Colunistas / Cinema
Diogo Berni

Eles voltam, de Marcelo Lordelo

Filme do pernambucano Marcelo Lordelo aborda tema atualíissimo da geraão que tem tudo e se vê numa situação diferenciada de vida
12/09/2015 às 16:05
A procura, de Atom Egoyan, Canadá, 2014. O filme bem que poderia ter outro título. Encaixaria muito bem como título: A traição ao invés de A procura, porque é exatamente este o sentimento que temos quando os créditos finais aparecem na tela. 

   E o mais assombroso é que o filme concorreu a Palma de Ouro de Cannes em 2014. Cá entre nós: a sessão da tarde passa filme bem mais legal que este. Justamente por esta credencial de Cannes o aluguei e entrei numa cilada. Sabe aqueles filmes que não te surpreendem em momento algum, que
sabemos o que vai acontecer sempre? Pois bem, este é o tipo do filme que começaremos a tratar, se é que tem tratamento. 

   Falta a obra o tom da curiosidade que um filme nos faz ser atraído por ele, de uma história que nos
permita linkar com nossas realidades ou contrariamente nos deixar fora das nossas realidades imperfeitas e nos tornamos seres plenamente completos durante aquelas duas horas dedicadas à obra fílmica escolhida. 

  Todavia nada deste sentimento mágico e espiritual acontece na obra. Quem lê sua sinopse corre o
risco, assim como fiz, de achar que é uma obra intrigante por tratar o tema da pedofilia na internet, pois a essência da obra é basicamente esta: uma garota de nove anos que é raptada na caminhonete do pai enquanto este a deixa no carro e vai comprar um bolo na mercearia. 

  O filme não anima porque não existe mistério: Quem assiste vê que a menina fora raptada e nove anos se passam e a polícia não consegue nenhuma pista, soa tudo como demasiado previsível para as
íris de qualquer um. Sim, ok que na vida real esses pedofilos ficam soltos há mais tempo até, porém no filme nada mais acontece, e um pretenso palma de ouro de Cannes for só isso é demais sofrível aceitar certas avaliações (Como um filme medonho como esse pode sequer receber uma indicação a um prêmio tão importante para o cinema ? ). 

   Fato é que com falta de provas quem acaba sendo o principal suspeito é o próprio pai da garota, este que na pele do ator Ryan Reynolds é o único a se mexer para achar a garota correndo com sua caminhonete durante nove anos o mesmo trajeto do fatídico dia até achar uma pista do paradeiro do cativeiro. 

   A polícia era uma piada com seu grupo supostamente expert em tecnologias ultras avançadas,
enquanto os pedofilos já estavam espalhados em todas as áreas trabalhistas importantes e formavam um clã poderoso e difícil de abater devido a suas criptografias internéticas que faziam impossíveis de serem pegos. 

   Quando acham o cativeiro e pegam a adolescente ou quase adulta mulher, pensamos que desta
vez o filme teria um fim ao menos que não nos entregasse de mãos beijadas, mas pasmem: Quando a adolescente vê o pai e o abraça, temos em seguida um escuro na tela, escuro este que tendencionaria para tomada de outro take no filme, em um outro local como o julgamento do pedofilo e ele sendo enrabado na cadeia, ou o encontro da garota com a mãe semilouca , mas nada disto acontece. 

    Após o abraço do pai os créditos sobem e o fim consegue estragar mais ainda o filme, se é que
isto é possível. Sinceramente nota zero.
                                                        *****
    Eles voltam, de Marcelo Lordello, Brasil, 2011. A cena inicial do filme já marca porque traz um plano de câmera aberto, mostrando a vastidão do local retratado e o quanto este era desabitado, e portanto isolado de tudo e de todos; tratava-se de uma estrada, e em meio às montanhas, a tal estrada parecia
mais silenciosa ainda. 

   Neste amontoado de asfalto coberto pela poeira surge um automóvel, de alto padrão até, porém este era o único carro naquela estrada vazia. A quem assiste a obra fílmica sabe, ou ao menos intuí que algo está acontecendo nele ou seja, no carro em meio a essa estrada cheia de silêncios gritantes, e isto se sucede nem tanto pelo que se vê mas sim pelo que se ouve dentro do automóvel. 

