sexta-feira, 05 de junho de 2020
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

Vincere narra drama da amante de Mussolini

O drama da amante de Mussolini para que o ditador reconhecesse a paternidade de um filho que tivera com o ditador
11/04/2015 às 14:26
Vencer (Vincere em italiano) é uma belíssima película dirigida por Marco Bellocchio - Itália, França (2009). Conta a história do ponto de vista da amante do ditador Benito Mussolini, que teve um filho bastardo, logicamente não esperado e querido pelo fascista. 

   Os maiores favores a pátria não permitiram que Mussolini sequer pensasse na hipótese de abandonar sua esposa e filhos para ficar com a amante, que gostava mais. 

   A película tem a sensibilidade de mostrar de como era a Itália por volta de 1910 quando o seu partido comunista brigava para tomar o poder pela revolução. Através da fundação de um jornal, ajudado pelo dinheiro da sua amante, escreva-se de passagem, o até então comunista Mussolini começa a colocar a sua estampa na praça e a se tornar conhecido como um líder de pulso firme, como foi de fato. 

   Podemos afirmar que o ditador deixou alguns discípulos, como o ex- primeiro ministro italiano Silvio Berlusconi. O filme é sagaz, não deixando escapar nada daquela época, com suas causas e consequências. Consequências  horríveis para a sua protagonista, que acaba o resto dos seus dias em um
manicômio por bater de frente com o sistema fascista ao afirmar que tinha um filho com o ditador, e ainda por cima primogênito. 

   Até aos dias atuais insistir em falar verdades é um risco, porém particularmente me solidarizo com a protagonista ao chegar até as últimas consequências quando uma verdade importante tenha de ser dita, custe o que custar; nesse caso quem “pagou a conta” foi ela própria. Tudo por um único propósito: a obsessão pelo reconhecimento do seu primeiro e único filho. 

   A película tem a sensatez de mostrar de como a sociedade até os dias de hoje é levada pelo poder e a ganância exacerbada das pessoas que as comandam. 

    O filme se desnuda incrivelmente atual devido à crise na Itália com a queda do seu primeiro ministro e a crise econômica europeia, afetando todos os seus principais países e a sua moeda única, o Euro. Se fizéssemos um “dejavú” para comparar a época do filme na era fascista com os tempos atuais, com Berlusconi fora do poder, poderíamos verificar que dada às proporções de suas épocas as mudanças não foram tanto significativas naquele país, pois na época fascista e hoje ainda temos um tipo de poder quase
absoluto com políticos pra lá de polêmicos que vão de acusações desde prostituição infantil até o apoio por várias décadas a ditadores árabes.

    Abrindo a brecha para comentar sobre os conflitos da Primavera Árabe, que são as grandes manifestações populares que acontecem desde 2010 naqueles países como: Egito, Líbia, Síria e Tunísia, não podemos esquecer as parcerias com os ditadores daqueles países árabes com o poder fascista italiano comandado por Mussolini, onde eram trocados interesses políticos e econômicos. 

    Era um “toma lá, dá cá” onde não só a Itália, mas também entraram na jogada países como a Alemanha, França e Inglaterra, o que de certa forma, financiaram, e durante muitas décadas as ditaduras da maioria desses países árabes que se encontram hoje em conflito. 

   Porém no tocante ao filme não se pode deixar de se emocionar com a perseverança que a sua bela protagonista tentava mostrar através de cartas escritas a punhos próprios que tinha um filho com o ditador; cartas essas, obviamente surrupiadas pelo governo fascista, que escondia também o bastardo primogênito do ditador em uma cidade italiana de interior longínquo, não permitindo nem que a pequena criança visitasse a mãe no manicômio, obrigando ao “Mussolini Júnior” a viver com parentes estranhos em um cárcere privado. 

    Com o passar do tempo e ela percebendo que não obtinha resposta das tais cartas enviadas a justiça italiana para a sua liberdade, porque na verdade a justiça era fascista também, acontece à cena mais bela do filme: em uma enorme tempestade de neve, ela se livra dos enfermeiros-seguranças e sobe até o
topo das altas grades de ferro que separavam o presídio-manicômio da rua, quando começa jogar as outras cartas que as tinham escrito e guardado, para o alto, atravessando as grades em uma fotografia simplesmente genial. 

    Neste instante aparecem garotos perambulando aos arredores da rua e ela pronta e secamente aproveita se esgoelando no alto da grade: “Sou mãe do filho primogênito do Mussolini, me ajudem a sair daqui para provar o que estou dizendo”. Um garoto rebateu sorrindo: “Se é a mãe do filho primogênito do
ditador, então sou o filho do Papa, sua louca”, e caiu em gargalhadas com os amigos indo embora sem dar a mínima atenção ao que acabara de ouvir. 

   Apesar de ser a cena mais anárquica e transgressora da película: pela neve, pela fuga, pela subida até o topo das grades para pedir socorro, pela ajuda de suas amigas: não adiantou a sua investida em tentar fazer com que descobrissem uma Itália fria e calculista daqueles tenebrosos tempos. 

   Os níveis de popularidade do Fascismo eram arrebatadores e o ditador estava mais soberano do que nunca, de modo que a amante e essa altura já meio insana e sem muita opção a tomar acabou-se por calar-se, como era o que Mussolini desejava, não prejudicando a sua reputação de salvador revolucionário da pátria e de marido exemplar.
 Reintegro a minha afirmação de que Vincere é uma película mais atual do que imaginávamos devido a tantas guerras estouradas atualmente e crises econômicas mundiais. Arrisco-me a comentar que os conflitos que estouram hoje como a Primavera Árabe e as crises econômicas têm de algum modo uma relação com esses ditadores como, por exemplo: Benito Mussolini e Adolf Hitler, pois estes lunáticos de certa forma acabaram atrasando o desenvolvimento do mundo com suas teorias improváveis e totalmente desmedidas de poder e raça. 

   Gostaria de finalizar minha crítica comentando algo que achei acachapante e de certa forma sintetiza a histórica e importante película: que é o “poder pelo poder”, ou em outras letras, como o poder faz o que quer, na hora que quer também quando o assunto não é de seu interesse. Como já diz o sábio ditado popular: Manda quem pode obedece quem tem juízo; Bela obra fílmica.