sexta-feira, 05 de junho de 2020
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

O Doador de Memórias, pra pensar um mundo novo

Passado, de Asghar Farhadi, França, 2014. A obra fílmica é mais uma bela pérola do diretor iraniano que ganhou o Oscar com o long
01/11/2014 às 10:48
O Doador de Memórias , de Phillip Noyce , EUA, 2014.O enredo da ficção cientifica é a seguinte: Uma pequena comunidade vive em um mundo aparentemente ideal, sem doenças nem guerras, mas também sem sentimentos. 

Uma pessoa é encarregada a armazenar estas memórias, de forma a poupar os demais habitantes do sofrimento e também guiá-los com sua sabedoria. De tempos em tempos esta tarefa muda de mãos e agora cabe ao jovem Jonas (Brenton Thwaites), que precisa passar por um duro treinamento para provar que é digno da responsabilidade.

 Em pleno ano de 2014, a adaptação literária sobre um adolescente lutando contra um governo totalitário necessariamente desperta comparações com outros filmes, tais como: Jogos Vorazes e Divergente, e O Doador de Memórias tem sofrido críticas por não possuir tanta ação, e não seria nenhum exagero se taxarmos como uma obra monótona e ainda por cima em preto e branco em sua maior parte, fato este que dá mais “marasmo” ao assistimento da obra. Todavia o filme tem o mérito de não ter tantas cenas de romance. 

Afirmaria que a trama do livro “ O Doador”, de Lois Lowry , e não necessariamente o filme, está muito mais próxima da literatura de “1984” e de “Admirável Mundo Novo” do que das tramas pop e rápidas concebidas para nova geração. Mais uma vez enfatizando as cenas de romance e ação, o filme deixa bem a desejar, pois praticamente não existe cenas com tais características, fato este que prejudica e abala qualquer obra fílmica no sentido de não seduzir seu espectador, até porque o genero da ficção científica pede por vezes obras rápidas e com ações,e como todo gênero cinematográfico pede também casais, ou seja, cenas de romance;

 Seria a mesma coisa de assistirmos a uma novela sem um casal feliz ou sem um vilão, por exemplo.Tratando a obra fílmica nesse sentido de falta de elementos que seduzam as pessoas , podemos caracterizar O Doador de Memórias como um filme que tem uma idéia bacana, revolucionária até, porém falta-lhe pulso do seu diretor para que a obra se torne mais agradável, mesmo que tal obra apresente aspirações filosóficas densas, abordando o papel do Estado na sociedade de uma certa maneira como um acalanto ou proteção do indivíduo contra si mesmo, ou seja, contra a sua própria natureza destrutiva. 

Claramente, o filme tem intenções nobres, e jamais este se torna um nebuloso debate de idéias, mas sem dúvidas o seu maior êxito está em enxergar seus personagens centrais com um excêntrico respeito, ou seja, no gênero da ficção científica quase sempre não existem vilões tradicionais, existem apenas seres que tomam decisões questionáveis, do ponto de vista de um estado totalitário ou de um “Chavismo Venezuelano”, por exemplo, por justamente acreditarem que tal governo totalitário não seria a melhor escolha para essa sociedade futurista do nosso planeta Terra em um tempo não muito distante do que vivemos.
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 O Passado, de Asghar Farhadi, França, 2014. A obra fílmica é mais uma bela pérola do diretor iraniano que ganhou o Oscar com o longa A separação, de melhor filme estrangeiro, e com mérito. Em o Passado ( Le passé ) pela primeira vez o diretor decide filmar fora do Irã para ter mais liberdade e escolhe a França para rodar seu filme. Posto isso, a história do drama se passa na capital Paris e o enredo se passa  quando o ator Ali Mosaffa, que interpreta o ex-marido iraniano da atriz Berenice Bejo ( esta que ganhou o prêmio de melhor atriz estrangeira no Oscar pela estupenda atuação ), chega a França para assinar o divórcio com a ex-mulher que , por sinal, já se encontrava casada e grávida de outro: O ator sensação do momento da França:
Tahar Rahim, que faz o papel de um dono de uma lavanderia. Berenice morava com sua filha de dezesseis anos, fruto de outro casamento, um filho com o iraniano e mais outro filho, que não era dela, mas sim do seu atual marido. Nesse emaranhado de crianças a carga dramática do enredo se desenrola no passado, talvez por isso o título do filme.

 O atual marido da moça nervosa que mudava de marido assim como mudava de roupa, antes era casado e sua esposa se encontrava em estado vegetativo, respirando por aparelhos após cometer suicídio bebendo detergente. 

Com o desenrolar do filme de duas horas de duração, vamos percebendo a genialidade do diretor em nos contar esta história de causas e conseqüências, em que não existem pessoas boas, tampouco más. Apenas existem pessoas imperfeitas que no decorrer de suas vidas acontecimentos surgem, sejam estes por destino, há quem acredite nisso, ou por descuidos. No mais, Le Passé tem todos os elementos fílmicos embutidos para classificarmos como um filme cinco estrelas, principalmente aos que já são fãs do cinema iraniano contemporâneo.