   Logo o carro arranca deixando marcam de pneus na estrada e ficam para trás dois adolescentes irmão: Cris e Peu, deixados na estrada pelos próprios pais, que não aguentam mais as brigas dos irmãos no banco de trás do carro por cuausa de um Iphod. 

   Na real o filme só se inicia após o abandono dos garotos naquela estrada, antes era tudo especulação da imaginação de cada espectador. Pois bem: No meio do nada e longe de tudo ou de um lugar que não
ligava nada a lugar nenhum, o diretor da obra nos joga a grande pergunta do filme que é: E agora o que fazer? Sentar e aguardar o retorno deles ou sair dali em busca de algum meio de voltar para casa? 

  É a partir desta indagação que fica mais claro a intenção do filme, que tem por objetivo não causar sustos no espectador, mas fazê-lo refletir sobre a situação vivida pela garota Cris, pois o seu irmão logo a abandona buscando socorro em um vilarejo mais próximo dali e nunca mais dá as caras , e a doce Cris por sua vez fica na estrada esperando, caso seus pais tenham se arrependido de tê-los deixados por
motivo de uma briguinha dos irmãos adolescentes porquausa de em mero aparelho eletrônico. 

  Ainda abordando aos primeiros minutos do longa-metragem , este apresenta uma força visceral, pela capacidade em retratar o abandono dos irmãos e um misto de descrença inicial com desespero crescente ao tocante que as horas passam, ou seja, com a conclusão de que eles não iriam voltar mesmo, agora os
dois pirralhos teriam que se virar sozinhos. 

   A intenção mais subjetiva e mais inteligente também do diretor pernambucano Marcelo Lordello é justamente ou injustamente fazer com que sua protagonista, Cris, se aventure em mundos até
então desconhecidos, incluindo aí uma porção da famosa diversidade social brasileira. 

   Criada em uma família rica e vivendo em meio ao conforto e diversos aparelhos eletrônicos de última geração, ela precisa encarar o medo e a desconfiança ao encontrar outras pessoas em sua tentativa de volta ao lar, mesmo não sabendo se seus pais ainda a quisessem com eles, talvez tenham surtado,
pensa, mas não fala, nossa protagonista mirim. 

   Este contraste, explorado também em detalhes como a cor da pele e o próprio vestuário que ela veste, é o que há de mais interessante na jornada, também por fugir do lugar comum do preconceito. O diretor Lordello consegue trabalhar o desconhecido com habilidade, mantendo a dúvida para o espectador não apenas sobre o que acontecerá com Cris mas também em relação aos pais dela. 

   Afinal de contas, eles vão voltar ou não? É justamente quando esta pergunta é respondida que o filme
sofre uma queda brusca, já no fim, então não tem muito problema. Por mais que seja compreensível o interesse em mostrar como os eventos influenciaram Cris, a ausência de uma motivação faz com que a personagem vague meio sem rumo nos 25 minutos finais da história.

    Ainda assim, trata-se de um filme interessante pela forma narrativa desenvolvida e também pelo retrato pouco interessado em quase tudo ou tudo de fato de uma geração que tem tudo à mão, mas não demonstra interesse em realizar algo que não favoreça somente a si mesma. 

  Neste aspecto, o filme Eles Voltam acaba sendo uma espécie de cutucagem necessária. Destaque
também para sua protagonista, que conseguiu criar um ritmo próprio, porém lento, para desenvolver a história com a ajuda do diretor experiente. 
A obra fílmica ainda nos instiga a debater o papel dos pais como formadores responsáveis das suas crias. Uma pergunta que fica no ar nitidamente é: Será que uma pretensa alta liberdade, ou ao invés disso, um total protecionismo para com suas crias ; Esses dois extremos citados seriam bons ou ruins para gerar adultos emocionais e socialmente preparados para a vida?

   A obra fílmica deixa claro que tanto um como outro extremo é desnecessário, o ideal mesmo é buscar o
intermédio de uma criação entre a liberdade parcial e o protecionismo comedido. O que não resta dúvida é que Pernambuco ainda continua produzindo os melhores filmes brasileiros. Mais uma perola do estado que tem uma politica para o desenvolvimento do audiovisual bastante interessante, e a Bahia bem que poderia copiá-la.