Colunistas / Cinema
Diogo Berni

Histórias que só existem quando lembradas

Veja também o Homem Duplicado, de Denis Villeneuve, Espanha, Canadá, 2013
06/07/2014 às 10:25
Antes do inverno, de Philippe Claudel, França, 2014. Um relacionamento nunca se acaba da noite para o dia. O cotidiano, as rotinas vão se encarregando em desmoronar relações que jamais imaginariam que iriam ter fim, pos bem esse filme conta um pouco disso. 

   Trata-se de um casal de cinqüentões; O homem era um cirurgião. Sua mulher, também médica, mas não atuando na área por cuidar da família deixa sua vida de lado se tornando assim uma mulher bela, porém sem muitas surpresas em sua personalidade.

   Certo dia o médico num café é surpreendido pela atendente, abordando e afirmando que ele já tinha a operado há algum tempo atrás. O médico, logicamente, diz que não lembra e vira às costas a moça de origem marroquina. Após isso inesperadamente o médico recebe um ramo de rosa vermelhas todos os dias sem saber quem era o remetente e até brincar com o presente inusitado: “ Parece que até vou há um velório todo santo dia com tantas flores ou querem me matar, só pode ser”.

    Fato é que ele não estava totalmente errado ao firmar que queriam matá-lo, mas não vamos estragar o filme e vamos mais adiante. O médico então começa a coçar suas orelhas para saber quem enviava tantas flores sem parar. Desconfia da suposta atendente de origem marroquina e a segue na surdina, embora ela estivesse o seguindo antes sem ele saber. 

   Sem muita delonga vemos os dois se aproximando e se apaixonando; Ele: um médico passando por maus momentos em seu casamento e a moça por sua vez com um histórico difícil familiar, segundo ela, e solitária. 

   O resultado é que o médico acaba levando uma vida dupla com a amante e a esposa e seu filho, ao qual acha um parasita somente pelo fato dele ser um economista capitalista ao extremo. Fato é que a cada dia o médico se distanciava da família e de seu trabalho para ficar com sua jovem amante.

   Antes do inverno é, portanto um filme morno, ou seja, nem bom, mas também nem ruim que está nos cinemas atualmente, trata-se apenas de um filme razoável, o que em outras letras significa que vale ser conferido entre o intervalo de uma partida a outra da copa do mundo, entretanto sem muitas expectativas. 
                                                   **************
   O Homem Duplicado, de Denis Villeneuve, Espanha, Canadá, 2013. O filme é uma adaptação da obra literária homônima do escritor português José Saramago. Durante uma conversa com um amigo de trabalho, este amigo pergunta ao nosso primeiro protagonista: “ O que fazes como hobby?”. A resposta veio mais ou menos parecida como o filme, ou seja, inócua e vazia; “ nas minhas horas vagas eu não faço nada”. 

   Como o próprio título do filme já nos diz O Homem Duplicado, temos dois personagens centrais. O primeiro é um professor de História que anda de saco cheio de sua vida pacata e sem graça e ao qual mencionava na conversa acima com outro professor que tinha uma vida pacata e sem sal como a do seu colega de profissão, porém este ao menos tem um hobby, que era ver filmes.

   O amigo então decide sugerir um titulo de filme para o professor de história depressivo e este então aceita a sugestão e loca o filme. O inesperado surge após o
professor de história assisti ao filme. Ele vê um ator bastante parecido com ele e decide locar todos os filmes do ator para saber se estava ficando louco ou o ator era seu irmão gêmeo. 

   De filme em filme as aparências ficam cada vez mais nítidas de modo que o professor acaba indo a procura do ator e por vez se passa até pelo ator para “conhecer” mais a vida do seu sósia esquisito e um tanto excêntrico.

   Fato é que as vidas dos dois se misturam, ora um tentando ser o outro para comer a mulher alheia ou ora por competição deles. A tentativa do diretor canadense Denis Villeneuve tem um resultado diferente se compararmos a de Fernando Meireles com outro livro do mesmo escritor, Ensaio sobre a cegueira; Este sim com êxito e aprovação do próprio Saramago, mas em relação ao O Homem Duplicado, por mais que tenhamos boa vontade em assistir o filme, este deixa a desejar, fato este bem diferente do livro. 
                                                 ******
   Histórias que só existem quando lembradas, de Júlia Murrat, 2011, Brasil. Trata-se de um filme profundo e simples ao mesmo tempo. Quando uma fotógrafa na faixa dos seus vinte e poucos, aparece em uma cidadezinha em que, aparentemente, nada tinha há oferecer e ela ainda assim fica na cidade, a partir daí é que surge a magia do filme, pois o seu enredo se concretiza justamente na secura dos seus personagens, aliais secura não, na simplicidade deles.

    O filme brinca com temas tabus como morte, velhice assim como crianças brincam com bolas de gude, alias não se vê crianças em todo o filme. A cidade era formada por senhores e senhoras que já passavam dos seus sessentinhas naquele sossego interiorano. 

   Como personagens centrais na trama poética e existencialista da diretora Júlia Murrat ( esta que teve um passado pra lá de turbulado com a ditadura militar, com “direito” a ser torturada e tudo mais, porém isso já é outra história..), além da fotógrafa tínhamos uma senhora, impecavelmente interpretada pela Sônia Guedes, que tinha morava em uma casa grande e tinha uma mercearia que dividia com um outro senhor solitário. 
Há esse senhor a incumbência era de fazer o café. A senhora era responsável pela feitura do pão da vila e o devido colocamento na prateleira da mercearia. Talvez a cena dessa senhora colocando a pão feito por ela na prateleira e o senhor por sua vez tirando o pão e recolocando no cesto e chamando a senhora de “ velha teimosa” alegando que aquele trabalho era o dele, pois o dela era de só fazer o pão, talvez essa cotidiana cena mostre a alma do filme por tocar nos temas da velhice ( como o esquecimento e teimosia ), e da rotina, ou seja, de fazer todo dia a mesma coisa. 

   Rotina ou cotidiano que para muito de menos idade pode ser um martírio, para os mais velhos, ao menos para esses do filme, era visto como sabedoria e calmaria. O filme ainda nos permite prosearmos com ele no sentido de darmos valor as coisas mais simples como um toque humano ou uma palavra valham bem mais que uma coisa que tenha valor como um carro ou uma casa, por exemplo. Modestamente acho que a Júlia estava muito expirada e iluminada quando resolveu tocar o projeto desse filme que poucos viram por ser tratar de uma produção independente.

    O filme mete o seu dedão na nossa cara e pergunta: “ Você está correndo pra quê, vale a pena, está correndo na direção certa, acho que não”. Alguns filmes são feitos para serem vistos e não resenhados e este é um deles, então: Boa sessão, certamente ganhará seu dia com essa tocante produção.