segunda-feira, 16 de setembro de 2019
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

A MELHOR OFERTA, um genial filme italiano

Comentário sobre O Guarani, produção nacional
06/06/2014 às 19:45
A melhor Oferta, com direção e roteiro de Giuseppe Tornatore, Itália, 2013; Genial ! Esta palavra, com direito a uma exclamação no final, categoricamente resume bem esse filme.

   Todos nós temos pontos fracos, até mesmo as pessoas mais pragmáticas. O enredo do filme do renomado diretor italiano se passa com essas nuanças; Temos como protagonista um solitário e engenhoso leiloeiro de obras de arte que não tirava suas luvas nem para fazer suas refeições. 

   Apesar de sentir asco de tudo e todos, tal personagem não se comportava politicamente correto, tendo um camarada para dar a melhor oferta em obras de arte que lhe interessariam para sua coleção pessoal ou para revender por um preço maior. 

   A genialidade do roteiro acontece quando este culto e solitário homem tem como trabalho o leilão de um casarão com seus moveis de uma família desfeita por obra da morte, somente restando a família uma filha que sofria de pânico e vivia trancafiada em sue quarto nessa mansão a venda. 

   A vida dessa jovem mulher parece ser para ele, mais digna do que ele somente sentir asco das pessoas. A mulher chama sua atenção porque corta totalmente sua relação com qualquer tipo de pessoa, devido a sua doença. 

   Mas só que ao invés de o leiloeiro sentir pena da mulher, ele acaba se apaixonando por ela, e os dois, através de uma porta começam a ter algum tipo de relação. O leiloeiro enfim consegue que a jovem e bela senhora deixe a vê-la. Inicia-se assim uma série de aproximações dos dois com jantares, visitas, até que a jovem mulher se ache segura para sair do seu quarto. Apesar de já ser um senhor na casa de seus cinqüenta anos, este nunca tinha tido uma relação amorosa e para conquistá-lo, de fato, essa pessoa teria que ser especialíssima, assim como era a sua amada trancafiada e escritora, ainda por cima. Com a paixão latente em seu peito o leiloeiro descobre o significado da palavra amor.

   “Cura” sua amada do pânico e a leva para morar consigo em sua casa, e mostra sua coleção de obras de artes, devidamente trancafiada em um cofre. Certo dia quando acorda não vê sua sensível namorada e nem seus quadros raros e caríssimos. Obviamente o cara não segura a onda e surta. É enganado no coração e também pelo bolso. A engenhosidade dessa história contada é que faz indicar o filme. Tudo é impecavelmente arquitetado para só sabermos o que se sucede nos créditos finais: Sem dúvidas mais uma obra prima do Tornatore. 
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    Séptimo ( Sétimo), Dirigido e co-roteirizado por Patxi Amezcua, Argentina, 2013. Fazia tempo que não via um filme portenho que me decepcionasse. Este infelizmente foge a regra de filmes argentinos de qualidade, e mesmo com o ator Ricardo Dárin no elenco, alias só assisti ao filme por causa dele, todavia desta vez não tive tanta sorte se avaliando o filme como um todo.

    A história se passa entre uma família recém separada constituída por duas crianças, uma de cada sexo, um advogado argentino e uma perua-dondoca( sem ocupação) espanhola , esta que por sua vez ou astúcia, estava a fim de se picar para o seu país europeu devidamente com os filhos sem o pai argentino logicamente concordar nada com essa estória.

    A trama passa-se e inicia-se nas Buenos Aires atuais com um surpreso e repentino desaparecimento dos filhos desse casal em “pé de guerra”. O filme não agrada por tais motivos como, por exemplo, ter sido rodado em sua maior parte no prédio ao qual as crianças tinham supostamente desaparecido, com o pai argentino de sangue quente desconfiando dos todos os outros moradores, ao invés de investir em outros lugares ou até mesmo acionar a polícia para desvendar o misterioso seqüestro dos seus filhinhos. 

   Até que no meio do filme, e como isso demora de acontecer, esse óbvio até ( cerca de metade do filme), que foi um dos seqüestradores ligarem e pedirem o resgate das crianças em troca de Cash. Quando a fita toma um “ar” no sentido de desempacar nessa procura que não levava nada a lugar nenhum, e a fim de ter ações para se achar concretamente as crianças já encontramos praticamente o filme em seu final. 

   E por seu final, este previsível e até de certa maneira ingênuo de supor de quem tinha de fato seqüestrado as crianças, ou seja, quem tinha arquitetado cruelmente esse plano de seqüestro fora a própria mãe dos filhos: uma espanhola insegura que comete um ato
insano, e que poderia até ser pressa por isso, uma vez que a guarda dos filhos era do pai por a mãe já ter um histórico vasto de transes psicóticos, e por isso julgada pela lei, tanto da Argentina como da Espanha, como incapaz de cuidar e criar suas crias.

    Pelo Ricardo Dárin, que é um ator, que é mais ou menos, comparando na medida do possível, uma espécie de Fernanda Montenegro do sexo masculino na Argentina da contemporaneidade, porém depois de ver o filme inteiro, fiquei-me perguntando o porquê do gabaritado ator ter tido a decisão de aceitar em fazer esse filme com um roteiro tão sem sal e graça, e a única resposta que encontrei é que o cachê deve ter sido bem volumoso para o pop-star colocar-se como protagonista do pouco expressivo filme. 
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   O Guarani, dirigido e produzido por Norma Bengell, Brasil,1996. O filme é uma livre adaptação da obra literária homônima de um dos maiores romancistas brasileiros de todos os tempos: José de Alencar. Autor este que se confunde com a própria história do Brasil colonial. Embalsamado pela linguagem poética do livro, a diretora do filme tenta, na medida do possível, “impregnar” o filme com a poesia alencariana; Poesia ou livro aliais que sustenta a tese de que o homem europeu colonizador consegue se “entender” com os índios, representados na obra literária e no filme pela valente tribo dos Aimorés. 
  Como protagonistas temos o índio Peri, interpretado por Márcio Garcia, e Ceci, a filha portuguesa do seu “patrão”, interpretada pela atriz Tatiana Issa. Peri, índio, se apaixona por Ceci, branca. Entretanto Peri tem alma e não permite se cristianizar a pedido de sua amada. Peri tinha sede por liberdade, mas seu coração andava dividido. Peri salvara Ceci da morte três vezes e atendia a todos os pedidos de Ceci, até os mais banais, como capturar uma onça porque ela tinha achado o bichano “bonitinho”. O amor de Peri para com Ceci era deveras cego, ao ponto de deixar-se ser evangelizado somente para ter Ceci em seus braços.

   Por esse amor Peri traíra sua própria tribo, seu próprio povo. Porém mesmo “evangelizado”, Peri não sabia o que era viver sem liberdade, de modo que a sua vulga evangelização não servira para muita coisa no sentido de mudar o índio e a sua natureza. Em suma o filme, assim como o livro, nos conta como foi essa relação entre colonizados e colonizadores na descoberta da América, e hoje chamada de Brasil por nossas bandas.