Colunistas / Cinema
Diogo Berni

UMA NOVA AMIGA aborda tema dos gêneros

Uma nova amiga é o filme mais genial que assisti em 2015
15/08/2015 às 10:37
 Uma nova amiga- Une nouvelle ami, dirigido por François Ozon( autor dos filmes: Jovem e Bela – 2013, Dentro de casa - 2012, Potiche - A esposa troféu - 2010 ), neste com Romais Duris e Anais Demoustier, França, 2014.

    Sem sombra de dúvida este foi o filme mais louco e genial que assisti esse ano. O filme aborda à questão que anda na moda ultimamente: A dos gêneros. A obra fílmica pode ser classificada como genial porque além de mexer e remexer com os gêneros
masculino e feminino, ainda nos “confunde” com situações atípicas do masculino se misturar com o feminino e vice-versa. Não estou me referindo à trasgêneros, o que seria o mais obvio de se pensar. 

   O diretor tem a felicidade em dar um passo adiante na questão de ser ou não um transgênero, tipo o cartunista Laerte. O filme geniosamente vai mais além acerca do tema nos indagando e colocando para pensar-nos se realmente temos moral para classificar aquele sujeito ou sujeita por ter aparências difusas socialmente aceitas. Mas a uma resenha do filme e quem sabe assim conseguirei, ou ao menos tentarei, explicar o que entendi sobre o filme. 

   Para inicio de filme ou conversa o filme começa com um funeral. A falecida é uma mulher que deixa pais, marido, uma pequena bebê e uma amiga de infância que, em pleno funeral, pega o microfone do padre e promete que cuidará do marido da sua amiga e da sua bebê, mesmo esta sendo casada. 

   Dissera isto porque tinha prometido a sua amiga de infância que cumpriria tal promessa nos seus últimos dias de vida. Semanas se passam até que a amiga resolve visitar os órfãos da sua melhor amiga, e eis que o inesperado acontece. A mulher pega o ex-marido da sua amiga dando mamadeira a sua filhinha totalmente vestido de mulher. 

   O susto fora grande pra ela, porém é importante salientar que a amizade das duas amigas na infância e adolescência era bastante próxima, mas segue-se nosso raciocínio e vemos onde isso irá chegar. Pois bem, com o ex-marido pego no flagra, este resolve abrir o jogo e dizer que sempre tivera uma baita vontade de se vestir de mulher e ocasionalmente isto acontecia, mas com o casamento com a falecida a vontade tinha ido embora e quando ela partiu a tal vontade de se travestir voltara de uma forma intensa
que jamais tinha acontecido. 

   Neste ponto ou cena é que entra a dubiedade do filme. Alguns críticos como o grande Ignácio Araújo acha que o filme brinca com a inteligência do espectador, mas já Edwald Filho acha que o filme é genial por instigar e não dar respostas redondas a ninguém. Particularmente fico com o Edwald.

   Opiniões a parte a obra fílmica continua nesta pegada de não saber se o ex-marido consegue perceber que gosta de homem ou se é uma pura figuração para o bebê lembrar-se da mãe e parar de chorar. Neste dilema o ex-marido e agora viúvo recebe o apoio total e irrestrito da melhor amiga da sua ex-mulher com idas a shoppings para comprar roupas femininas ao cara e baladas de público GLS. O mais interessante é que neste processo tanto a amiga como o cara se conhecem à fundo  suas identidades, e fatos surreais
e inteligentíssimos se sucedem, graças ao poder criativo do diretor. 

   O homem que pensava que gostava de homem, depois de um coma, percebe na real que gosta de mulher porque se sente uma mulher, o tornando assim uma mulher lésbica. E a mulher, que tinha uma profunda amizade descobre sua lesbiandade com o convívio comb aquele “homem-mulher”. 

   Sei que é confuso, mas garanto que o filme é estrondoso de bom, e até complicado de perceber todas essas nuances de gêneros que o diretor imprime em seus personagens. Fato é que temos um filme extremamente articulado com o tema dos gêneros no contexto atual, e o mais importante: Uma super sacada à ideia de deixar solta a questão de quem é mulher ou homem, os
dois, ou até nenhum deles. O filme é simplesmente confuso, mas genial também. Abra a cabeça e pegue a sessão mais próxima sem pestanejar, pois estará vendo uma coisa realmente nova e boa feito pelo cinema dos últimos anos pra cá.
                                                                             ****
    
    Que mal eu fiz a Deus? ,dirigido e co-roteirizado por Philippe de Chauveron, França, 2015. A comédia tem o poder de abordar assuntos sérios de uma maneira sem que se perceba que estão colocando o dedo na ferida. A ferida em questão é a dos valores católicos – burgueses da classe média alta francesa. 

   Abordar religião évsempre um risco enorme, então entra o gênero comediano para tentar disfarçar as pontadas acidas que diretores imprimem quando querem falar delas, as religiões. 

   Nesta comédia temos um casal com quatro filhas onde as três mais velhas eram casadas respectivamente com um israelense judeu, um argelino muçulmano e um chinês budista. As pontadas acidas da obra fílmica iam na desconexão e incompatibilidade dos três sujeitos se entenderem e se darem por entendidos aos seus sogros: Um casal francês católico com preconceitos arreigados e velados. 

    As risadas que podemos dar como público vem exatamente desse trato do casal de meia idade para com seus genros excêntrico; Mas não somente por isso. Nítido fica que a diferença vista pelos sogros serve como combustível para exalar seus próprios preconceitos, que nesta situação de terem três genros atípicos, poderiam deixar de serem velados e sim escancarados. 
Ainda assim de alguma maneira judeus, orientais e muçulmanos poderiam, com sarcasmos, serem engolidos goela abaixo, mas quando a caçula do casal burguês francês informa que vai casar-se com um negro da Costa do Marfim, aí a famosa complacência com outras raças e religiões vai-se embora de uma só vez. A Costa do Marfim, assim como inúmeros outros países africanos, foi colonizada e roubada durante séculos pelos franceses, assim como os Portugueses e ingleses também fizeram com outros
países fatiando o continente africano em três camadas, e de certa maneira esta conta ainda não foi paga. 

   Opinião politica à parte, o filme se desenrola agora com a filha caçula e seu namorado negro. E para piorar a história e gerar ainda
mais risos, a família do marfinense era poderosa e contra o casamento do seu filho com uma branca. A produção foi um sucesso na França, levando 5 milhões de espectadores aos cinemas. Feito comparável aos sucessos "Intocáveis" (2011) e "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain" (2001), porém acho que no Brasil à plateia será bem menor por obviamente fatores culturais de identidade.