Colunistas / Cinema
Diogo Berni

Em busca de um lar, cada qual sente ao seu modo

Expresso do amanhã é o primeiro filme em inglês do cineasta sul-coreano Bong Joon-Ho (O hospedeiro, Mother), Coréia Do Sul, França, EUA, República Tcheca, 2013
15/08/2014 às 22:11
Em busca de um lar, de Ron Krauss, protagonizado por Vanessa Hudgens, EUA, 2013. Baseado em fatos reais o filme é duro como uma pedra ou como a realidade de muitos. Não gostaria de entrar no assunto de vidas passadas, carmas, etc. Entretanto terei que tecer algumas linhas sobre o assunto para entrarmos na situação da protagonista: uma garota de dezesseis anos. Particularmente acredito em carma, ou seja, o que você fez de muito ruim em uma vida passada, a suposta pessoa estaria pagando agora neste ciclo dessa nova vida.

  Se não fosse desse jeito todos seríamos exatamente iguais, ou seja, felizes e tristes na mesma intensidade o que tornaria as pessoas bem desinteressantes. Acho que todos têm o direito de acreditar ou não em vidas passadas, porém como já fora mencionado este em que voz escreve é crédulo nesse assunto.

 Pois bem agora me sinto mais confortável para apresentar a protagonista da trama que cujo nome tinha como Agnes, porém para os estranhos ela se apresenta como Apple, ou seja, ela seria a própria maçã que Adão e Eva comeram e foram expulsos do paraíso. 

   Por ela se apresentar com nome de Apple para os outros temos já uma prévia de como a garota se sentia por ter sido colocada no mundo por uma mãe drogada e alcoólatra que a batia diariamente. De tanto levar porrada a menina resolve certo dia se livrar da mãe saindo de casa e ir a procura do seu pai, o qual nunca tinha conhecido ou visto. O suposto pai trabalhava em Wall Street e era bem de vida, entretanto já tinha dois filhos pequenos e uma mulher ciumenta. 

  Ainda assim a garota Agnes consegue abrigo por certo tempo até descobrirem que estava esperando uma criança. A esposa do seu pai, e não necessariamente sua madrasta, obriga que Agnés aborte o filho. Com o instinto de mãe falando mais alto ela não aceita o aborto e começa a morar nas ruas, ora dormindo no chão ou em algum carro com as portas destrancadas. 

  Para se alimentar tinha que pegar as sobras do lixo, como qualquer outro mendigo, e sua fome era voraz uma vez que agora teria que alimentar ela e o seu nenenzinho faminto crescendo em seu útero semi-desenvolvido de uma criança de dezesseis anos de idade. As dificuldades foram diversas até Agéns encontrar um lar: um abrigo para adolescentes grávidas como ela (Por isso o nome do filme: Em busca de um lar). 

   Agora com um lar para morar Agnés pensava que estava livre de problemas; Pobre garota, tinha se esquecido que sua mãe drogada ainda estava tentando pegar sua guarda novamente para ter direito a grana que o estado dava para quem tivesse uma filha adolescente grávida, estado esse norte-americano, não o brasileiro obviamente. O filme é visceral em emoções, pois a filha não sabia que tipo de sentimento tinha mais forte pela mãe: amor ou ódio, ou os dois. 

   Fato é que sua mãe a teve muita nova também e foi abandonada por seu namorado que não teve paciência para assumi-la na época. Enfim um filme que me mexeu legal por essas peculiaridades anacrônicas de sentimentos que povoava a cabeça da nossa criança e que de certa maneira já a obrigava a ser uma adulta madura com um filho vindo ao mundo. 

   O cinema é mágico por sua subjetividade, ou seja, o que uma pessoa percebe ou sente assistindo um filme pode não ser a mesma coisa que outra sinta ou perceba; Tudo fica no ar das percepções que cada um tem com o que sente ou até com o que já vivenciou linkando certos filmes ou cenas as suas experiências, e talvez por isso a sétima arte seja mesma um puro êxtase.

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  Expresso do amanhã é o primeiro filme em inglês do cineasta sul-coreano Bong Joon-Ho (O hospedeiro, Mother), Coréia Do Sul, França, EUA, República Tcheca, 2013. 

