quarta-feira, 18 de setembro de 2019
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

CINEMA: Tributo a Sócrates, a Era do Ouro e Tropikaos

Veja os comentários sobre os documentários
02/04/2016 às 15:16
   A Era de Ouro, de Leonardo Mouramateus, Brasil, 2014. O média metragem fala de emigração e relacionamentos, entre outras coisas, como por exemplo: Mercado de trabalho, oportunidades; e estas quando surgem são de fato boas , ou a pessoa teria que vender sua alma ao diabo ou ao capitalismo ? Fato é que se quiser trabalhar é necessário entrar no jogo  do capital. 

   As angústias do casal protagonista são essas: Enquanto a atriz sai de Fortaleza para São Paulo e se transforma em uma  executiva de vendas de lugares com potencial rendimento de crescimento imobiliário; o seu namorado, diretor de teatro, decide ficar em Fortaleza vivendo da arte. 

  A saudade bate forte e o cara pega um voo até  Sampa para ver a amada. De imediato logo vê como São Paulo é diferente de Fortaleza e pergunta a mulher: O que te fez vir até aqui? Afinal o mundo de ambos antes era dedicado ao teatro, ou seja, com total desprendimento material possível. O seu estranhamento é que sua suposta ainda namorada gostava de estar em São Paulo, onde quando faz muit frio, mas quando faz calor é pior ainda e não se deve pegar a marginal após as cinco da tarde. 

   O cara fica com uma "cara" de paspalho, como quem tivesse ficado parado no tempo. Angustiado, porém aceita a decisão da namorada e começa a viver com ela em seu apartamento. Os dias passam e
 o diretor de teatro só se vê mais angustiado com aquele amor que não existira mais, agora estava na frente não mais da sua atriz, mas na paulistana boa de lábia e com terninhos caros para trabalhar. 

   O impasse estava firmado por esta ambivalência de valores. Qualquer espectador poderia sacar de primeira qual era a tensão dramática do filme, ou em outras letras: O que estaria pegando entre o casal, alias pegando não, faltando de pegar. Com este argumento de roteiro Leonardo Mouramateus nos propõe uma reflexão aos nossos valores, ou até nos faz pensarmos em até que ponto vale se dar ao capitalismo e deixar sua arte de lado. 

   De uma coisa não tenho dúvidas: Quando entramos sério na arte, não é culpa nossa; isso estava meio que preestabelecido, ou seja, não se escolhe ser artista, você nasce com esta predisposição genética e pronto, é só. A questão do viver da arte é que de fato pega , pois ainda não tem a valorização necessária para os médicos das almas. Enfim, um bom filme que nos instiga a pensar em decisões ou até na falta delas.  
                                                                                *****
Lição de Esqui, de Leonardo Mouramateus, 2013, Brasil. A sacada seria bolar um plano para conseguirem uma demissão por justa causa em um supermercado, porém o plano não ocorre como esperado. Enquanto um quer ir para o Canadá, o outro por sua vez, quer ficar desempregado e de bobeira na 
mesma cidade. Todavia nem hum e nem outro conseguem o que querem: A demissão. 

   Os caras bolam uma briga em pleno supermercado, e ao invés de ocasionar espanto, originam flashes nas câmeras dos consumidores pensando que aquilo ali era uma brincadeira, e mesmo que não fosse, não era uma briga digna de separação. Com o plano saindo errado os caras vão a balada, e aí de fato e cheios de cachaça, brigam de verdade.

  Enquanto um chega em casa todo ensanguentado , o outro por sua vez, some depois de espancar seu antigo companheiro de trabalho. A lição do esqui ou de qualquer outra coisa é a seguinte: Se for pra fazer, faça bem feito, caso contrário a probabilidade em se dar mau é enorme. 
                                                                              *****
O Táxi de Escher, de Aleksei Abib e Flavio Botelho, Brasil, 2015. O curta é ambicioso no sentido em colocar e até brincar com a capacidade de percepção do espectador; explico-lhes: A micro obra fílmica tem o sentido desconfigurado de roteiro, ou para ser mais específico ainda, o roteiro não obedece os fatos cronológicos das personagens. 

