Colunistas / Cinema
Diogo Berni

Elefante Branco, drama das drogas e a igreja

Joe, de David Gordon Green, EUA, 2013. O filme foi premiado como o melhor no festival de Toronto, o mais importante do Canadá.
19/07/2014 às 10:48
 Elefante Branco, de Pablo Trapero, Argentina/Espanha, 2012. Se achas que as favelas do Rio de Janeiro e São Paulo são barras-pesadas, és porque não conhecestes ainda as favelas paraguaias e este filme mostra exatamente isso com a adesão ao lado ruim dessas favelas, que é o seu tráfico de drogas. 

   A história é a seguinte: Um padre Belga e outro argentino adentram na favela mais casca grossa das redondezas da capital do Paraguai, Assunção, a fim de evangelizar os moradores para a “santa” igreja católica. Todavia antes disso, ou seja, da chegada dos padres, um desses tinha um passado covarde com outra favela casca grossa na própria América do Sul, porém em outro país. 

   O tal padre belga vê seus principais ajudantes de quermesse ser assassinados por bandidos das redondezas, e se esconde para fugir da morte. Este trauma segue o padre em todo o filme, tendo as suas piores conseqüências em sua parte final. Fato é que os padres adentram na favela paraguaia e começam a se envolver em problemas pessoais dos moradores, causando assim um mal - estar danado entre as facções de drogas da favela. 

   O resultado é o esperado, ou seja, mais cedo ou tarde as facções acabam por se encontrarem e se digladiarem em busca de território ou vingança de membros mortos em batalha. Os padres, mas que envolvidos na situação acabam por esquecer suas missões evangelizadoras e adotam uma política de proteger seus supostos amigos, estes envolvidos no tráfico ou não.

    E o bonito do filme é exatamente isto, a atitude dos padres padronizados pela igreja católica se “despadronizarem” para buscar um lado na guerra do tráfico na favela paraguaia. Escolha esta que lhes trazem algumas conseqüências fortes, afinal guerra é guerra; quando se escolhe um lado tem-se de matar e morrer por ele. 

   No tocante a atuações o ator argentino Ricardo Darin mais uma vez dá show e de certa forma carrega a fita com a interpretação de um padre autoritário e carismático. No mais temos um elenco e roteiro razoáveis que tem como trunfo principal de mostrar as outras favelas sul-americanas não tão conhecidas, mas tão ou mais violentas que as já conhecidas do Rio e Sampa no cinema. Mais uma aula do cinema argentino para o nosso pomposo cinema nacional, mostrando que até em temas como: Favelas, desigualdade social, tráfico de drogas e corrupção; Nossos hermanos portenhos são melhores que nós em se tratando de sétima arte.
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   Joe, de David Gordon Green, EUA, 2013. O filme foi premiado como o melhor no festival de Toronto, o mais importante do Canadá. Trata-se de uma história baseada em fatos reais onde a única regra era de sobreviver da própria vida, esta que por vezes pode ser bastante amarga. 

  Como personagens centrais temos Joe, interpretado por Nicolas Cage e nome que dá título ao filme, e um garoto de quinze anos, filho de um bêbado violento, interpretado pelo promissor e sensível garoto Tye Sheridan. Joe era um fora da lei que tinha se envolvido dezessete anos atrás em um acidente com um policial, o levando há trinta e seis meses de cadeia;

   E o garoto Gary por sua vez tinha que aturar a bebedeira e surras do seu pai, este que já tinha estuprado sua filha e deixado sua esposa louca de tão barra pesada que o sujeito era. Mas e, entretanto mais “casca grossa” que o pai bêbado do corajoso garoto Gary era o tal do Joe; Um sujeito que literalmente obrava para as leis e tinha por hábito dirigir completamente embriagado e ainda se achando no direito de fazer isso, já que nunca tinha atropelado ou ferido alguém por isso, ao menos. O encontro de Joe com o garoto se dá por pura necessidade da vida. 

