quarta-feira, 18 de setembro de 2019
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

EDEN, sem medo de ousar na arte cinematográfica

Obras desse quilate e gênero são produzidas para que, antes de qualquer crítica nítida, explique ou não explique, que certos filmes foram feitos para serem sentidos e não param serem escritos.
11/04/2016 às 10:54
A Loucura Entre Nós, dirigido por Fernanda Fontes Vairelle, Brasil (Bahia), 2015. Todo soteropolitano que se preze já ouviu falar do Hospital Juliano Moreira; e todo artista certamente desta terra já deve ter ouvido, ao menos uma vez na sua vida, alguma frase do tipo: “ Rapaz, se você continuar agindo assim foi te levar para o Juliano Moreira, por isso se plante, viu? ”. 

   O hospital Juliano Moreira era, e ainda é o centro público psiquiátrico do estado, e não só mais o importante e lendário de Salvador, mas do estado da Bahia como um todo, e ainda das suas redondezas como os estados de Sergipe e das Alagoas.

   O documentário adentra na vida destes internos e instala uma câmera 24 horas a fim de captar as reações daquelas pessoas doentes mentalmente desprovidas do mais importante para qualquer ser humano: A capacidade de entender o mundo a sua volta e conseguir conviver socialmente com ele, ou ao menos conseguir “bater uma bola” com a sociedade e esta os aceitarem como pessoas “comuns”. 

   Seria a situação destes internos uma questão de carma de vidas passadas? Dúvidas deste crítico deixadas a parte, porque neste momento não seria a coisa mais importante para a compreensão de um documentário “pra lá” de complexo por mexer pela falta de sanidade dos seus personagens reais fazendo seus próprios papéis de vida. 

   Como crítico de cinema e apesar da produtora executiva do filme ser minha conhecida (Amanda Gracioli), não poderia deixar de comentar a falta de ética da direção do filme em colocar uma câmera ligada vinte quatro horas por dia e noite, captando aquela gente defecando nas calças ou nas camas ou até no chão mesmo, delirando, se agredindo, vomitando, comendo restos, dormindo em situações precaríssimas, vivendo ao redor de ratos podres, tendo relações entre si de uma espécie explicita , e outras cositas mais. 

   Embora sejam enfermos mentais, alguns com mais e outros com menos transtornos, mas acho inadmissível a falta de caráter que o documentário teve em expor estas pessoas sofríveis nas suas rotinas , que não são exatamente as nossas rotinas; então achei uma baita falta de bom senso e até de oportunismo explorar a imagem deles dessa forma completamente desumana e insana, até talvez bem mais insana do que a mente dos próprios enfermos internados por livre e espontânea pressão da sociedade e familiares. 

   Claro que fica nítido também o envolvimento emocional da diretora  Fernanda no filme, em especial com duas internas das quais ela dá uma atenção maior para contar as suas estórias de vida, de que forma chegaram lá e porque ainda se encontram no Juliano Moreira. 

   São duas histórias de vida sensacionais. Quero crer que no afã da emoção a diretora e seu corpo de filmagem não percebeu que estava trocando “os pés pelas mãos” por invadir demasiadamente a privacidade dos internos do Juliano Moreira, deixando uma câmera o tempo todo ligada registrando tudo e mais um pouco; todavia se a diretora tinha essa lucidez e mesmo assim o fez, não tem como desculpá-la por se tratar de princípios básicos de ética para qualquer ser humano, seja este doente ou não. 

   Também seria injusto da minha parte em escrever que o filme não emociona. Acompanhar relatos de pessoas puras e cristalinas, como a água, de fato não tem como não se emocionar pelo estado em que se encontram. Um documentário forte, mas que poderia ter uma pegada mais leve respeitando o espaço e a situação que outros se encontravam por uma questão de carma de vidas passadas que pagam com juros e correções monetárias nesta vida para virem mais evoluídas numa próxima reencarnação. 

