sexta-feira, 05 de junho de 2020
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

Minha querida dama e a locação imóveis na França

Dois filmes e dois temas bem interessantes
21/08/2015 às 23:31
Minha querida dama, de Israël Horovitz, com Kevin Kline, Maggie Smith, Kristin Scott Thomas, EUA/França, 2015. Imagina você achar que tenha herdado um imóvel e quando chega ao recinto tem pessoas vivendo nele. 

   E Não se tratava de nenhuma família sem teto, mas pessoas que estavam lá por direito. Na França existe um contrato de locação que podemos classifica-lo como no mínimo surreal. Qualquer um pode comprar um imóvel no regime de esperar que seus moradores morram para conseguir ter o direito de ter o imóvel. 

   Dei uma olhadela no Google e de fato este específico tipo de locação é real e não pura ficção como imaginava quando assistia ao filme. 

   Na obra fílmica um homem na faixa dos seus quase sessenta recebe como única herança do seu pai um apartamento em Paris, especificamente no bairro ainda residencial do Marré. Todavia o homem recebe junto com o imóvel suas duas ilustres moradoras: Uma mãe de noventa e dois anos e sua filha, que estava na casa dos sessenta. 

   Como não sabia do atípico acordo locatício estranhou a presença das duas e ainda estranhou mais quando soube que além de , por direito, ter de deixar as duas morando lá, teria que pagar dois mil e
seiscentos euros como aluguel segundo a clausula contratual. 

   O apartamento só poderia ser seu quando a senhora de noventa e dois anos batesse as botas. O
homem viajou a França crente que ficaria bem vendendo o imóvel e agora se encontrava devedor de uma divida feita por seu pai, e sem o mínimo de condições para pagar. 

   A especulação imobiliária tenta comprar o apartamento para colocá-lo abaixo e fazer um estacionamento no local; O homem de imediato gosta do interesse, mas por direito não pode fazer isto. Tenta um acordo com as damas, oferecendo-as um andar para cada, porém a resposta é negativa. Os três, então, são obrigados a dividir o apartamento até que aquela situação seja resolvida. 

  Com a convivência, bastante vinho e verdades sendo colocados à mesa os três percebem que são mais próximos que imaginavam. O filme é lindo por, principalmente pela atuação dos seus personagens, mas o roteiro da trama ajuda também. A obra fílmica fala dos sentimentos humanos de uma forma bastante digna e talvez por isso possamos classificar como um tipo de filme existencial ou denso. Enfim vale a conferida pela baita atuação dos seus três personagens centrais.

                                                          ****
  O Porto (Le Havre) do diretor Aki Kaurismäki, protagonizado por André Wilms, 2012, França/
Alemanha/ Finlândia. Acho no mínimo interessante à angústia gaulesa em demostrar arrependimento pelos seus feitos passados em prol de descobrir e explorar novos lugares, em especial no continente africano. 

   Não observo tanta preocupação assim por parte de ingleses e portugueses que o mesmo fizeram fatiando em três partes desiguais o continente africano que, segundo a ciência, teve o primeiro homem do planeta.

   Ao menos no cinema os diretores franceses não se cansam de demostrarem o quanto foram sacanas, e de alguma maneira, tentam amenizar isto com filmes que tem como tema a imigração. Entretanto esta obra fílmica é diferente, pois além de abordar a tal sacanagem europeia para com os africanos, o filme destila poesia e simplicidade e nas linhas subsequentes espero que captem tais virtuosidades.
É o seguinte: A produção investe em locações de um bairro periférico da Normandia, região litorânea e distante da capital francesa. Tudo muito simples, porém um “simples bonito”, digno. 

   As canções musicais são um caso à parte e nos remete há tempos outros do passado onde se podia comprar fiado e confiar nos vizinhos. Como protagonista temos um engraxate na casa dos seus setenta, porém nem parece por sua vivacidade. 

   O senhor trabalhador de doze horas diárias, e preferencialmente noturnas, vive com sua esposa e uma cadela chamada por Laika em uma simpática e simples casa cheia de cores e moveis que, de tão antigos, se tornam estilosos. 

   Pois bem: do inicio pro meio da fita temos em cena um contêiner com destino à Londres que fica em Havre, cidade da qual a história se desenrola, na extrema Normandia. Do contêiner saí ao menos trinta cabeças de africanos fugidos das suas terras pela fome e falta de trabalho. Um menino aproveita a abertura do recinto e se manda, correndo o risco de levar uma bala pelas costas, fato este não acontecido devido à famosa “lei” da emigração que é: “se você for esperto podemos fingir que não te vemos”. 
 Particularmente linkoeste pensamento abordado pelo filme e o fato do garoto conseguir fugir do contêiner, por esta “dívida” que os franceses acham que tem ( e tem mesmo ) com os povos
africanos. Com o garoto agora sendo procurado pela polícia, este é achado pelo senhor engraxate de poucas palavras, exatamente no momento que sua esposa vai internar-se no hospital devido a um câncer. Surge então um misto de amizade com o sentimento de ser um fora da lei do engraxate, que na real era um fracassado escritor, com o menino que queria juntar-se a sua mãe em Londres.

   A missão do nosso carismático engraxate agora é mandar o garoto à Londres. O filme é lindo
por sua simplicidade antes de qualquer argumento que poderia fazer de interpretação ou direção cinematográfica, e com sorte pode ser encontrado até no Net Flix.