segunda-feira, 23 de setembro de 2019
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

Mommy, um canadense fora dos padrões, muito bom

Filme foi vencedor em Cannes e aborda o comportamento de um jovem
19/04/2015 às 20:05
Mommy, escrito e dirigido por Xavier Dolan, Canadá, 2015. 

   Em um ambiente ficcional temos um Canadá, na província do Quebec mais especificamente no lado gaulês do país gelado, instituindo novas leis a fim de punir jovens infratores. O filme, embora seja uma obra ficcional, se inicia explicando esta ficção, ou seja, conta uma ficção dentro de outra ficção; 

   Esta última citada seria ou tentaria a ser a obra fílmica de fato. Um tanto difícil de explicar uma ficção dentro de um Canadá ficcional futuro, porém o que não resta dúvida alguma é acerca ou sobre a qualidade do filme canadense, este que categorica e principalmente visceralmente foge de todos os padrões comuns dos meros filmes fúteis de se ver, e talvez por isso, ou não à toa em prol disso, arrebatou o prêmio principal do júri do último festival realizado em Cannes. 

   A região do Quebec estabelecia rígidas leis contra menores infratores e pela circunstância  das tais leis existirem neste “futuro Canadá”, surge então o nosso protagonista; Um adolescente Punk que arrebenta a boca do balão durante o filme inteiro, e “despiroca-se” literalmente quando seu pai o abandona sem nem se quer deixar um bilhete para o bichinho. 

   A consequência de ter sido criado pela mãe somente vem alguns anos mais tarde com inúmeras crises de Ira agudas; E é um tanto importante salientar esta parte da Ira por parte do garoto, pois quando o punk ficava nervoso: Ficava pra valer, e de fato não preciso usar mais nenhum subterfúgio para explanar o tamanho estado raivoso que ficava o punk, ou seja, ficava irritado pra valer e podem acreditar nisso de olhos fechados ou bem abertos se quiserem desfiar-se de um cruzado imaginário do protagonista. 

   Fato. E e não tinha como ser de outra maneira, que o endiabrado jovem punk logo foi diagnosticado pelo estado ditador deste Canadá ficcional, com a famosa síndrome do  pavio curto, porém um pouco mais atenuada, pois como já mencionei, quando o cara estourava se transformava muito mais que as pessoas que conhecemos que tem a tal síndrome do pavio curto, e sua estupenda atuação fora fator determinante até para o resultado final da obra fílmica , tamanha a carga dramática que é impregnada ao personagem principal do filme .

   Ele surtava ao ponto de matar e morrer. Sim, pessoas com a síndrome do pavio curto fazem isso também ( matam e morrem na hora da raiva ), todavia além desta particularidade fatal o nosso carismático protagonista  não só defendia ações que as pessoas iam contra ele, mas também e principalmente ia contra ações que eram em desacordo com a sua mãe ( por isso o nome do filme: Mommy, mamãe em francês ).

   Ações essas mais rotineiras que as dele próprio por sinal, ou seja, a mãe se metia mais em encrencas do que propriamente ele, mas como ele tomava radicalmente as dores de sua Mommy, então era ele que pagava a conta no final por ter uma mãe de coração bom, mas de natureza relapsa. 

   O filme é lindo e visceral ao mesmo tempo porque mexe nessa relação pura, louca e “Ediponiana” entre mãe e filho. Para terem uma ideia acerca da intensidade dessa relação ouvi uma única vez o pai de o garoto ser citado no filme de quase três horas de pura cartarse as nossas íris. 

   Geralmente tendemos a não valorizar ou simplesmente deixar passar despercebidas algumas reações ou ações que pessoas fazem em prol de outra pessoa, e este filme nos abre os olhos justamente para esse caso, ou seja, tentar entender o quanto uma pessoa possa valer para outra, embora todas suas ações pareçam que trata-se justamente do contrário. 

   Mas voltemos ao filme e deixemos de filosofia de lado um pouco. Pois bem, como enredo tínhamos um filho internado ou preso porquausa de pequenos furtos, e uma mãe solteira que de uma hora pra outra resolve resgatar o seu filho esquecido na prisão governamental, mesmo sabendo que estava mexendo num vespeiro de confusão que primasse entre a razão e a emoção do seu filhão quando o pega do internato ou prisão governamental. 

   No decorrer da convivência de ambos, e ainda com a ajuda de uma vizinha, que se apaixona pela loucura transviada, e de certo modo, adiantada do garoto, a obra fílmica se desenrola com típicos fatos cotidianos que seriam normais se estivéssemos assistindo a personagens normais.

    Como já dizia o poeta: “De perto ninguém é normal”, todavia os personagens acabavam  se “loucularizando” pelo convívio com o “garoto-problema”. Fato é que apesar de ninguém ser normal de perto, existem níveis de insanidade, e o nosso genial protagonista supera todos os níveis através da sua interpretação. Para tentar amenizar as memórias de internato e dos choques elétricos que o filho recebia lá, a mãe, então tem a ideia e se mudarem de cidade pensando que seria melhor, mas isso fora um “Ledo e Ivo” engano, pois nada mudou; 

   Os traumas eram profundos em viver em um regime politica altamente castrador que ia contra sua natureza libertária, e ainda por cima o abandono do pai. 
 O garoto, com este histórico caótico, começa a ter novos ou os mesmos problemas comportamentais na cidade nova e logo é posto novamente sob judicie ou patente da lei do tal Canadá ficcional e cruel, este o prendendo novamente. Sem querer ir e voltar como um ioiô no roteiro, mas achei importante grifar e salientar este estado de “vai preso” e “volta com a mãe” do protagonista para abordar até que ponto um governo ou uma lei pode se intrometer em vidas de civis comuns que pouco ou nada fizeram ao bem-estar comum de uma sociedade dita como civilizada. Não me restaram dúvidas de que nosso protagonista carecia de cuidados psiquiátricos, pois quando o punk surtava: Sai de baixo! E o que escrever das  atuações dele e de sua mãe? 

  Simplesmente incríveis! Existem filmes que logo percebemos a mão do diretor como Woody Allen e Quentin Tarantino, por exemplo. Eles, os diretores, são mais importantes que qualquer outro aspecto da obra fílmica como um todo, porém em se tratando da obra fílmica canadense Mommy temos certeza de que o ponto forte do filme é a atuação visceral e humana dos seus três principais atores. Sem sombra de dúvidas o melhor filme visto deste crítico neste ano, e não a toa fora premiado como o melhor filme de Cannes também; Fantástico e instigante do começo ao fim vale cada segundo.