por pena, abre a porta do seu apartamento na Amaralina e abriga a moça e seu pequeno filho. Onde se come um, pode-se comer dois e até três; com esse papo "Marlin" conhece que o amor é mais doar-se que ganhar algo, e que cada doação pode trazer algum fruto inesperado , como o próprio amor ou apenas a admiração de outrem. O curta vai tentar seguir o mesmo trajeto do penúltimo do diretor que teve sucesso em Gramado. A nossa torcida será toda para Marlindo Paraíso em Gramado ainda neste mês olímpico.