Colunistas / Cinema
Diogo Berni

Enquanto o sangue coloria a noite eu olhava as estrelas

Três sugestões de filmes para os leitores
28/06/2015 às 13:39
   
  The Blind, dirigido e co-roteirizado por Nathan Silver, EUA, 2009. A vida nunca foi um mar de rosas; Refiro-me à vida real e em especial ao cotidiano. Todavia a arte tem como função transformar a dureza da vida em alguma coisa mais agradável, fazendo da tragédia algo que nos ensine e que toquemos as nossas vidas de uma maneira melhor, mais leve, transformando aquilo ou aquela situação que está ruim em sustentável percebendo aquela situação com outros olhos e tentando achar então outras formas de enxergar os problemas da vida real. 

   Trocando em miúdos é concretamente isto que o diretor americano quis nos transpor em The Blind, ou seja, apresentar a vida não como um mar de rosas, mas sim como uma intensa e bruta realidade  onde a necessidade de uns em amarem ou se doarem ao extremo, se barra em contrapartida nas pessoas que precisam ser amadas. 

   Para estes papeis temos uma garota de vinte anos que tem um coração enorme e uma missão em entregar-se a cuidar do outro, este que no caso seria seu namorado: um arquiteto rabugento que não gosta de falar ao telefone nem com a própria mãe e trata sua namorada de forma deveras ríspida devido a sua natureza de precisar ser amado, porém sem tato algum para entregar-se e amar alguém. 

   O filme é intenso, pois monstra estes dois lados ambíguos: O de amar e o do ser amado, de forma visceral e sem direito a algum tipo de fôlego que pudéssemos pegar para aliviar aquela tensão entre os protagonistas que quase chegara à loucura por suas incompatibilidades. Sem dúvidas alguma este foi o filme mais extremo que conferi  até agora no quarto festival internacional de Curitiba por conseguir abordar de maneira exímia latente o convívio entre pessoas e características humanas. Até quarta feira espero conferir outros com a mesma pegada, excelente pedida. 

                                                                *****
   Soft in the head ( cabeça oca ), também dirigido por Nathan Silver, 2011, EUA. Até parece que as pessoas podem escolher quem elas querem, na real acontece o inverso disso; Para termos um casal, ou seja,  trocando em miúdos o que chama atenção de uma pessoa são as características incomuns a sua personalidade. Não à toa vemos tantas desilusões amorosas onde um lado só está afim mesmo de alguma coisa. Pois bem esta é mais ou menos a sinopse do segundo filme ( o primeiro foi o The Blind ) assistido do diretor Nathan Silver no festival de Curitiba, e com direito a um debate com próprio norte-americano após a sessão. 

   Quando o indaguei do porque ele teria tanta tara em falar de gente, e em se tratando de pessoas porque gostava de levá-las sempre ao seu extremo. 

   O diretor respondeu-me gentilmente que o tema “pessoas e seus relacionamentos” eram retratados em seus filmes porque este tem uma profunda admiração pela psique humana, afirmando que se não fosse cineasta seria um psicólogo. Ainda completando sua resposta a minha pergunta o diretor respondeu-me que mexiam com personagens viscerais e intensos por achar que a personalidade humana era um traço genético e por isso imexível pela convivência social ou por ordens politicas, trocando em miúdos o diretor afirmara com todas as letras que por mais que nos esforcemos em mudar os nossos genes de personalidade por algum motivo social, estes sempre estarão dando “às cartas” primeiro, pois eles, os genes, são os que comandam as nossas decisões no final das contas. 

   O enredo do filme é basicamente isto escrito linhas acima, entretanto o aprofundarei um pouco mais; É o seguinte: O filme já começa intenso com um briga entre um casal onde a menina chora pedindo perdão por alguma merda que fez a seu namorado. Este que por sua vez  batia-a, xingava-a, escuraçava-a e por fim e conseguinte não aceitava aos pedidos de desculpas chorosas da agora ex-namorada. Com o chute na bunda do namorado a garota fica “sem eira nem beira”, pois agora não tinha lugar nem para dormir. 

