quarta-feira, 18 de setembro de 2019
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

Só Deus Perdoa e o submundo das drogas

Só DScarface, dirigido por Brian de Palma, Com Al Pacino, EUA, 1983
09/05/2014 às 22:04
Só Deus Perdoa, dirigido por Nicolas Winding Refn, França, EUA, Dinamarca, 2013. O titulo é forte assim como é o filme. Esta produção foi selecionada para a competitiva de longas-metragens no festival de Cannes em 2013, e não por acaso. 

  O acaso, esse sim, pode abrir nossa resenha. Podemos escrever que fora o acaso com o destino juntos que determinou os caminhos percorridos por seus personagens dessa humana, demasiada humana, obra audiovisual. 

  O filme é ambientando numa violenta Bangkok dos dias atuais, capital da Tailândia, e falado em inglês e tailandês. O submundo das drogas é tema principal no filme, e este se submete as consequências e insanidades do tráfico internacional da cocaína e heroína, liderados por dois norte-americanos que tinham uma academia de boxe tailandês como fachada para esconder seus negócios ilícitos.

   A coisa pega de fato quando o americano mais velho acaba estuprando e matando uma garota de programa, não sabendo ele que estaria comprando uma briga com um policial "ético" e psicopata, e não necessariamente nessa ordem. 

  O polícia era um personagem a parte no tenso filme, trazendo uma certa suavidade ao clima hostil da obra, apesar dele ser o principal assassino do filme. Não sei por que cargas d’água o tal policia quer saber quem matou uma garota de dezesseis anos ( seria porque ele tinha uma filha pequena? Acho que sim ), e matar o "maledito" sem coração que cometeste o crime grotesco e aparentemente sem maiores razões para o sucedido se transforma em uma missão para o agente da lei tailandês que tinha o inusitado hábito de cantar karaokê nas mais estranhas situações, como após uma briga ou assasinato.

    Fato é que o policial caça o norte-americano e o mata sem compaixão com uma espada de samurai que parece que teria tirado do próprio ânus, pois surge de suas costas, que aparentemente não tinha nada.

    Portanto a partir da morte do traficante americano, entra em cena sua bela mãe que vem dos EUA para vingar a morte do seu primogênito e matar o “macaco amarelo” que teve a audácia em fazer isso, já que seu irmão mais novo, interpretado pelo carismático ator Ryam Gosling ( mesmo ator que fez o remake de Taxi Driver ), achava que o irmão teve o que merecia por estuprar e depois matar uma garota indefesa de dezesseis anos que se prostituía para sustentar seus irmãos e pai, este último que caiu na afiada espada samurai do policial psicopata, antes de ser almejado pela turma do norte-americano que até o momento pensava que tinha sido ele, o pai da menina assassinada, que tinha matado o filho primogênito da coroa enxuta e cruel.

    Os acertos tinham de serem feitos, ou seja, algum lado teria que se dar mal; Ou o policial atípico ,que em muitas cenas achei que tratava-se de um policial miliciano do tráfico,mas do que um profissional ético como ele afirmara antes de cortar um dos braços do pai da moça morta, dando-o uma lição de moral e perguntando como aquele pai filho de uma putana deixava uma filha trabalhar como garota de programa assim tão nova. 

   O tal policial era mesmo radical e foi de um por um exterminando com sua espada samurai todos os caras da quadrilha oposta até chegar ao chefe, o irmão que ainda se encontrava vivo e sua maluca, porém bela mãe. 

   O filme em inúmeras cenas , para não dizer na maioria delas, apesar de contar uma trama de suspense densa, tem um “ar noir”, blasé e em alguns momentos o silêncio é o maior dialogo ou trunfo do filme. Nítido fica como esses "silêncios falavam" bem mais que quaisquer palavras ou tiros, principalmente pelo protagonista que mais uma vez dá um show de interpretação fazendo o papel de traficante que fugiu dos EUA para a Tailândia por ter matado um policial. Este silêncio do protagonista, de tão profundo que era, foi ironicamente a parte comunicativa mais eficaz do filme, pois é no “não falar” que dizemos as coisas e sentimento guardados mais importantes dentro de nós, e estes silêncios geralmente são, ou foi no caso do protagonista, de ódio, rancor,ressentimento, "evolução" passividade, humanidade e cumplicidade.

   Um filme que não deveria ser deixado de conferir, pois coisas ou valores ditos como éticos podem ser o contrário: antiéticos e covardes. Um filme duro de ver a ainda mais de digeri-lo, porém na medida que conseguimos fazer isto, ou seja, digeri-lo, temos o trunfo do discernimento adequado para perceber que de fato vivemos em um mundo “cão”, e por isso não é medida das mais sensatas e inteligentes esperar pela misericórdia e bondade das pessoas, por estas serem sugadas pelos valores desse nosso, infelizmente,atual “mundo caótico -Cão”; Em que literalmente, como o próprio título do filme explicita: Só Deus perdoa, e olha lá se perdoa mesmo, somente “ partindo dessa para melhor” para termos certeza disso. Filmaço profundo e visceral que nos faz mergulharmos de cabeça na psique do bicho-homem que nos transformamos. 
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   Scarface, dirigido por Brian de Palma, Com Al Pacino, EUA, 1983. Agora sei da onde vem todo aquele sangaréu que Tarantino imprime em suas obras. Ele bebera na fonte do Brian de Palma e aprimorou mais as mortes sangrentas, sabendo que estas chamariam muito público, o que de fato acontecera, ou seja, “Bingo” para Tarantino; “Descobriu” uma maneira de mostrar algo diferente para Hollywood, “maneira” ou estilo copiado que conquistou o público, mas não a maioria da critica especializada da “maneira” avassadora que imaginara que iria conquistar também . Porém não troquemos de diretor e paremos de comentar sobre seus “ ordinários discípulos”, que não reconhecem uma das suas fontes mais originais tanto em roteiro, por se basear sempre em histórias de vingança ou ascensão social; 