   Trocando em miúdos: Existe idas e vindas dos personagens que por vezes podem comprometer a compreensão da mensagem final do curta metragem. Mas pelo que se percebe é que o diretor , no final das contas ou do filme, quer taxar uma pegadinha para quem assiste. O enredo  é o seguinte: Um casal entra no mercado municipal de São Paulo, recém chegados de Buenos Aires. 

   O homem mais astuto, vê uma carteira de bobeira e dá "um shiraya" nela. Ou seja, pega-a e sai correndo; e sua companheira, sem outra opção, corre atrás dele. Após a correria os dois se encontram do lado de fora do mercado e combinam de se encontrarem no outro quarteirão ao lado dentro de em um táxi.

   O homem chega no local combinado com sua cúmplice e fala ao taxista: " Para Buenos Aires, por 
favor". Em uma cena de total trascendentamento do diretor o taxista grita com o cara: " Para lá é, porque você mesmo não dirige esse carro velho e vai até lá, tome essa lata velha , ela é sua agora!" . O ladrão,  achando que o taxista era policia por paranoia, sai do táxi e tenta pegar outro agora juntamente com sua mulher, pois antes queria dar um "vazari" na argentina também. 

   Quando o casal entra no novo táxi, percebem que quem dirige o carro é o sujeito que fora roubado por eles, e  por ironia o sujeito era argentino e estava indo para Buenos Aires também; então pergunta: " Porque Buenos Aires?". Isto é o suficiente para o casal abandonar o táxi deixando a carteira roubada no bando de trás. O sujeito então pega novamente sua carteira e insinua um sorriso.

SÓCRATES

  Sócrates, dos Canais ESPN, 2013. Por motivos pessoais e também pela qualidade do documentário, fiquei extremamente emocionado vendo este filme. A utopia é para os mais fortes, e não para insanos, como a maioria taxa. A utopia só lhe é cabida aos poetas; aos seres que nasceram com algo maior que faz com que a maioria não enxergue seus predicativos que estão além do tempo presente em que vivem. 

  O Sócrates no futebol foi um destes utópicos. O documentário enxuto, porém, conciso, nos mostra a trajetória do garoto Magrão de Ribeirão Preto, interior paulista, que por uma deficiência física, esta própria o fez brilhar e ter um tipo de marca registrada: O toque de calcanhar. 

  Como ele era alto, 1,90cm, e calçava apenas quarenta em suas chuteiras; toda vez que girava para fazer as jogadas no meio campo, o pé não acompanhava  a sua estatura. Ou seja, o toque de calcanhar de Sócrates fora uma necessidade para que o “Magrão” conseguisse dominar a “pelota” e ainda dar um passe. Todavia este não foi nem de longe a melhor colaboração do doutor; sim na época que jogava no Botafogo de Ribeirão Preto o Magrão cursou e concluiu o curso de medicina, por isso era conhecido como Doutor Sócrates, porém o doutor era lhe dado mais por sua categoria em campo do que de fato pelo diploma que a lhe era conferido, após terconseguido a base de muita cerveja quente após as aulas e uma cabeça que  guardava todos os ensinamentos sem ao mínimo pegar um papel e caneta;Tudo era criptografado em sua mente, por sinal, por sua incrível mente. 

  Quando sai de Ribeirão Preto e vai a mega capital ,o estranhamento é nítido e explicável por seus irmãos, mãe, e comentaristas da ESPN e amigos pessoais: José Trajano e Juca Kifouri. Todavia voltando ao Sócrates o grande legado que o Magrão deixou não foi as suas apostas que  sempre ganhava com quem tentasse defender as suas penalidades através dos seus calcanhares, mas sim a criação da democracia corintiana, criada  em pleno regime militar. 

  O movimento liderado pelo Magrão e com o apoio  dos jogadores Vladimir e Valter Casagrande foi um grito de independência que o Corinthians ecoou pelo Brasil a fim de acabar com a ditadura militar. Foi a primeira manifestação, mesmo que velada, contra a  ditadura. 