   Joe, apesar de seu gênio forte e ser um homem solitário por conseqüência disso, coordenava um grupo de subempregados, em sua maioria negra, a envenenar pinheiros em determinados terrenos para que estes sejam transformados em locais para instalações de fábricas. Joe estava obrando também para o meio ambiente. Ele fazia o que pediam e ganhava por isso; Um jeitinho bem norte-americano de ver as coisas e a vida, por sinal. 

  Fato é que para fugir das surras do pai bêbado o garoto Gary foge para o mato e encontra Joe e seus empregados. O garoto não explica sua situação, coisa que também não adiantaria contar que estava sendo surrado todos os dias por seu pai, pois Joe também obrava para quem quer que fosse, sendo essa pessoa uma criança, mulher ou idoso. Joe tinha perdido referencias da vida do que era certo de se fazer ou errado.

   Vivia praticamente no “automático” com a garrafa mais próxima e não entendia, e não fazia questão alguma de entender, como a vida de fato funcionava. Para Joe a vida se prestava a beber, se “aliviar” ou “explodir” com a prostituta mais próxima e tratar bem sua cadela de estimação, somente isso. 

   As lembranças de um passado na cadeia e o alcoolismo só permitiam deixar nosso protagonista enxergar isto em sua vida. Eis que surge um garoto meio assustado pedindo emprego no meio da mata para Joe. O fora da lei olha para a cara branca do garoto e decide dar uma chance a ele. 

  A partir desse momento Joe, apesar de não perceber, acaba dando uma chance a si próprio a gostar e se preocupar com alguém, tipo como um filho que não teve. A química de ambos é instantânea e o filme se torna visceral e latente por Joe querer proteger seu “garoto” do pai bêbado dele. A trama de 117 minutos não se faz monótona em minuto algum. O que vemos são vidas duras, tanto dos pontos de vistas emocionais e financeiros, mas que em momento algum o roteiro nos deixa desorientados ou desinteressados pelo filme. Tudo é muito bem encaixado de modo que mergulhamos também nos dramas e situações existenciais dos personagens, enfim um filme classe A, duro com certeza, mas sem dúvidas muito bom de assistir. 
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   Mamonas Pra Sempre, dirigido pelo Cláudio Kahns, 2011, Brasil. A verdade tem de ser dita; Doa a quem doer. E a verdade é a seguinte: Os integrantes do grupo Mamonas Assassinas foram assassinados e não vitimados por um trágico acidente aéreo na década de 1990, como o Brasil até hoje acredita, e enumerarei aqui algumas provas do que estou escrevendo. 
Primeiramente o grupo, apesar de ter seu lado humorístico, tinha letras bastantes politicamente incorretas, metendo o pau principalmente na sociedade mais caretinha. Com suas letras e performances em palco liderado pelo seu líder e vocalista Dinho, o grupo não aliviava com ninguém. Para eles tudo era motivo de brincadeira, porém com verdades que incomodavam aos mais poderosos, como por exemplo, a igreja católica, com um refrão em um dos seus sucessos fazendo a referencia da pedofilia na igreja católica: “ Eu era padre e agora virei gay”. Fato que ainda hoje no Brasil tudo que gera alguma novidade e principalmente essa vinda acompanhada de sucesso gera reações aos que tem o poder nas mãos.

    A anarquia do grupo não parava em seus shows e apresentações dominicais nos programas de televisão do Gugu e do Faustão, sendo que estes se digladiavam para o terem nos seus programas, pois o grupo alavancava os ibopes e até hoje o grupo tem titulo de maior ibope da história da televisão brasileira em um programa dominical; Ibope recorde este acontecido no SBT e não na Globo, fato que gerou muita inveja da emissora líder e briga com o grupo que preferiu no fatídico domingo a emissora do Silvio Santos ao do Roberto Marinho. 

   Após o episódio o grupo entrava todos os domingos no programa do Gugu, deixando a Globo e o Faustão sempre em segundo lugar, perdendo de muito, inclusive. Como mencionei é sempre um risco mexer com poderosos desse país chamado Brasil.

   A cinebiografia não deixa claro que houve um assassinato do grupo, mas este em que vos escreve, sim.