sexta-feira, 05 de junho de 2020
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

3 Corações, ser feliz e ferir as pessoas

IDois filmes interessantes para seu final de semana
08/05/2015 às 10:40
3 corações ( 3 Coers ) , dirigido por Benoît Jaquot, França, 2015. “ O maior desejo humano sempre foi e será o sexual”. Não sei quem fez esta afirmação, mas concordo plenamente com ela.

   Esta frase consegue explicitar também a natureza do protagonista desta obra fílmica. Trata-se de um
funcionário publico da área de impostos. Este que por sua vez começa no filme perdido em uma cidadezinha próxima a Paris por ter perdido a hora do trem. 

    O jeito então é esperar amanhecer para pegar a primeira viagem de trem rumo a capital, entretanto, como sabemos, a noite é longa, e para pessoas ansiosas como é o caso do nosso protagonista, a noite pode se transformar em um tremendo pesadelo de olhos bem abertos. 

   Todavia, e por sorte, esta não fora a noite do tal funcionário publico. Logo quando este perde o trem já acha uma presa para fazer companhia, meio que perdida também dentro da estação. Como quem não quer nada pergunta-lhe se tal senhorita conhece algum hotel de modo a passar a noite.

   Gentilmente, e até alegre pela pergunta, a senhorita vai caminhando com seu novo amigo nas ruas escuras e frias daquela cidadela interiorana francesa. Papo vai e vêm, cigarros idem, até que amanhece o dia se conhecendo e marcam um encontro em Paris alguns dias depois. 

   A mulher, mesmo casada, vai a Paris encontrá-lo, mas não consegue vê-lo, pois no exato momento que o funcionário público pega o carro para o encontro, este tem um infarto fulminante devido a sua
ansiedade. 

   Pois bem, frustrada a mulher pega o marido e vai morar nos Estados Unidos. O protagonista toca a barca da sua vida também em meio aquele trabalho burocrático que tanto prejudica sua saúde, mas o pior de tudo é que ele gosta do trabalho por lhe dar autoridade perante as outras pessoas, porem também cobra o seu preço atacando seu coração. 

   O filme fica meio monótono no meio até que nosso protagonista conhece , sem saber, a irmã daquela mulher que ele deu o cano no encontro. O problema seria fácil de ser resolvido, primeiro: Se ele
soubesse que estava engatando um namoro com a irmã de uma pretendente; E segundo: Esta tal pretendente ainda mexera bastante com o galanteador. 

   Então quando ele percebe que a irmã da sua futura esposa era quem era, os ataques de ansiedade voltam a tona. Os dias para ele são intermináveis ate a data do seu casamento, quando a outra voltaria dos Estados Unidos para a festa. E seus ataques de ansiedade não eram a toa , pois no fundo ele sabia que a chama ainda estava acessa pela irmã da sua esposa e tudo podia acontecer por causa disso.

    Por troca de olhares nos dias posteriores ao casório nosso exemplar funcionário público  percebe que mexe com aquela mulher de poucas palavras que o acompanhou naquela noite no inicio do filme. O
grande problema agora eram os dois se declararem os seus respectivos esposos, já que a pegação já era inevitável, seja esta na rua, chuva ou numa casinha de Sapê. 

   O dilema do filme no final é: Ser feliz e ferir as pessoas mais amadas ou ser infeliz para não feri-las? Pessoas são sempre imprevisíveis, assim como é o nosso destino; Bela pedida para um cine de arte, podem ir sem medo.
                                                                     *****

   Livre, com direção de Jean- Marc Vallée ( Clube de compras Dallas), EUA, 2015. O filme biográfico tem as credenciais dos festivais de Toronto e Telluride, ambos ano passado, além do roteiro de Nick Hornby. 

   Baseado e inspirado no best-seller homônimo de Cheryl Strayed, a obra fílmica encaixa com as principais personagens tão bem que o filme concorreu ao Oscar de melhor atriz, interpretada por Reese Witherspoon, e sua mãe na trama como melhor atriz coadjuvante por Gaby Hoffmann, porém ambas não levaram a estatueta, mas mesmo assim vamos ao filme que vale a pena. 

   Pois bem: Após a morte de sua mãe com apenas quarenta e cinco anos por um câncer a personagem central do filme se desmorona emocionalmente levando junto ao seu precipício particular o seu
casamento após inúmeras traições por parte da moça, à primeira vista, sem sentido algum. 

   Literalmente “dava” para o primeiro que aparecesse e nem precisa pedir, pois ela pedia antes. Entretanto a “segunda vista” já percebemos que aquele amor ou carência insana que aquela jovem de vinte e dois anos sentia; Além do prazer sexual, obvio, seus parceiros consumiam e partilhava com ela heroína, droga da qual a moça ficara dependente durante longos quatro anos. 

   A fim de dar um basta em sua dependência e arrumar sua vida a protagonista decide então percorrer
na paleta, ou seja, a pé 1.800 km em uma trilha que ligava a costa oeste dos Estados Unidos com o Canadá. 

   Durante três meses as dificuldades foram inúmeras que nossa protagonista enfrentou para fazer o caminho inteiro. Vontade de desistir vinha a todo instante juntamente com a abstinência da droga. Todavia a moça é tinhosa e se supera, e mesmo com o frio, as cobras, tentativas de estupro, nevascas, chuvas torrenciais, unhas arrancadas na “torra” e outras cositas mais ela consegue enfim chegar ao final da trilha após 93 dias, sendo mais especifico. 
 E o tal chegar ao final da trilha de fato representara muito a ela. Nestes 93 dias caminhando ela teve tempo de repensar o que estava fazendo com si própria. 

   Apesar de o filme ter alguns buracos medonhos em seu roteiro, como por exemplo, insistir em insights do passado da protagonista em momentos inadequados ao ponto de ficarmos perdidos se o filme estava na história do passado ou do presente da moça, todavia a obra fílmica acaba por se “salvar” justamente
pela atuação da sua protagonista e o belo cenário em sua longa paletada. 

   No mais um filme interessante pelo tema que é libertar-se das tais algemas invisíveis que a sociedade nos impõe e correr “mato adentro” em prol de um conhecimento interno mais profundo, boa pedida.