   Diante disso ela acaba por se afogar no álcool e sem pra onde ir conhece um padre que lhe dá abrigo. O problema é que o abrigo só tinha loucos e tarados, mas como ela era isto também ( louca ), não teve problema algum para se adaptar chegando todos os dias bêbedas da rua para dormir lá. Em sua última esperança para fugir das ruas a garota pede abrigo a sua melhor amiga. Inesperadamente, por ver o estado lastimável da sua amiga, a amiga de origem judia aceita deixar que ela fique por uns dias em seu apartamento. 

  A virada ou catarse do filme se sucede exatamente no momento em que a nossa protagonista conhece o inocente e punheteiro nerd irmão da sua amiga que lhe dera abrigo. O nerd quando a encontra de porre no apartamento da sua irmã se apaixona pela doidona; Esta que embriagada tenta ( e consegue) seduzir o ingênuo cara. Nosso nerd era de família tradicional judia e seus pais exigiam que ele se relacionasse com garotas também judias, e como sabemos nossa protagonista a qual o nerd se apaixonara de judia não tinha nada, talvez somente tenha judiado dela um pouco demais e só, a garota era ateia. 

   Fato é que o nerd se apaixona loucamente pela ateia, mesmo ignorando os conselhos da sua irmã, alertando-o de que sua amiga jamais gostaria de um sujeito judeu certinho como ele. Todavia as cenas mais viscerais se sucedem na segunda locação do longa, esta que era o abrigo que a protagonista, depois de relações cortadas com a amiga devido a sua personalidade forte de ficar embriagada todos os dia e não arrumar trabalho, voltara ao local para ter um teto para passar a noite. Como todos moradores do abrigo estavam mais ou menos na mesma situação de serem abandonados pela sociedade, existia uma relação de irmandade entre ambos e a garota não diferente desse sentimento também se entregara aquela sua nova família. O final do filme é atípico porque permite várias interpretações para à cena final. 

   No final da sessão o diretor disse que fez isso de propósito para que cada pessoa tirasse suas próprias conclusões e desta forma concluísse o seu final ideal, embora a palavra “ideal” não caiba nem de longe para o final do filme ou tampouco para ele como um todo. Como havia mencionado no início da crítica; Trata-se de um filme intenso e visceral em mostrar as relações humanas ou a falta delas devido à falta de comunicação entre as pessoas, entretanto não deixa de ser uma bela de uma bomba genial deste diretor que consegue sair dos clichês dos filmes comuns que estamos carecas de ver nos circuitos comerciais e nos dar algo que mexa conosco. 
                                                                  *****
  Enquanto o sangue coloria a noite eu olhava as estrelas, bem dirigido e roteirizado por Felipe Arrojo Poroger, 2015, Brasil. As falhas humanas são os temas principais do filme e o seu começo já estanca uma situação no mínimo constrangedora: Um bullyng juvenil em um colégio. Dois adolescentes agridem física e moralmente um outro da mesma escola; Este outro um típico “sofredor de bullyng”: Cabelos longos, magro, tímido, sem amigos, calado e donzelo. As investidas sobre o jovem era justamente sobre esta sua última característica, ou seja, tirar o seu cabaço. Por isso o apelidaram como "vagina" por nunca ter tocado em uma  Com o passar do bullyng cada dia mais agressivo deixando o cabeludo rapaz repleto de marcar no rosto, os bulinadores resolvem dar o golpe final no bulinado, chamando a garota que tirara todos os cabaços da escola para filmarem a primeira vez do "vagina". Ele, o nosso pequeno "vagina", tem uma reação atípica na hora que a garota promiscua se aproxima. 

   Diante da sua atitude temos uma vaga percepção do porque daquilo acontecera. Paralelo ao inferno de sua vida no colégio o filme flerta com cenas do Buceta em sua vida familiar com seu outro irmão e seu pai, este último um ex-capitão da polícia civil de São Paulo e que agora se encontra em estado semivegetativo vivendo em uma cadeira de rodas, porém não perdendo o seu orgulho de vestir sua farda cheia de estrelas de condecoramento após um banho dado por uma enfermeira. O final do excelente filme nacional choca em contraponto a algumas cenas cômicas do filme, excelente sacada e pedida para percebermos que uma atitude puxa a outra, ou seja, nada nesta vida é por acaso, embora às vezes aparentemente pareça.