Colunistas / Cinema
Diogo Berni

Mapa para as estrelas: o lado B das celebridades

O premiado diretor Cronenberg da sua zona de conforto e pela primeira vez se arrisca a produzir um filme que conta os lados obscuros, e pouco ou nada conhecidos das estrelas do cinema dos EUA
16/05/2015 às 10:30
Mapa para as estrelas, dirigido pelo sempre excelente, e também excêntrico David Cronenberg, em uma mista produção de quatro nacionalidades: Canadá, EUA, França e Alemanha, 2015.

   O premiado diretor Cronenberg da sua zona de conforto e pela primeira vez se arrisca a produzir um filme que conta os lados obscuros, e pouco ou nada conhecidos das estrelas do cinema estadunidense, mais conhecidas pelo nome de celebridades. 

   A impressão que dá é que Cronenberg escolhe a dedos os seus cinco principais atores da trama para
interpretar personagens complexos e excêntricos. Temos um tipo de guru espiritual e diretor de cinema, interpretado pelo tarimbado John Cusack. Ao seu lado tem-se a sua esposa ( de atuação e importância no roteiro bem menos importante): Uma produtora de cinema de natureza frágil e dependente  emocionalmente do marido. 

   Para completar os cincos personagens centrais da trama temos ainda uma espécie de, alias espécie não, uma mega estrela Teen: Um garoto de treze anos de idade e cheio de marra, por sinal. O que realmente chama atenção na natureza deste personagem teen é o modo descartável como o
guri vê o mundo e as pessoas; 

   Para ele tudo é uma porcaria, inclusive e principalmente a indústria cinematográfica do seu país ( ele, inclusive, ajuda a criar esta “porcaria”), de modo que o ator mirim antes mesmo da puberdade e
por culpa do estrelato promíscuo e também de seu passado familiar pra lá de aterrorizador ( este segredo familiar é o ponto chave da trama, e que no fim da sessão faz com que digamos valeu esperar o desfecho do filme), o faz, antes mesmo de completar seus “importantes” onze anos de idade em um dependente químico, com direito a várias internações. 

   Ainda temos a personagem enigmática da trama e também podemos considerá-la como a protagonista. Uma garota que logo quando começa o filme ela aparece com parte do rosto queimado ou transfigurado.
Cicatriz esta que se torna como um elemento chave para toda a trama ( Não vou contar este segredo da sua queimadura , pois estaria contando sem querer o filme todo, só posso adiantar que trata-se de dívidas emocionais familiares ligadas ao nosso jovem teen-celebridade). 

   Todavia tal protagonista com seus recentes dezoito anos completados, e por isso já uma cidadã de maior idade, aparece no inicio do filme chegando em Los Angeles procurando uma limusine para
alugar, cujo motorista era um ator e roteirista “invisível” para os olhos da indústria de Hollywood , interpretado pelo eterno vampirinho da saga Crepúsculo Robert Pattinson. 

   Quase ia me esquecendo em citar o último dos cinco personagens centrais da trama: Uma atriz em pleno declínio de carreira que fazia de tudo e mais um pouco para voltar ao estrelato, e de certa forma, honrar o nome de sua mãe, esta sim que fora uma grande atriz em seu tempo, diferente dos valores de estrelato da sua filha neurótica. 

   A bem grosso modo poderíamos comparar mãe e filha em matéria de atuação com a mãe sendo a Fernanda Montenegro e sua filha a Fernanda Torres, ou seja, a mãe como sendo a melhor atriz do Brasil, e a filha por sua vez, apenas como um tipo de projeto de atriz de comédia que não dera muito êxito ( tanto que ela se envereda na literatura agora; antes tarde do que nunca ). 

   Entretanto a catarse desta personagem da obra fílmica ( a filha ou o projeto de atriz) em especial acontece quando ela não consegue fazer um remix do filme de mais sucesso da mãe falecida. A
consequência deste trauma é que a atriz, interpretada pela incrivelmente enxuta cinquentona  Julianne Moore, se perde no mundo do “faço tudo a qualquer preço; Me acabo, me drogo, me prostituo em prol
do estrelato”, pois para ela nada mais tinha valor, somente o sucesso, um tipo de doença pela fama que estamos carecas de ver com tantas pessoas que correm atrás disso em toda parte do mundo.

   Cronenberg quis mostrar exatamente isso: A fama pela fama, onde vale tudo pera chegar nela. Como trata-se de uma obra fílmica de um diretor do gabarito como é o do David Cronenberg a obra não se foca somente a questão da fama pura e simplesmente. 
O diretor tem a sensibilidade (ou seria a pura genialidade?) de mostrar de maneira sutil, porém eficaz, como as estrelas de Hollywood se comportam e se mostram para resolver as suas pendengas existenciais, ou seja, com sutileza o filme nos permite adentrarmos neste mundo para pouquíssimos seres, que são os das estrelas de cinema, e conhecendo esse seleto universo podemos comparar o mundo deles com os nossos com o único intuito e objetivo de melhorar o nosso medíocre, porem real, mundo que vivemos. 

   Um filme do David Cronenberg sempre terá elementos a serem analisados e estudados, e
este resenhado então, que foge de todos os padrões da sua vasta cinematografia tem que ser obrigatoriamente conferido aos que se intitulam como amantes da sétima arte, então aproveitem enquanto o filme ainda está em cartaz nas melhores salas, pois vale o ingresso.