sexta-feira, 05 de junho de 2020
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

In Sicret, belissimo filme de Charlie Stratton

“Quem com ferro fere com ferro será ferido”. Este jargão popular poderia resumir o filme, porém vamos um pouco mais, além disso.
12/07/2014 às 12:02
In Secret, dirigido por Charlie Stratton, com Elizabeth Olsen com uma atuação estupenda protagonizando o filme, e ainda complemetando o gabaritado elenco nomes como: Oscar Isaac, Tom Felton e por fim a talentosa e carismática Jessica Lange em uma das suas mais díficeis e viscerais atuações no cinema, EUA, 2013. 

  A obra audiovisual é baseada no aclamado épico romance do escritor francês Émile Zola, intitulado pelo prória nome da protagonista , Thérèse Raquin, que tanto furor e fervor fez para o ano de 1867 na capital da luzes por suas linhas politicamente incorretas para época. 

  “Quem com ferro fere com ferro será ferido”. Este jargão popular poderia resumir o filme, porém vamos um pouco mais, além disso. A história se passa entre a Inglaterra e a França no final do século XIX. Como protagonista temos Thérese, cujo pai a entrega a tia para criá-la. 

  A tia tinha um filho doente chamado por Camille da mesma idade de Thérese ( na época uns seis anos cada um tinha), de modo que a garota teve que ser sua enfermeira durante toda sua infância e parte da adolescência. Os dois crescem sob forte regime autoritário de criação da tia; Uma mulher áspera que tinha em seu frágil filho único todo o amor que poderia dar a alguém nessa terra. De fato Thérese fora criada como uma criada da tia e seu primo. 

  Não se sabia a origem da mãe dela, de modo que logo imaginaram que se tratava de uma mundana aventureira que largara a filha logo quando o cordão umbilical fora cortado, dando ao pai e sumindo do mapa. Deste modo e com essas lembranças ou marcas Thérese foi crescendo, ora lavando pratos ou limpando a casa ou o jardim, ou ora cozinhando ou cuidando do seu tuberculoso primo frágil. 

Thérese crescia e seus hormônios também ao ponto dela roçar suas partes íntimas no capim quando vê um homem com sua foice tratar de um matagal alto e maltratado. O pior de tudo era que seu primo não crescia como homem enquanto Thérese quase subia pelas paredes de tanto tesão. Na beira dos seus dezesseis anos e com uma beleza incomensurável Thérese é pedida inesperadamente em casamento por seu primo-irmão.
 Sem ter alternativa ela aceita casar-se com ele e partir rumo a Paris juntamente com sua agora sogra. Na capital francesa o seu próprio então agora marido que não comparecia na cama, a apresenta a um antigo amigo que trabalhava na mesma firma. O amor entre os dois foi instantâneo. Thérese enfim descobre o que é o amor, o que é amar e ser amada, o que é sexo, e gosta bastante das descobertas. 

A paixão de fato nos deixa cegos e com Thérese e seu amante, um pintor de hobby, não foi diferente. Com uma tremenda vontade de não se desgrudarem e pararem de uma vez por todas de se esconderem os dois bolam um plano que era de assassinar o empencílio entre o amor de ambos: 

O mimado marido de Thérese. O plano do assassinato fica mais fácil, pois além de Thérese, o amante era amigo pessoal do “miradinho” filhinho da sogra-mamãe. Com a desculpa de um passeio a barco, o pintor, com ajuda de sua amada, dá uma remada na cabeça do filhinho da mamãe e com o mesmo remo o faz afundar no lago depois da porrada. O plano era perfeito, afinal, acidentes acontecem.

 Após dezoito meses da morte do seu ex-marido, Thérese é oferecida ao melhor amigo do morto e seu amante: o pintor, cujo nome era Laurent. Casam-se, mas ao invés de tudo se transformar em um “mar de rosas” acontece justamente o contrário. Thérese continua a morar com sua sogra, a qual lhe promete seus bens quando morrer. A ex-sogra, mas ainda sua patroa começa a ter visões do filho morrendo. 

O resultado dessas visões lhe custa sua saúde mental; tem um colapso e perde a capacidade de falar e andar. Thérese agora casada com quem queria, teria que ser enfermeira da sua patroa e ex-sogra. É importante salientar que em todo o filme, ou seja, em toda a história de vida da protagonista existia um resquício de culpa de ser quem ela era, de não ser nobre e provavelmente filha de uma literalmente Puta ou profisional do sexo da vida. 

Essas “ culpas” faziam com que Thérese fosse eternamente endividada com a família com que cresceu. Ela não conseguia simplesmente deixar aquela velha doente que a tinha criada como uma empregada e fugir com o amor de sua vida. A culpa de Thérese era tamanha já que tinha pesadelos com seu ex-marido diariamente. 

