quinta-feira, 04 de junho de 2020
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

A música nunca parou, uma história tocante

Expedição Kon Tiki, dirigido por Roachim Roonning, Noruega, 2013. O filme narra o feito de um cientista em mostrar que os primeiros habitantes da Polinésia.
23/05/2014 às 19:43
 A música nunca parou, dirigido por Jim Kohlberg, EUA, 2014. Confesso que de tanto ouvir de amigos críticos da área e de músicos, que esperava mais do filme. Ansiedade e cinema nunca se combinaram e não seria esse filme que iria mudar isso. A história é tocante, o roteiro do filme é inteligente em tocar no assunto de pai e filho com relações rompidas. 

   Continua tendo êxito o roteiro por mostrar a reaproximação de pai e filho através da música devido a uma doença cerebral degenerativa, ou a amnésia do filho; Este que não via o pai durante vinte anos quando saiu brigado com ele por discordar de valores de rumos de vida 

 Após vinte anos o filho é encontrado vagando nas ruas em um estado lastimável pela família ou ex-familia. Pela situação ou pelo fato do filho se encontrar em “outro mundo” a família, que na real era constituída somente pelo pai e a mãe, começam a ter a chance de cuidar pela primeira e única vez do seu filho músico e idealista.

    Inicia-se então um tratam ento de musico-terapia com o agora barbudo filho forasteiro, a fim de que alguma utilidade tivesse no sentido de “colocar para funcionar” a memória dele novamente. 

   O tratamento com música é o escolhido por o cara ser músico, ou ao menos quando fugiu de casa, era um. Todavia a música fora também o fator determinante dos seus conflitos com o pai, e a não reaproximação de ambos por vinte longos anos de angústia dos dois lados. Então ou por isso que ao mesmo tempo em que o tratamento era uma alternativa bacana para cura da doença do filho, porém para o seu pai era um martírio ter a oportunidade para conversar com o filho somente através das músicas que ele lembrava. 

   A memória do músico parara de funcionar e ele só lembrava cenas ou músicas de determinados períodos da sua infância e adolescência; Epocas essas em que a relação com o pai fora a mais intensa e apaixonante. Era incrível como a música funcionava para reativar a memória do cara. Ele sabia dos detalhes mais “detalhados” das músicas, das épocas de determinadas canções, bandas e músicos que o influenciaram. A musico-terapia fora de fato um sucesso e o cara sai da clinica de reabilitação que estava internado com a memória bem melhor. 

   Entretanto existem coisas, talvez sejam essas guiadas pelo destino mesmo; Ele o quis assim e pronto; Mas existem coisas que nem uma doença pode apagar das nossas memórias, coisas essas que são justamente as lembranças do passado.

   Quando escrevi que esperava mais do filme não quis dizer que ele não era tocante ou bom ( não tem como não chorar ao assisti-lo, até), mas é que faltou nele, talvez uma certa desumanidade necessária para que ele fosse mais leve, assim como é a música, que nos desafoga e não nos afoga como esse filme fez, ele bate deveras na Veia e não precisava tanto. 
   
   Mas não poderia taxá-lo de filme ruim, talvez ele tenha me decepcionado por uma opinião pessoal. Não costumo, como outros críticos de cinema fazem atribuir estrelinhas a qualidade do filme, mas por esse assistido, ainda que não tenha gostado do seu final, o atribuirei como cinco estrelas ( estrela ou nota máxima) porque é infinitamente superior a todos que estão em exibição no momento.
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 Michael Kohlhaas, dirigido e co-roteirizado por Arnaud des Palliérres, França, 2013. O seu novo filme é uma bela adaptação da obra homônima do escritor Heinrich Von Kleist; Livro este como o favorito de Franz Kafka, que o faz posteriormente se tornar um escritor, então posso deduzir de que não se trata de um mero livro. 

O ator dinamarquês Mads Mikkelsen incorpora moralmente, segundo o diretor, a personagem que dá nome ao seu novo filme. Trata-se de um comerciante de cavalos que leva uma vida prospera e feliz junto com sua família, a esposa e uma filha de treze anos, no século XVI na Cévennes. 

As coisas começam a mudar quando um senhor que tinha parentes da nobreza o trata injustamente em um negócio ferindo sua honra, a coisa mais valiosa que o negociador de cavalos tinha. A partir dessa “rixa” o filme se desenrola por injustiça sobre injustiças quando aquele que não quer obedecer ao mais influente, e por isso paga caro. 

O ponto ou o êxito do filme está na construção moral do seu protagonista, onde os valores deste estavam mais “alinhados”, escrevemos assim, aos seus cavalos do que aos homens. Fidelidade, verdade, companheirismo eram atributos ou qualidades demais para homens terem, porém, mas não para os cavalos. 

O filme carrega um ar de “crocodilagem”, de armadilha à espreita, de que, por mais que o protagonista tentasse por uma mínima que seja dose de moralidade aos outros homens, estes por sua vez não mudavam por interesses e a sensação do poder falarem sempre mais alto que a dignidade. Ao mesmo tempo em que o personagem principal conseguia justiça na trama no tocante a recuperação de seus cavalos roubados, ele também sofria com as conseqüências da tragédia, esta simbolizada pelo assassinato da sua esposa como uma forma de aviso para não afrontar a nobreza e seus “amigos” , protegidos ou puxa-sacos. 

Em suma é um filme de uma bela fotografia de época e que ainda consegue nos prender, no sentido de ficarmos pensando nele por um bom tempo, e nos perguntar sobre a moralidade dos homens ou a falta dela. ; Excelente pedida de um diretor que não tem o “rabo preso” com ninguém e quando é entrevistado enche a boca para dizer:

 “ Não estou nem aí para o Oscar, meus filmes são incompatíveis com tal festival industrial, meus filmes pouco espaço tem lá e não faço questão alguma em fazer parte desse circo intitulado como Oscar”. Belíssimo filme de arte.
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Expedição Kon Tiki, dirigido por Roachim Roonning, Noruega, 2013. O filme narra o feito de um cientista em mostrar que os primeiros habitantes da Polinésia no período pré-colombiano foram os peruanos e não os chineses, como a maioria pensa. 
Baseado na história real de Thor Heyerdahl , esse norueguês refaz o trajeto dos peruanos da América do Sul até a Polinésia, ou seja, mais de quatro mil milhas náuticas no oceano entupido de tubarões e tempestades ,mostrando ao mundo que os Incas enxergavam o oceano como um meio de transporte viável e seguro, tese essa que era até 1947, desmentida pelo mundo científico. Para ser acreditado o “maluco” norueguês chama outros doidos ( Cinco, mais especificamente) para embarcar com ele em um barco exatamente igual ao dos maias, ou seja, feito somente de cordas, madeiras e uma vela ( uma Jangada ), sem nenhum artifício tecnológico como arames, aços ou coisas do tipo que assegurassem que a tripulação chegasse viva na polinésia.

 O filme é super tocante e consegue transpor as dificuldades que era navegar em tempos distantes, mas que era possível, desmentindo o careta mundo científico. Escrever sobre o mar é meio que se perder na sua imensidão. Faltam palavras e sobram sentimentos.

 Quem nasceu no litoral ou quem gosta de pegar onda entende bem o que escrevo, e talvez a esse grupo, dos surfistas, saberá “aproveitar” um pouco mais a ideia do filme e embarcar nele. Ter uma relação próxima do mar te transforma em uma pessoa melhor, e o filme categoricamente afirma isso, ou seja, fique humilde para saber que és um merda diante da natureza e após esse discernimento cuide-a e cuide-se.