segunda-feira, 23 de setembro de 2019
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

O amor é estranho, um belo e sensível filme

Belo filme este O amor é estranho; Forte e firme na hora que tem de ser através do seu virtuoso diretor, e também tocante e sensível quando o foco do assunto é o ser humano
02/01/2016 às 16:25
O Amor é Estranho, dirigido e roteirizado pelo virtuoso Ira Sachs , EUA, França, 2014. De imediato sou quase que obrigado e repensar em alguns conceitos para nem eu e nem vocês ficarem a mercê da chamada ou apelidada ” massa coletiva sem neurônios”. 

   Partindo deste pressuposto sinto-me confortável em escrever que chega até ser surreal se quiséssemos fazer uma comparação de filmes que passam em festivais de cinema em contrapartida a doutros em circuitos comerciais vigentes. 

   As obras fílmicas que passam somente em festivais de cinema; Parece-me que estas juntos com seus criadores poucos se lixam se sua obra será aceita ou não em passar nos cinemas para a grande massa
assistir, e vou um pouco mais além nesta questão de distribuição: Tenho para mim que os filmes vistos em festivais de cinema nem se quer se dão o trabalho de esperar que estes venham para o circuito comercial, pois como estes ganham os principais editais cinéfilos dos seus países e regiões, tais seletos filmes se sustentam pela grana dos editais, pois suas obras têm, podemos afirmar uma forma mais comprometida com a sétima arte, forma esta bem diferente das obras audiovisuais que circulam nos complexos Multiplexs dos shoppings, onde o combo da pipoca custa o dobro do valor do ingresso da sessão. 

   Quem sai perdendo e fica a ver navios é mais uma vez o povo que não consegue se desvencilhar dessas
comédias, estas no caso do Brasil. Pergunto-me se realmente vale a pena insistir em estimular as pessoas a assistirem filmes nacionais como, por exemplo: Meu Passado me condena 2; A ligeira impressão deste crítico, com toda sinceridade possível e cabível nesta resenha, é que vale mais a pena estimular as pessoas a gastarem seus reais em cervejas, por vezes quentes, vendo a um jogo de futebol de série B do seu clube, que ver as comédias nacionais produzidas hoje em dia, pois ao menos, se as pessoas não assistirem a esses tipos de filmes estão por seguinte protegidas a expor suas íris a obras tão
rasas, e pior, sem nenhum tipo de comprometimento político, filosófico ou social, fazendo da obra uma pura perda de tempo e processo de “ignorantização” da maioria da sociedade. 

   Dito ou escrito isto agora podemos especificamente tratar da obra fílmica em questão: O
amor é estranho, onde temos em seu elenco principal nomes como John Lithgow (interpretando
um aposentado e pintor) e Alfred Molina (dando vida a um músico e professor), fazendo os personagens principais da trama. 

   O filme começa com o enredo de quando o casal resolve unir seus trapinhos oficialmente perante a um juiz, e consequentemente à lei. A união já era estável para mais de vinte anos, trocando em miúdos: A união civil fora um mero presente ou troca de gentilezas que ambos se permitiram fazer e se darem e presente, declarando-se ainda mais apaixonados e juntos um ao outro. 

   Todavia fatos sociais atípicos se sucedem como cascata após a união formal de ambos. Um dos companheiros tinha um emprego estável de professor de música em uma instituição católica. 

   O musicista já lecionava na escola há mais de dezoito anos e seus superiores, no caso padres,
sabiam de sua união com outro semelhante de mesmo sexo, todavia quando este volta da sua lua de mel fica sabendo da sua demissão. 

   O padre, com aquele olhar piedoso nos seus olhos, explica-o que quando era somente sem ser “no papel” o seu casamento não afetaria os “Calcanhares de Aquiles” da poderosa igreja Católica (Talvez isso explique ou se imagine à vasta quantidade de padres homossexuais na santa igreja que não podem sair do armário).

    Mas fato é que agora com o professor sem emprego, já que o outro companheiro mais idoso do
casal vivia de uma pequena aposentadoria, o casal desta forma vê-se sem condições de continuar pagando o aluguel de casa que moraram por longos e românticos dezoito anos (e somente por dois anos não tiveram o direito de ter a residência para eles ), e por isso se veem de um momento para outro, pelo
simples fato de uma cerimônia, não terem o direito de um teto para chamar de seu. 

    O arco narrativo do filme se desenvolve a partir dessa situação de não moradia de um casal estável financeiramente há pouquíssimos dias atrás. Sem terem a quem recorrer, ou melhor, tendo ainda há alguns poucos amigos há quem recorressem, eles fazem exatamente isto e se separam momentaneamente indo um morar em uma casa e o outro em outra de outro amigo em comum do casal de artistas. 

   A grande sacada do roteiro não está na tentativa em abordar: “Os problemas de minorias”, mas sim na tentativa “exitiva” do filme focar-se no lado “sem teto” dos personagens centrais da trama, trocando em miúdos, a especulação imobiliária fora o centro do problema do roteiro, e não o fato de terem como gays os seus personagens principais, ou seja, em tempos de crise como o que passamos, esta situação de perder o emprego e ficar sem casa pode literalmente acontecer com qualquer pessoa, e para que isso aconteça basta apenas que não se jogue com as mesmas fichas desse sistema capitalista bruto “nú e
crú”, e caso não entremos nesse esquema de esquizofrenia social , corremos seriamente o risco de acabar como o casal da trama, ou seja, sem eira e nem beira, e definitivamente “você perdeu playboy!”. 

   Acho que não precisa ter, não muito, mas ao menos um mínimo de bom senso e pouca estupidez para que cheguemos à conclusão que países como o nosso encontra-se ainda em idade pré-histórica
quando o assunto é direitos humanos.

   Belo filme este O amor é estranho; Forte e firme na hora que tem de ser através do seu virtuoso diretor, e também tocante e sensível quando o foco do assunto é o ser humano, independentemente de sua
raça, sexo, religião, opção sexual ou social.