De início foi bonito ver as fugas amorosas e sexuais dos apaixonados; Uma coisa bonita tinha ali no “ proibido” que era a paixão pura e verdadeira de ambos, porém com o tempo, com a culpa, e principalmente com a incapacidade de Thérese deixar-se ser feliz, o filme fica pesado e vemos o outro lado da moeda ou da paixão. Pois bem, com Thérese agora sendo enfermeira da mulher que mais amava e odiava aomesmo tempo, e com a culpa de  ter assassinado seu meio irmão, ou não ter feito nada para que isso não acontecesse, Thérese se transforma em uma mulher amarga para si, para seu marido e para a vida também. A culpa ganha a quebra de braço e Thérese sucumbe à culpa dos fracos que é a de não se permitir ser feliz, de ser algemada por si própria ou por suas vulgas culpas e lembranças( sei que repeti a palavra culpa muitas vezes, mas acreditem: foi necessário, vejam o filme e entenderão o porquê). 

Fato é que no filme não existem nem mocinhos nem bandidos, todos são culpados e inocentes ao mesmo tempo nesse decurso que chamamos pelo nome de vida, apesar desta história se passar no século XIX, entretanto paixão tem os mesmos sintomas em qual século que seja. Temos no filme um final digno da história onde, repito, não existem culpas nem culpados, e assim que deveríamos caminhar, ou seja, com menos pesos nas costas de coisas que não decidimos e mais leveza para escolher nossos próprios caminhos, e por favor, sem culpas. Belíssimo filme que, com certeza, vale ser conferido e apreciado sem moderações. 
                                                        ****
Inspirado em uma história real o filme Gilbratar - O informante, com direção de Julien Leclercq, França, 2014; É uma trama instigante do inicio ao fim dos seus créditos. Como personagem central temos um endividado pescador, dono de um veleiro e um bar, e uma esposa com um filho recém-nascido para sustentar. As dívidas do pescador iriam mais cedo ou tarde, há acabar por pegar seu veleiro e seu bar. Já antevendo sua falência o pescador aceita trabalhar para na agência de inteligência francesa, em plena Espanha, na cidade litorânea e fronteiriça; Gilbatrar, cuja cidade dá nome ao filme. 

O pescador instala então na mesa de bilhar do seu bar escutas para acompanhar os papos dos suspeitos a traficantes que lá iam jogar. Em uma dessas escutas o pescador repassa informações valiosas de uma suposta carga de haxixe oriundo do Marrocos para a Espanha. 

O flagrante tem êxito, porém o que o pescador achou que seria apenas um único trabalho a fim de abonar suas dívidas, se engana totalmente. Quem entra nesse meio dificilmente saí e nosso protagonista estava prestes a descobrir isso. Quando o raxixe é aprendido pela policia espanhola e alguns traficantes são presos, logo todos naquela cidade viram supostos suspeitos de “cagoetes”, e principalmente um dono de bar. Outros traficantes chegam até o bar para verificar se existia alguma pista por lá. 

Não encontram nada concretamente, entretanto entranhas humanas são mais transparentes que o mar de Bora-Bora do Taithi. O medo do pescador entrega que o mesmo tem culpa no cartório e assim sendo, este tem uma dívida agora com seus novos colegas de trabalho. De trabalho em trabalho ou de carregamento em carregamento em seu barco o comum homem vai entrando no esquema do contrabando de drogas e vendo o dinheiro entrando fácil, até que toma certo gosto pela nova profissão mais arriscada, porém mais lucrativa também. 

De uma coisa temos que ressaltar: O tal pescador tinha “culhões” para se jogar de cabeça em seu novo ofício. Esses seus supostos “culhões” o levam a galgar hierarquicamente na quadrilha e até se tornar amigo do braço direito de Pablo Escobar na Europa; Um italiano chamado por Claudio ( lembrando que se trata de uma história real passada em 1988 ). O tal vaidoso Claudio acaba por se envolver com a irmã do nosso protagonista, tornando assim a trama mais visceral ainda , pois nosso pescador tinha um ciúmes enorme pela irmã, esta que por sinal só se envolvia com homens violentos e não era nem de longe uma mulher “flor que se cheire”, sendo que esta cheirava tudo e mais um pouco agora namorando o braço direito do lendário Pablo Escobar: o colombiano miseravão. Após que nosso protagonista pescador e de culhões fortes vê que sua esposa e sua filha passavam por perigo, este volta a reatar com a polícia francesa, e vira de ladrão a policia novamente. 
De fato muitas reviravoltas acontecem na trama com muitos personagens e um roteiro que não ajuda suficientemente para sabermos quando o pescador é mocinho ou é bandido na história. E por essa dúvida ele acaba se estrepando por não escolher um lado ou confiando demasiadamente na lei. Fato é que ele é preso no Canadá com uma carga de cocaína em que seu amigo Claudio pediu que a entregasse.

 O Claudio sai rápido da cadeia por fatores óbvios ( ser poderoso ), mas nosso simples pescador ainda consegue ser transferido para a França com a esperança de cumprir apenas seis meses de pena, porém esses seis curtos meses viram dez longos anos de prisão justa e exclusivamente por ele ter confiando excessivamente no agente da lei em que ele acreditava ser seu amigo. O filme nos deixa uma mensagem: Não existem amigos quando o assunto é tráficos de drogas e principalmente política. Nesses dois “assuntos” os interesses são grandes e poderosos e não existe espaço para ingenuidades. O filme entoa mais tempo que outros em nossas cabeças por se tratar de uma história verídica.