   Enfim, trata-se de um documentário que teve um deslize ético, ao meu ponto de vista, mas que “se remede” por permitir que pessoas ditas normais possam sentir na pele o que é ser outra pessoa dita
como não normal ou enferma, ou mentalmente perturbada, como queiram classificá-las. Por este aspecto o documentário vale muito ser visto. 
                                                                                     *****
    Eden, dirigido por Mia Hansen-Løve, França, 2015. A vida não fora feita para ter medos, não fora feita para os covardes. Se existe uma mensagem subliminar que o filme nos traz, a mensagem é esta: Não ter medo de ousar, não ter medo de experimentar, não ter medo de doar-se a vida como se fosse o último prato de comida que irás comer: Viva uma “Dolce Vita” ou ao menos tenha coragem para correr atrás desta utopia de que tudo na vida são flores, e que tudo de ruim uma hora passa, pois o extrato natural da vida é a felicidade. 

   Sim: Seja otimista mesmo correndo o risco de ser ridículo , porque para ser ridículo é necessário coragem; é preciso romper com o preestabelecido, é preciso de culhões para dizer que sim: Vim para este fucking plano terrestre para ser feliz antes de tudo e que se dane se sou evoluído espiritualmente ou não para isso. 

   Quero é me dar bem aqui e agora, e o resto pago com juros e correções monetárias quando morrer, se é que estes juros seriam cobrados. Mas evoluir é isto: É permitir-se a correr riscos, e a música é um baita instrumento ou atalho para conseguir tal feito. Sou crítico de cinema há nove anos e amo a sétima arte por ser um embrião mais evoluído do teatro; arte esta uma espécie de autoanálise de quem se propõe a encarar. 

   Todo ator que se preze é um ser humano evoluído, pois se conhece e ainda está neste processo até o fim dos seus dias. Minha admiração pelo cinema vem por aí, por ele tentar acompanhar este autoconhecimento humano de uma forma com mais elementos que o teatro, pois engloba além da interpretação ou a dramaturgia, outros aspectos como: roteiro (minha cachaça sem ao menos conhecer sua forma oficial...), figurino, maquiagem direções de produção e arte e pôr fim a direção. 

   O diretor é sem dúvidas uma espécie de semideus ( ou um Deus mesmo), ou achas que toda quinta feira tem vários lançamentos mundiais de filmes e o povo fica esperando por eles por acaso? 

   Não existe por acaso ou coincidência. A espera da toda quinta é porque o ser humano necessita desesperadamente de histórias para viver, ou melhor, para aguentar sua própria existência mesquinha com aquelas obrigações de trabalhar, bater ponto, pagar a mensalidade do filho na escola, além do supermercado, pagar luz, água, seguro de vida e carro, etc. 

   O cinema veio para deixar o ser humano menos “crazy”, mostrando que a ficção é a única coisa que salva a nossa existência com todas estas nossas obrigações. O que escrevi até agora não foge do filme que vi hoje a tarde, pois ele foi o culpado por indagar tudo isto que escrevi. E porque ele teve este mérito? 
   
   Porque ele falou de necessidades genuínas de um ser humano que almeja, e de fato consegue, seguir sua vida com um mínimo de honestidade consigo próprio. Vejam bem: A honestidade consigo próprio nada tem a ver com ser honesto, mas sim com o estar evoluído para saber até onde você pode aguentar ir para ter a tal evolução, e afirmar: “ Caramba, sou evoluído e estou preparado para ser ainda mais em outro plano, se é que este existe".

    Em resumo o filme Eden é do cacete bicho e acho que você, esperto como é, não vai perder a chance de assisti-lo para ter esta experiência de tele transportar-se, no sentido em se encontrar e consequentemente se perceber que és um nada e precisa ainda de muito para evoluir. 

   Em suma é isso, e seria muita petulância misturada com arrogância minha tentar explicar o filme, pois obras desse quilate e gênero são produzidas para que, antes de qualquer crítica nítida, explique ou não explique, que certos filmes foram feitos para serem sentidos e não param serem escritos. 

   O que garanto a vocês é que terão uma baita experiência interna, e sem direito a tomar ecstasy, vendo esta obra genuinamente gaulesa que tem como pano de fundo as Raves dos inúmeros estilos da música eletrônica dos anos 1990 e 2000 numa Europa cada vez mais influenciada pela cultura do Hip-hop. Quando um filme tem como tema principal à musica, este transcende a sétima arte porque entra na jogada uma arte superior, e que mexe com todos que é a música. Belíssimo retrato de uma geração que é transposto em tela grande, e que nos mostra que tudo ainda está a ser descoberto por nós: Meros mortais.