ter?a-feira, 17 de setembro de 2019
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

O último cine drive, de Iberê Carvalho

Dois filmes para vocês neste final de semanaDiogo Berni , da redação em Salvador


27/09/2015 às 19:00
O último cine drive – in, de Iberê Carvalho, Brasil, 2015. Volta e meia somos agraciados por produções nacionais
que mexem em nossos corações. Temos como enredo o último cine drive-in em funcionamento no Brasil, mas precisamente em Brasília.

 Nos tempos atuais a média era de cinco a seis carros por sessão, e isto não necessariamente seria para ver o filme, pois com a entrada custando cinco reais cada pessoa o cine de carro se torna mais barato que pagar um motel. Entre 2004 à 2006 existiu um empreendimento deste na Bahia, mas precisamente próximo ao Aeroporto; Entretanto este durou pouco tempo devido a circunstancia de se prestar de motel a céu aberto, e não necessariamente cinema a céu aberto, aonde em tempos idos as famílias pegavam suas cangalhas e iam inteiras apreciar o friozinho da noite enroladas em cobertores para uma diversão em família. 

Como os tempos são de multiplexs os gostos também mudam. Pois bem: Este é o objetivo deste filme;
Mostrar o último cine drive-in em funcionamento no Brasil, e de certa maneira, nos fazer refletir o porquê dele ter desaparecido. Na trama temos ainda um sonhador: o grande ator tucanense Othon Bastos, que faz o papel do dono do cine drive-in. Estabelecimento este que contava com dois funcionários: Uma mulher buchuda ranzinza que era um tipo de faz tudo do recinto, desde a projeção até o pedido dos lanches era com ela mesma. 

E o porteiro que atendia os pouquíssimos carros que iam à maioria das vezes no recinto para “dar uma” em uma escrita mais vulgar. A tensão climática da obra fílmica surge quando o filho do dono do drive resolve pedir demissão da fábrica onde trabalhava para seguir seu coração e continuar a tocar o improvável lucrativo negocio do pai. 

O problema é que nem o pai sabia da ida do filho ao seu encontro como tampouco da sua intenção em mar a frente do seu “negócio-paixão”. O conflito entre pai e filho se torna como o fio condutor para que não desgrudássemos nossos olhos da tela. O pai esqueceu-se do filho durante dez anos e agora o rapaz, já homem adulto, vai cobrar este
esquecimento. Mais uma vez Othon Bastos dá-nos um show de interpretação e mostra que é um dos atores mais completos do Brasil, incorporando um pai bom com um coração de criança, porém incapaz de não permitir que seu amor próprio o fizesse visitar seu filho durante os dez últimos anos.

 Além de levantar a bandeira do fim do cinema drive-in no Brasil, o filme nos mostra uma tentativa
de redenção na relação entre pai e filho onde o fio condutor estava na arte do cinema. Sem dúvidas uma perola do cinema nacional onde que, por questões de bilheteria, ou seja, por a maioria não saber distinguir o que é um filme bom de um ruim, ficou no máximo duas semanas em cartaz. Sou otimista e acredito que um  dia o povo brasileiro saberá fazer tal distinção, porém para que isso ocorra é necessário mudanças em nossa educação falida, e isso sabemos que não será de um dia para o outro. Belíssima homenagem ao cinema a céu aberto onde não existe mais por aqui.

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O Abutre, de Dan Gilroy ,com Jake  Gyllenhaal, EUA, 2014. O filme foi tido como a principal injustiça do Oscar no inicio do ano, e com razão. No mínimo o protagonista do suspense psicológico teria que estar entre os melhores atores,
e ainda de quebra colocaria para concorrer como melhor roteiro também, e isso no mínimo, pois estão bem melhores que os indicados nas categorias roteiro e edição de som. Enganos ou injustiças à parte O abutre nos faz, nós jornalistas,
sair do filme pensando em certos valores éticos da profissão; Até que ponto o jornalista pode chegar e não ultrapassar a privacidade alheia? 

Isto está em jogo na trama cheia de violência psicológica, e talvez por esse motivo, tenha um bom roteiro. O protagonista do filme é um desafortunado e infeliz roubador de fios elétricos públicos, ou seja, era nada mais ou menos que um ladrãozinho de araque, porém bem menos perigoso que nossos ladrões profissionais de
Brasília, pois estes quando resolvem roubar não se contentam com pouca coisa como o personagem do filme. Todavia em uma dessas idas de roubos de fios, ele se defronta com um acidente fatal automobilístico, e percebe que tem alguns
jornalistas ( ou abutres? ) filmando a desgraça alheia.

 O cara fica com essa cena do outro filmando um ser morto e quando liga a TV assiste aquela mesma
cena em todos os noticiários. Isto liga uma luz nele: “Opa, se aquele cara consegue fazer aquilo eu também posso, bingo !”. O interessante é como o protagonista se considera um empresário cheio de regras para fazer aquele
ofício “sujo”. Até com seu único e mísero subordinado ( um morador de rua, como era ele ) os diálogos chegavam ao ponto do ridículo tamanho o grau de profissionalismo que o patrão exigia do empregado. 
Entretanto ainda com toda esta formalidade na medida errada o cara consegue alguns furos de reportagens
trashs, e isso lhe dá condições em adquirir novas filmadoras, vendendo as imagens para uma dessas emissoras sensacionalistas que parecem não ter fim em todo lugar. Como não tinha nada a perder o cara “se jogava” nos mais perigosos homicídios da cidade graças a aquisição ilícita de um rádio transmissor da policia que lhe possibilitava saber no mesmo instante dos policias onde estava acontecendo cada ação criminosa em Los Angeles, e com seu carro vermelho supere turbinado sempre chegava antes da polícia , fato este que valorizava ainda mais
na venda tais imagens dantescas de sangue e pescoços cortados ou pernas arrebentadas. O bacana do filme é indagar a questão da falta de privacidade das pessoas no mundo de hoje, onde cada coisa que fazemos corremos o risco de
estarmos sendo vigiados por uma câmera ou por mais um lunático.