  Alguns anos mais tarde Sócrates veria seu país com um regime democrático, e por este e outros fatores ele volta da Itália para jogar no Flamengo de Zico. Azar do Flamengo que logo quando chegou no Rio o Magrão operou a coluna e nunca mais foi o mesmo que o mundo conheceu na  copa de 1982 na Espanha. 

   Homens com o caráter do Doutor Sócrates, hoje em dia, são cada vez mais raros. Atualmente tudo é descartável, até no futebol não existe a irresponsabilidade da mágica, tudo hoje é dinheiro,  e quem empobrece somos nós: O povo, que fica à mercê dos encantos mais simples e favoráveis que as pessoas têm a oferecer, e não oferecem por medo de sair da cartilha para criar algo novo. 

FILMAÇO

Tropikaos, dirigido e co-montado por Daniel Lisboa, 2015, Brasil.

Tem um ditado que diz que todo filme ou livro publicado é uma espécie de auto bibliografia. Acho que no primeiro, não tem muito como fugir desse clichê, pois lá está toda a ansiedade que o autor pensou há anos em fazer. 

Tropikaos é meio isto, uma espécie de regurgitação do Daniel Lisboa; um leque exposto das suas experiências vividas ou seus pensamentos. O protagonista, como não poderia ser diferente, é uma espécie de alter-ego do diretor soteropolitano. Trata-se de um poeta: O Guima, uma abreviação de Guilherme, mas Guima para o mundo artístico. 

O vosso poeta, vosso porque seu maior inspirador é Castro Alves, anda meio empacado com seu livro;
não consegue continuar escrevendo pelo excessivo calor do verão de Salvador, o maior de todos os tempos. O livro é patrocinado pelo governo do estado e por isso a Secretária da Cultura pede pressa para que Guima acabe de escrever seu livro de poemas para o lançamento na inauguração do carnaval daquele ano, mas para Guima a tarefa não será tão fácil assim. 

  Primeiro porque os poetas necessitam de inspiração para escrever, então o pior martírio deles são prazos a serem cumpridos; para inspirar-se Guima fuma crack, mas isso pouco ajuda no processo da escrita. 

   Além desta necessidade poética de inspiração, ou talvez por isto, Guima começa a queimar-se por dentro; uma espécie de alta sensibilidade aos raios UV, ao qual ele chama de ultraviolência solar. O poeta vai aos médicos, mas estes por sua vez são incompetentes em diagnosticar seu mal-estar.Em certa cena o protagonista afirma que não fora preparado geneticamente para viver em uma cidade quente como Salvador. 

   Por tal motivo enjaula-se em seu quarto, com um ar-condicionado Eletrolux modelo 1992 na potência máxima, esperando a inspiração para acabar seu livro de poesia. O arco dramático do filme sucede-se quando seu ar-condicionado quebra e Guima se vê completamente perdido em pleno verão ultra escaldante soteropolitano. 

  O ar-condicionado, além de livrar o poeta do calor, era também um tipo de amuleto misturado com melhor amigo do poeta, e quando este quebra Guima se desmiola também. No affair de consertar o aparelho o protagonista conhece o personagem mais interessante da trama: Um senhor meio barrigudo que conserta seu ar após ouvir uma entrevista do poeta pelo rádio, vendo o drama que aquela figura estava passando. 

  O filme percorreu festivais de cinema como os de São Paulo, Rio, Tiradentes e Salvador com salas lotadas e foi bem recebido pela crítica. Daniel Lisboa é talvez a única aposta baiana atual de um cinema honesto e transcendental; não à toa tem como padrinhos o cineasta Edgar Navarro e o eterno “Super-Outro” Bertrand Duarte.

  Agora é aguardar pela estreia comercial do filme, e muitos, assim como eu, ficarão identificados com os locais e personas do filme, que são figuras presentes na cena notívaga do boêmio Rio Vermelho, em Salvador. O filme é diversão certa, é ver para crer.