quarta-feira, 18 de setembro de 2019
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

Marcas da Vida, um drama dos mais contundentes

Dois bons filmes são nossa indicação para o feriadão
10/10/2015 às 18:32
 Marcas da vida ( Sunlight Jr. No original ), dirigido e roteirizado por Laurie Collyer, com Naomi Watts e Matt Dillon, EUA, 2013. O filme é humano, emotivo, autentico e pesado; Mas não deixa de ser um retrato, meio diferente um pouco, das nossas relações atuais. O filme nos mostra a estória de um casal completamente normal, se pessoas de fato ditas como normais existissem realmente: Não: elas não existem, pois de perto ninguém é normal, como já diz o jargão popular. 

   A peculiaridade do casal que dá corpo a obra fílmica, além de não serem normais obviamente, é de o homem ser um paraplégico por conta de um acidente de trabalho no ramo da construção civil, pedreiro mesmo, e este viver 
precariamente com o auxílio do governo por sua inaptabilidade para o trabalho, e para completar sua renda contava ainda com uns trocados da sua namorada: Uma típica estadunidense que não ligou para seus estudos e por isso trabalhava como caixa de uma loja de conveniências. 

  Quando mencionei que o filme retrata nossas inquietações contemporâneas quis me referir à situação financeira onde estamos sempre correndo para nos sustentar, e com o casal do filme não é diferente; Trocando em miúdos o filme tem como assunto norteador a sobrevivência financeira, afetiva, psica e emocional do casal, onde só uma pessoa trabalhava
e a outra vivia como podia até que determinado dia a única fonte de renda do casal acabara, ou seja, a mulher fora despedida do caixa da loja de conveniências, e sem dinheiro para pagar o aluguel o casal é despejado e obrigado a morar com a mãe da caixa. 

   Residência esta bancada pelo ex-namorado da mulher, interpretada por Naomi Watts, e ainda apaixonado por ela. O sustento do seu ex-companheiro vinha de pequenos negócios ilícitos no ramo das drogas sintéticas. Se o filme é duro? Sim, de fato é, todavia também é real e até visceral, principalmente quando o casal tem de submeter-se a ser bancado pelo traficantizinho. Com um roteiro super-redondo e encaixado e atuações conviventes dos seus dois principais personagens o filme convence e nos consegue mostrar que “a América” pode ser O sonho ou O inferno, e o filme foca
na segunda opção mencionada com méritos.
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   Venus in fur ( a pele de Venus ), com direção de nada menos que Roman Polanski, França, 2014. O filme tem apenas
duas personagens e um cenário, que é um teatro. As personagens são: Thomas, um estreante diretor de teatro, interpretado por Mathiel Amalric, que pretende ensaiar a peça A pele de Vênus, que é uma adaptação literária homônima do escritor Sacher Masoch, e uma atriz chamada Vanda, interpretada pela bela esposa do Polanski: Emmanuelle Seigner, esta que chega atrasada para o teste da peça, de modo que quando ela chega ao teatro todas as outras pretendentes ao
posto já tinham sido dispensadas pelo exigente diretor estreante. 

   A história se inicia com as desculpas da atriz pelo seu atraso. A tal desculpa é tão convincente que a conversa vai fluindo até que os dois entram no roteiro da peça e começam a ensaiar. De fato a peça é tão intrigante e visceral porque não temos a nítida certeza quando o diretor e a atriz estão discutindo suas vidas pessoais ou da lida do roteiro da peça. O clima, apesar de estarem em um teatro vazio, é frenético. 

   As personagens não param de se comunicar; São raciocínios e falas rápidas por cima de outras falas e pensamentos, e não sabemos de fato quando essas conversas e raciocínios discutem a peça ou a vida real das pessoas que interpretavam as personagens. O que fica nítido é o teor intelectual da peça que estava ensaiando, esta com ênfase em teses existencialistas, e também por um certo ar sedutor da atriz para com o diretor. 

   As únicas pausas que ocorrem no filme acontecem devido a telefonemas que o diretor recebia da sua esposa, esta já prevendo que ele chegaria em casa após o horário de testes, prevendo então de que estaria acontecendo algo mais do que somente um teste profissional de teatro, ou seja, desconfiava que estava correndo o risco de estar sendo traída, pois como a esposa conhecia tal peça , o seu roteiro era de um homem que pede à mulher que ama para que ela o torne seu escravo, infringindo todas as torturas que quiser. 
 Aliás, é do nome do autor (Masoch) que vem a origem da palavra masoquista. Ao contracenar as cenas da peça, ambos
passam a viver suas perversões. A personalidade provocante e dominadora de Vanda se sobressai, e aos poucos ela vai comandando a mente de Thomas, levando ele a fazer coisas estranhas. 

   O filme levou o prêmio de melhor direção no César ( o Oscar francês ) pelo pulso firme de Roman Polanski, fazendo que suas únicas duas personagens sejam perfeitas e por isso não deixa ninguém bochechar de sono durante todo o filme, e afinal de contas Polanski não é qualquer diretor, trata-se de uma referência na sétima arte e por isso que suas obras sempre tem algo há apreciar e nos ensinar; O filme encontra-se em cartaz nas melhores salas de cinema da sua cidade.