Colunistas / Cinema
Diogo Berni

Ela Volta na Quinta, nacional e autoral inovador

Kommunisten , dirigido e roteirizado pelo gaulês Jean-Marie Straub, França/Suiça, 2014. Festival de cinema é uma roleta russa;
13/06/2015 às 11:36
Ela volta na quinta, de André Novais, Brasil, 2014. Diretamente do quarto festival internacional de cinema de Curitiba este em que vos escreve assistiu há um filme nacional atípico em que ideias de roteiro valem bem mais que orçamentos gigantescos de produção ; 

   E o seguinte, esqueça os filmes que você assistiu ou ainda insisti em ver nestes complexos multiplex dos Shopping Centers, ou ainda em cinemas ditos como de “arte”, pois o filme do qual resenharemos hoje foge de todos estes padrões. Afirmaria que o filme produz uma nova faceta fílmica misturando ficção com realidade, e por vezes não sabemos quando o filme é um documentário real ou ficcional. 

   Na verdade o filme tem todas estas formas embutidas; É um mix de gêneros que traz uma nova cara aos filmes autorais nacionais, e estes não devem e também nem podem serem rotulados por terem neles tantos gêneros e subgêneros fílmicos dentro de uma única produção que não podemos nomear nem como drama, documentário ou tampouco comédia; Na real é tudo isso e mais um pouco. 

   O filme foi o vencedor de melhor longa metragem nos festivais de Salvador, Tiradentes e Belo Horizonte do ano passado pelo Júri especializado, e este ano é cotado como um dos favoritos aqui em Curitiba. 

   O enredo do filme é tão exótico com seus personagens que talvez por esta excentricidade esta seja de fato a primeira cartada de gênio do seu diretor. Ao invés de contratar atores profissionais o diretor mineiro investe em pessoas comuns sem nenhuma experiência na sétima ou em qualquer outra arte. 

   A segunda cartada “exitíva” do filme e do diretor é não apenas chamar pessoas sem experiências, mas intimar que seus próprios parentes mais próximos ( mãe, pai e irmão ) participem , deem corpo a obra e a protagonizem. Quando me referi a um novo formato de fazer cinema é porque de fato o diretor não se preocupa em diálogos redondos. 

   O filme tem a toada do imprevisto: Das caras e bocas que só pessoas não treinadas a interpretar determinados papéis ou personagens conseguiriam fazer com a naturalidade em que a cena ou o roteiro espera. 

   Talvez seja esta a cartada certeira do filme de cunho totalmente autoral, e com pouquíssimos recursos, ter ganho tantos festivais importantes de cinema Brasil afora. No tocante ao enredo o diretor , como já mencionamos, deixa sua mãe, pai, irmão e ele próprio bem à vontade para interpretar as cenas de um roteiro bem colaborativo com as expressões naturais de seus atores; E isto: Podem acreditar, será a tendência a ser seguida no cinema nacional autoral.

    Esperem mais cinco anos e observem quantos filmes copiará este gênero do inusitado, da especulação do diálogo imprevisto e natural entre o ator e a cena. 

     Apesar de toda a liberdade aos atores-familiares, obviamente existia um resquício de roteiro e cenas a serem seguidas em determinada ordem, porque se não fosse assim não seria uma obra fílmica, mas sim uma tentativa disto. De fato existia uma sequencia de inicio, meio e fim desta obra inusitada e por isso fantástica. Tínhamos no roteiro uma crise conjugal de um casal suburbano de Belo Horizonte de idade avançada, no caso a mãe e o pai do diretor. 

   Quando os dois filhos do casal preveem que o casamento dos  pais está por um fio eles tentam entender o que se passa para então poderem agir e ajudar a fazer a melhor escolha para ambos, ou seja, separar de vez ou reconciliar-se. O êxito do filme não está propriamente na história, embora esta seja também interessante, mas nas múltiplas formas de como é contada, e por isso o longa: Ela Volta na quinta abre um inédito precedente para uma nova forma de fazer cinema no Brasil, onde o sentimento que a obra transmite é mais importante do que qualquer regra cinematográfica Agora o grande dilema é o mercado assimilar esta nova forma de fazer cinema: O autoral e com poucas regras, mas de um resultado que chega a nos arrepiar ao final da sessão. 

   O filme é fantástico, pois consegue ser genial e simples ao mesmo tempo. Importante ressaltar a ótima infraestrutura do festival de Curitiba, que em apenas sua quarta edição dá um show de organização e seleção de filmes interessantes, parabéns a direção. 
                                                                                ***
   Uma das principais funções do cinema é a social. Ele é um instrumento para a melhoria de vida de milhares de habitantes alertando seus governantes ou até mesmo a ONU. Pois bem o filme que tem essa peculiaridade é oriundo das Filipinas, com produção de 2014 , direção e fotografia do cineasta independente filipino Lav Diaz chama-se Storm Children, Book 1 .

    O documentário de praticamente nenhuma fala e com duração de duas horas e vinte minutos disseca de forma poética a maior tempestade de todos os tempos que um país já sofreu exterminando metade da sua população. O evento aconteceu na própria Filipinas no ano passado, mas como o pais não é nem de longe nenhuma potencia econômica muitos, inclusive eu, não sabia do trágico e de certa maneira apocalíptica catástrofe. 

   São duas horas e pouco de cenas de um país totalmente destruído pelas tempestades e tufões. Na real só existe lama embaixo de mais lama, e os que conseguiram sobreviver, cavando de forma frenética e desesperada os morros lamacentos afim de encontrar algum pertence ou corpo de parente. A obra fílmica tem a nítida pretensão de dessecamento das nossas íris diante daquele caos estabelecido pela natureza e esquecido pelo homem, e o documentário do diretor filipino tem a nobre e corajosa função de gritar para que alguém ouça que as Filipinas fazem parte do planeta Terra, e diante disso ser olhado como membro dele. 
                                                                                       ****
   Kommunisten , dirigido e roteirizado pelo gaulês Jean-Marie Straub, França/Suiça, 2014. Festival de cinema é uma roleta russa; São vários gêneros de obras fílmicas. Tem filmes mais antigos, mais atuais e os chamados mais contemplativos ou experimentais, onde nestes últimos citados questões filosóficas são os centros motivadores das obras. 
 No filme Kommunisten são setenta minutos de monólogos, ora em língua italiana ora em alemã, onde meia dúzia de personagens lê textos e manuscritos cujo principal tema é as ações que os homens fazem com os outros da sua espécie em troca de poder, status, dinheiro e território. 

   Por ser um tipo de filme desabafo falado em alemão e italiano, os personagens recorreram a frases e ações dos seus principais heróis ou algozes para mostrar de que como o homem pode exercer poder sem limites em relação aos seus outros. 

  Deste modo Hitler e Mussolini foram os principais centros de ataques das falas dos personagens no que tange a falta de liberdade que o homem atual chegou hoje; Enfim trata-se de um filme acima de tudo filosófico com inúmeras cenas mostrando a natureza ou um grupo de pessoas sem aparentemente fazerem nada durante minutos, mas pela questão que aborda a falta de liberdade das pessoas no momento atual, acaba se tornando interessante embora, verdade, às vezes experimental demasiado ao meu gosto.