Colunistas / Cinema
Diogo Berni

Para minha amada morta, retrato de vários Brasis

O Escaravelho do Diabo; obra literária de Lúcia Machado de Almeida, com direção de Carlo Milani, Brasil, 2016. É muito bom assistir a clássicos da nossa literatura em adaptações para a sétima arte.
23/04/2016 às 11:54
      Para Minha Amada Morta, dirigido e roteirizado por Aly Muritiba, Brasil, 2016. Como é interessante existir vários “Brasis” em um Brasil. O  filme do diretor baiano de Mairi, radicado em Curitiba Aly Muritiba explica um pouco disso. Ou seja, dos vários “Brasis”. 

        A primeira sensação do filme que tive foi de estranhamento, afinal porque tantos “ silêncios barulhentos” Por parte do protagonista? O filme se diluí em nossas íris e, portanto, pegamos o seu ritmo contemplativo, porém ao mesmo tempo cheio de ódio e mascaras por parte do seu personagem principal; afinal o cara acabara de  perder sua amada em um acidente automobilístico e dias após descobre 
que seu chão, ou sua amada morta, o traía com um ex-detento que ela ajudou a tirar das grades como advogada da área criminalista. 

       O filme se  desenrola na saga deste corno em saber quem era o sujeito e o que ele tinha que ele não tinha. Deixa sua única filha com a irmã e se faz de pastor para ficar coladinho que o tal “Ricardão”. 

       Quando mencionei de ritmo e de vários “Brasis”, o filme explicita isto. Se fosse um filme baiano poderia ser até lento, mas com certeza seria escroto, cheio de risadas altas , etc. Mas o curitibano Para Minha Amada Morte é lento , porém denso, típico de uma outra cultura, esta não africana como da Bahia, mas polonesa, típica dos descendentes da região Sul do Brasil, em  especial a Curitiba. 

       Existe uma carga de tensão em todo movimento que o  protagonista faz, embora este aparente estar tranquilo, mas não está. O  sujeito quer vingança e não aceita de jeito nenhum ser corno, mesmo após a amada estar morta, afinal tinha a sua honra em jogo; o que iam falar dele se alguém descobrisse o segredo, isto seria inadmissível. 


       O bacana do cinema é permitir-se estar em um cinema, e também estar em vários lugares sem sair dali, e o filme nos transporta para um costume mais formal, onde um olhar ou uma frase pode falar bem mais do que especificamente está dito. O filme vem percorrendo, e vencendo alguns festivais, Brasil e mundo afora, e agora chega a sua terceira semana em cartaz, fato este dificílima de acontecer tratando-se de filme nacional. Para Minha Amada Morta é sem dúvidas uma boa pedida para um entretenimento fílmico de qualidade, e além disso, o filme permite-se uma autoanalise, afinal todos podem serem traídos ou traidores algum dia.

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     O Escaravelho do Diabo; obra literária de Lúcia Machado de Almeida, com direção de Carlo Milani, Brasil, 2016. É muito bom assistir a clássicos da nossa literatura em adaptações para a sétima arte.

    Sente-se um clima de nostalgia, porém ao mesmo tempo, analisamos como se escrevia naquele tempo em comparação a hoje. As histórias de antigamente eram bem mais ingênuas. Se estivesse escrito que tal obra fosse destinada ao público infantojuvenil, esta não sairia das rédeas, até mesmo por que vivíamos em um período de censura ou pós censura da ditadura militar. 

    Hoje vocês creditariam o livro best-seller Mundo de Sofia do norueguês Jostein Gaarden como uma obra destinada ao público infantojuvenil? Acho que não; tive o prazer de ler esta pérola para abrir meus horizontes aos vinte e dois anos e agora, relendo, que de fato estou entendo o livro. Então é nítido que em épocas diferentes também existiam um teor diferente no tocante “ a profundidade” da obra discutida ou lida. 

   Entretanto voltemos ao filme O Escaravelho do Diabo e está ainda tudo ali, embora que adaptado; um menino Super-herói curioso e um enigma a ser decifrado: Quem teria assassinado seu irmão e outros tantos ruivos de uma cidade paulista de trinta e um mil habitantes, onde a ocorrência de pessoas ruivas era mais alta do que a de habitual em comparação a outras cidades brasileiras. 


   Quando pequeno, hoje lembro como queria ser aquele moleque anárquico que estava a beira da própria sorte após a morte do seu único irmão e responsável, pois pelo que se sabe a mãe estava em um festival de flores exóticas em Amsterdã ( sabemos que flor seria essa né... ), e por isso não estava nem aí para seu filhote, aliás nem sabia da morte do seu primogênito. 

   Como mencionava a magia deste moleque que se fazia de policial para saber quem matava todos os ruivos da sua cidadezinha, foi o ponto chave do filme. Se sua atuação teve algumas falhas, acho super natural, afinal é um ator mirim em formação, e está errando neste filme para acertam no próximo, 

    Oras... Fato é que o filme nos apresenta mais que um tom nostálgico; a obra fílmica permite também a observarmos uma puta direção de arte e uma direção coesa. Filme para todas as idades hein, podem pegar a pipoca e reunir toda a família.