  Mas como principalmente em direção fotográfica, onde existe ainda a máxima em vigor com o Tarantino, que é: “ Quanto mais sangue e violência melhor, e maior o público que vai pagar para assistir". Entretanto vamos deixar esses ingratos diretores milionários e oportunistas de fora por agora. Voltando ao filme do genial Brian de Palma, Scarface, esta obra mostra o outro lado da moeda nas relações entre Cuba e EUA. No inicio dos anos 1980, Fidel Castro mandara de Cuba para os EUA cerca de cento e vinte e cinco mil cubanos por fatores diversos apoiado no principio dos direitos humanos, lei essa que era novidade na época e por isso “bombava”, e o mundo meio que exigia que a tal nova lei fosse aplicada há quem precisasse. 

   Para não ficar “mal na fita” com seus aliados, os EUA aceitam os cubanos em solo norte-americano. Na versão do Brian de palma, e portanto na versão norte-americana, desses citados cento e vinte e cinco mil cubanos que vieram de Cuba, cerca de vinte e cinco mil era formada da corja maldita de vermes que Cuba queria se livrar: os piores assassinos, ladrões e estupradores da ilha, gente da pior espécie e capaz de fazer coisas que qualquer ser humano duvidava. 

   Dessa corja de maus elementos estava o Jony Montanna, interpretado genialmente por Al Pacino ainda bem novinho. Sua personagem era um barra-pesada que já tinha passagem pela prisão e com um sangue e vontade de crescer na vida que até um cavalo furioso ficaria a seus pés nesse quesito da força para vencer a tudo e a todos. Assim Jony Montanna consegue entrar em solo do tio Sam, com essa vontade de quem fora estuprado moralmente pela ditadura imposta por Fidel em seu país natal, a Ilha de Cuba.

   Jony não admitia que até para “cagar” teria que pedir permissão ao governo militar e ditador cubano. Sua natureza não aceitava tamanha humilhação, e por isso é mandado para os EUA. Colocando os pés no país das oportunidades, Jony, para se livrar de cortar cebolas e lavar pratos de uma lanchonete suja, decide voltar ao mundo do crime, mais especificamente ao mundo do trafego do pó, droga esta sensação dos anos 1980 e 1990 no mundo e nos EUA. 

  Jony entra junto com seu parceiro fiel, que era outro cubano e amigo de infância, para um esquema grande de venda da droga após passar por um teste-fogo com traficantes colombianos em plena luz do dia em Miami Beach, na Flórida. Miami fora onde a história do filme se passara pela simples razão de ser a primeira cidade estadunidense mais próxima de Cuba e ter um frenético tráfico da cocaína em movimento naquela época distinta. 

   Como mencionei: o apetite do Jony Montanna era de um cavalo, queria sempre está subindo, galgando, custe o risco que fosse, pois ele acreditara que tudo de pior já tivera visto e vivido na comunista ilha de Fidel Castro. De cara Jony se apaixona pela mulher do seu chefe Lopez, interpretada pela bela e ainda jovem Michelle Pfeiffer. No mesmo dia em que a conheceu, e por isso ainda empregado do perigoso e careca Lopez, Tony fala a ela: “ Um dia você ainda será minha”. De fato ninguém podia segurar ele, seus “culhões”.

    Era uma questão de tempo para Tony Montanna roubar tudo do patrão Lopez, ainda que isso quase custasse sua vida em uma emboscada de vingança quando os dois já não trabalhavam juntos. A mensagem desse puta filme é nítida e transparente: Não precisa nascer em berço de ouro para crescer na vida. Para tal é necessário somente uma coisa que quase ninguém tem: coragem. 
Mas coragem no amplo sentido da palavra: culhões em não ter medo da morte ou transpor a barreira do que é digno ou indigno. Uma cena em especial no filme, e a melhor do filme, ao menos para esse em que vos escreve, sintetiza esse sentimento de coragem do Jony Montanna. Ele se encontra complemente bêbado jantando com sua esposa em um restaurante de alto padrão com os ricaços quem consumiam sua cocaína. Inicia-se uma briga entre marido e mulher por Jony se encontrar em completo estado de embriagues e pela situação caótica de cocaínodroma da sua então agora esposa, a ex-esposa do seu antigo chefe Lopez.

   Uma discussão que o restaurante parara para assistir, sabendo de qual casal se tratava. Quando a briga acaba com sua esposa ameaçando-o que iria deixá-lo, ele cambaleando se levanta e pergunta a todos o que estavam olhando, se nunca tinham visto uma briga entre marido e esposa, e após um silêncio total no restaurante viera a sua auspiciosa pergunta, Tony então “vomita” tudo aquilo que pensa daquela gente que era seus melhores clientes. Ele berrara, bem ao estilo Al Pacino, que só aqueles “seres bonzinhos” existiam porque existia “seres maus”, como ele: o desumano Jonny Montanna , que ariscava sua vida para vender a melhor cocaína da Bolívia para aqueles "berços de ouro" almofadinhas. Após a cena fiquei me questionando: Será que existem seres bons e maus, e se sim, quem teve a audácia em julgá-los: A nossa lei? Oras me conte outra piada: Parei ! Scarface: um clássico do cinema mundial feito por um dos melhores diretores de cinema. É muito melhor do que qualquer filme do fuck Tarantino.