quinta-feira, 04 de junho de 2020
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

Bekas e o Sal da Terra para seu feriadão

Bekas e o Sal da Terra para seu feriadão, por DIOGO BERNI Bekas – Para o Alto e Avante, dirigido por Karzan Kader, com Com Sarwar Fazil, Zamand Taha e
Suliman Karim Mohamad, Iraque, 2012.
01/05/2015 às 19:54
   O sal da Terra, dirigido pelo setuagenário Wim Wenders, França, 2014. Este documentário biográfico me fez bem e mal ao mesmo tempo; Fez-me sentir bem porque trata-se de uma baita obra fílmica com O maiúsculo ; E me fez mal também por sua visceralidade nos relatos contados. 

   Trata-se da história de carreira e vida do fotógrafo mineiro Sebastião Salgado, reconhecido
internacionalmente pelo seu ofício. A obra reúne as principais aventuras do fotografo 
em algumas partes do mundo; Como um dos codiretores do filme era seu filho (Juliano 
Ribeiro Salgado), o documentário mostra também o lado do pai ausente no lugar 
do profissional aventureiro que era Saldanha, afinal não se pode fazer uma 
omelete sem a quebra de alguns ovos. 

   Todavia o mais impactante do filme não são 
as fotos que vemos em uma tela grande de cinema, mas sim o porquê ou o por qual 
motivo daquelas fotos existiriam. Neste aspecto percebemos que tudo tem um
motivo e uma consequência também. 

   Quando menciono que o mais impactante não são 
propriamente as fotos, mas a situação pela qual o ser humano chegou naquele 
estado, aí este é o ponto de partida para entender o documentário, e de certa forma, 
ter vergonha da nossa espécie: A vulga dita como humana.
 
    Saldanha tem este dom 
para se aventurar e clicar no ser humano em suas situações mais adversas, porém 
suas fotos nos fazem refletir no estado das pessoas clicadas e quase que invariavelmente chegamos à infeliz conclusão de que genocídios atrás de genocídios ocorreram, e ainda ocorrem no mundo, por causa do poder de poucos para matar muitos, mas coloca muitos nisso. 

   Dentre várias a viagem de Sebastião Salgado que mais me constrangeu aconteceu em 1994 no país africano de Uganda, onde cerca de duzentas e cinquenta mil pessoas desaparecem na selva quando foram expulsas do seu país por terroristas a mando do governo local de Uganda.

    Tentando chegar ao outro país vizinho se perderam na selva e acabavam morrendo; Ora por loucura ou fome ou doenças. Um verdadeiro genocídio sem nem sequer ninguém apontar nenhuma arma na cabeça pra ninguém. 

   As pessoas foram simplesmente desaparecendo assim como os índios aqui em nosso continente
americano do Sul e do Norte por volta de 1500. O filme concorreu ao Oscar de melhor documentário este ano, mas não levou, e isto de fato pouco importa. O que realmente tem valor e também preocupação é que as aventuras profissionais de Sebastião Salgado são mais atuais do que nunca, e por isso pergunto-me: Será que precisaríamos acabar com tudo e renascer novamente para termos um novo
juízo de valor humano? 

    Quero crer que ainda temos jeito e o poder não nos corrompa de forma tão acachapante e vergonhosa. Não posso te garantir que após a sessão saíras de bem com a vida e sem dores estomacais, mas que o
documentário é super válido para nos tocarmos no que estamos fazendo com nossa própria espécie que se julga como a mais inteligente, e também com o nosso planeta, isso sem dúvida alguma. O filme é um toque para mudarmos o que está errado.
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   Bekas – Para o Alto e Avante, dirigido por Karzan Kader, com Com Sarwar Fazil, Zamand Taha e
Suliman Karim Mohamad, Iraque, 2012.

     O filme é lindo justamente por sua pureza. Trata-se sem dúvidas de uma obra poética e talvez por este motivo não tenha sido tão bem recebida pela critica e consequentemente pelo público. A tarefa do
critico de cinema é ser uma conexão entre quem faz o filme e seu publico, todavia parece que os críticos esquecem-se do detalhe e ficam naquela de só escrever bem de determinado tipo de filme que ele gosta, deixando de lado a sua função que é a de informar as características fílmicas da obra, e não taxá-la
como ruim ou boa.

     Neste filme iraquiano a critica caiu de pau no filme por ter diálogos bobos demais entre os protagonistas, entretanto a critica esquece que o Iraque não é um pais com tradição na sétima arte e por isso mesmo tais críticos deveriam se ater a isso, ou seja, a ter a consciência do que é fazer um filme no Iraque. 

   Claro que a obra não pode ser perfeita, pois lá falta tudo: Desde equipamentos até principalmente instruções, porém ainda assim o que vi neste filme iraquiano foi uma historia linda entre dois irmãos órfãos. 

    Enredo este que consegue substituir qualquer defeito técnico da obra. Mas a história é a seguinte: Em pleno Iraque na década de 1990, ainda sob o domínio do ex-ditador Sadam Russeim, encontramos como protagonistas dois garotos sem mãe e com o pai abatido durante uma guerra qualquer promovida pelo ditador, ou seja, como mencionamos: dois garotos órfãos. 
 A esperança de dias melhores fazia das duas crianças desprovidas de carinho e cuidado, pois agora era eles que tinham que se garantir, e sem muita perspectiva e bastante imaginação eles decidem que
querem encontrar o super-homem na América ( EUA ) para ,este que tem super poderes, reviver seus pais mortos. Como não tinham literalmente nada a perderem eles são guiados por esse desejo fantástico de encontrar o Super-Men.

    Engraxando sapatos conseguem comprar seu transporte para chegar à América: Um jumento que nomearam de Michael Jackson. Em cima do jumento e com a proteção de Alá os dois garotos pegaram a estrada em direção a América, segundo o mapa do irmão mais velho e de coração mais mole que o caçula. Fato é que se existir uma América, com certeza eles chegaram lá por tanta estrada que rodaram, e se principalmente existir algum Super-Men de verdade, este se simbolizaria nos próprios garotos. Enfim um filme que fala de amizade acima do que qualquer outro motivo. 

   Lindo, pois através da simplicidade dos seus personagens vemos no final um filme profundo em sentimentos e por isso poético. Parabéns ao cinema iraquiano, ganhei o dia.