segunda-feira, 23 de setembro de 2019
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

Série Narcos mostra vida de Pablo Escobar


Outro aspecto errôneo da atuação de Wagner Moura, e esta não por culpa dele, foi o sotaque, aliás a falta de um sotaque genuíno castelhano
18/06/2016 às 18:35
 Narcos – Primeira temporada, de vários diretores, incluindo os brasileiros José Padilha e Fernando Coimbra, EUA,2015. Vários diretores por se tratar de uma série com dez episódios em sua primeira temporada. Pelo sucesso que fez, a segunda temporada está garantida esse ano na NetFlix.

   O seriado pincela de maneira bem competente a vida do maior traficante de todos os tempos: O colombiano Pablo Escobar. Estamos nos referindo a quase dez horas de episódios dissecando a vida de Pablo e as suas consequências, por suposto. Quem tem a responsabilidade em fazer o Narco número um é o ator brasileiro Wagner Moura. 

   A tentativa dele em colocar Pablo como o comandante Nascimento do filme Tropa de Elite é demasiado errado, porém não podemos afirmar que o ator massacrou a imagem de Pablito, mas fato é que alguns tiques, como por exemplo sempre ajustar as calças para cima do umbigo deu a sensação que a cada situação de conflito, Pablito com aquele tique nervoso de certa maneira mostrava medo do que vinha-se a suceder, e coisa que o verdadeiro Pablo não tinha era medo, tanto é que foi quem foi, mas disso tratemos mais adelante ou adiante.

   Outro aspecto errôneo da atuação de Wagner Moura, e esta não por culpa dele, foi o sotaque, aliás a falta de um sotaque genuíno castelhano. Quando soube que ganhou o papel, Wagner correu até a Colômbia para fazer um intensivão de três semanas do idioma, mas não adiantou; era crível e audível as burricadas que o ator fazia, misturando o seu espanhol recente com o português, principalmente no final das frases.

    Todavia como mencionei não posso dizer que o ator não deu conta do trabalho. A mistura do coronel Nascimento com Pablo Escobar em certas cenas deu samba até, mas em outras não e quem salva a atuação e consequentemente a série é a direção e o roteiro deixando Wagner da maneira mais parecida possível com o mito Narco colombiano.

   Nos três primeiros episódios, ou seja, as primeiras três horas, achei que estava vendo o filme Cidade de Deus. Existia um narrador ( desta vez por um policial americano chamado por Murphy ); O fato de existir e precisar de um narrador até o seu décimo episódio, se deve ao mesmo motivo do filme do Fernando Meirelles: Por ter vários personagens importantes e vários grupos , então desta forma com um narrador o roteiro pode ter mais independência em percorrer todas as situações e personagens, afinal de contas, narrando-se a trajetória de Pablo Escobar narra-se obrigatoriamente a estória da América do Sul nos anos 80 e 90 do século passado. E tudo começou no Chile e não na Colômbia como a esmagadora maioria pensa que o trafego de cocaína nasceu. 

  Explico-lhes: Nos anos 1970 com o sanguinário coronel Pinochet no comando do Chile, este extermina todos os narcotraficantes de uma rachada só; O único que sobra vai a Colômbia com o pouco de produto que tinha em mãos e encontra o nosso protagonista em início de “carreira” (Rá!), podemos dizer assim. Os planos do chileno Barata era vender a cocaína que tinha para países vizinhos como Perú ou Argentina, porém Pablo tinha outros planos: Vender para Miami, nos Estados Unidos. Bem mais perigoso de fato era, assim como lucrativo.

  Narcos-3

   O Lema de Pablito era simples e seco, seus inimigos tinham duas opções somente, e isso em quaisquer circunstâncias até o fim das dez horas assistidas da estupenda série. Ele falava aos inimigos: “ É prata ou chumbo”, em bom português era grana ou bala. E assim o Narco conseguiu ser um dos homens mais ricos do mundo, lucrava até seis milhões de dólares por dia com o tráfico de cocaína, expandindo suas oficinas até o Peru para transformar a pasta base da folha de coca em produto a ser consumido. 

   Ganhava mais que a General Motors e qualquer colombiano, obviamente. Por isso era mais poderoso que qualquer presidente daquele país, com direito inclusive até invadir o palácio da justiça e queimá-lo para transformar em cinzas as provas contra ele. De presidente colombiano perdi as contas quantos matou, de políticos e policias então nem se comenta. A regra era reta e seca para seus fiéis sicários com a famosa indagação: “ Plata ou plomo?”.

   Pablo Escobar para muitos era um santo, e com direito a cartazes em suas residências, pois construía casas, escolas e creches para os mais necessitados. Por estas ações e por ter ajuda de uma amante jornalista, Pablo se candidata a vice-presidente da justiça, e ganha com ampla vantagem, aliás vice só na fachada pois logo quando ganha o titular laranja renúncia e Escobar vai ao congresso colombiano com a gravata emprestada do segurança do ressinto. 

   Veio de família pobre e não queria saber de coisas como gravata, etc e tal. A receptividade não fora como Escobar esperava no congresso, de modo que ele se retira mirando vingança, afinal ninguém tinha tanta grana como o Narco tinha. Após o incidente ele derruba um avião da Avianca para matar o presidente Ernesto Gavrina. 

  Fato este não ocorrido, mas com mais de cem mortos. Depois da queda do avião a pressão em pegar Escobar ficou de fato frenética, principalmente pelo empenho pessoal do presidente norte-americano Ronand Reagan, inimigo número um de Escobar e único a ter chance de brigar com forças iguais com o Narco. Escobar, como homem inteligente que era, negocia sua rendição com Gavrina, porém quer construir sua própria prisão e o poder de rasgar o que os EUA queriam: Encarcerá-lo em solo do tio Sam. Escobar preferia morrer em solo colombiano do que ter que se preso nos EUA, disso ele não abria mão. É importante salientar que a única vez que Pablito teve que abandonar a Colômbia para outro país( no caso o Panamá) foi quando ele incendiou o palácio da justiça e queimou tudo com a ajuda do grupo guerrilheiro chamado MI-9. 

  O grupo lia muito Karl Marx no período universitário e resolveu fazer a revolução na Colômbia, inclusive roubando a espada de Símon Bolivar e dando-a de presente a Escobar para consolidar suas parcerias. PARCERIA: esta era a palavra chave para Pablo Escobar ter sido tão poderoso e rico. Quando não dava ele matava, mas quase sempre dava devido a prata. A polícia, os políticos e até outros traficantes eram seus parceiros, daí então temos os famosos cartéis de Medellín e o de Cali, entretanto todos de certa maneira subordinados as taxas e acordos que Pablito ordenava.

   Agora sei o porquê de todos gostarem mais de séries que de filmes atualmente. A diferença de qualidade é realmente discrepante. O tema do seriado conversa totalmente com a política de drogas, ou falta dela, que respinga no Brasil como um todo também. É necessário realinhar as novas formas de combate as drogas no Brasil, caso contrário logo seremos uma potencial Colômbia dos anos 1990.