   O filme é uma adaptação da graphic novel dos franceses Bernamin Legrand e Jacques Lob. Após um experimento desastroso para coibir o aquecimento global em um futuro não muito distante, o tiro sai pela culatra e o planeta Terra se torna uma grande nevasca com temperaturas mortíferas abaixo de setenta graus Celsius negativos. 

   Os que conseguem sobreviver após o péssimo experimento humano, vivem rodando o planeta através de um trem ou em outras letras como uma Arca de Noé em forma de trem. Entretanto nesta arca ou trem existia vagões que classificavam quem era do tipo classe executiva ou econômica. O trem que dava voltas pelo planeta, caso parasse todos morreriam congelados, era alimentado pela mão de obra da classe econômica que turbinava o expresso ou trem siberiano com uma espécie de combustível parecido com o carvão mineral que colocamos no churrasco.

    Em contrapartida os mais favorecidos da classe executiva desfrutavam das melhores refeições enquanto os operários da classe econômica comiam um cereal feito de merda para terem forças e continuarem trabalhando.

    Caso algum tivesse a ousadia de não obedecer era chibatado até a morte para servir de exemplo aos seus outros companheiros. Ainda assim o grupo de operários conseguia se articular para uma estratégica revolta e chegar até o primeiro vagão do trem a fim de tomar o comando da máquina que não podia se render a estática do movimento nulo, caso isso acontecesse não adiantaria nada o esforço da revolta dos operariados, pois com o trem parado o frio juntamente com a poluição do ar mataria tanto as classes: econômica e executiva em questões de minutos, segundos até. 

   Fato é que de tanto rodar a Terra teve uma hora que o líder da classe econômica
resolve dizer: “independência ou morte! ou morremos de tanto trabalhar ou de frio, tanto faz para nós, vamos tentar invadir e pegar o comando”. Mas não era tão fácil assim. Por estar no comando à classe executiva já antevia algum tipo de rebelião, afinal ninguém ficaria comendo aquele cereal feito a merda canina enquanto outros comiam do bom e melhor e ainda faziam baladinhas eletrônicas toda noite. As primeiras tentativas se frustram por uma severa vigília, mas como já diz o ditado: 

  Água mole pedra dura tanto bate até que fura”, em certa e estratégica rebelião a classe econômica toma o poder. Pelo conhecimento que temos dos filmes do passado do diretor sul-coreano não é de se estranhar que o filme seja tão violento e visceral, porém com um roteiro interessante mostrando através de metáforas as diferenças entre classes sociais em um mundo pós-apocalíptico numa fita de ficção científica, fato este que não deixa de ser inovador e por isso já vale ser conferido; Então não percam a chance. 
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  Branco como a neve ( Kar Beyaz ), de Selim Günes, Turquia, 2010. No início dos anos 70, nas montanhas da Turquia, Hasan, interpretado pelo talentoso ator mirim turco Hakan Korkmaz, de nove anos, vive o dilema de morar numa pequena aldeia onde a pobreza e privações fazem parte de sua vida.

   Ele ajuda a cuidar de seus dois irmãos mais novos enquanto sua mãe sai para trabalhar todos os dias numa cidade distante. Com seu pai preso e a família passando por dificuldades financeiras, ele é obrigado a ajudar na renda vendendo Ayran, uma bebida feita à base de iogurte, para viajantes que passam pela região. 
Em um dia de inverno, sob forte neve, Hasan faz uma longa viagem até uma casa de chá para tentar vender a bebida, mas na volta, faminto e exausto, ele acaba se perdendo nas florestas. Baseado na história Ayran, de Sabahattin, o filme nos envolve numa cultura distante, porém admirável que é a Turca, mostrando o cotidiano dos habitantes daquele país nas suas mais interioranas localidades cobertas de neve. 

   A pobreza e a falta de perspectiva de vida dos moradores da distante aldeia nevada turca faz com que lembremos das zonas áridas e secas do sertão do nordeste brasileiro, apesar dos climas serem totalmente opostos: Lá uma friaca de matar e aqui uma solzeira e seca de colocar o cabra para se lascar também. 

   A miséria e a falta de perspectivas de dias melhores linkam os dois locais tão distantes geograficamente, todavia pertíssimos no quesito da sobrevivência humana, o que o faz por isso e outros fatores como, por exemplo, um roteiro arrumado e baitas imagens, que seja uma boa pedida para fugir de filmes tradicionais americanos e europeus que quase sempre mostram as mesmas localidades.