sexta-feira, 05 de junho de 2020
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

Um final de semana no Hyde Park

Veja outras dicas no final de semana
26/04/2014 às 10:16
Um final de semana em Hyde Park, de Roger Michel, Reino Unido, 2012. Baseado em um fato verídico o filme conta a primeira visita de um parente da realeza britânica em solo norte-americano. 

   O parente em questão viria a ser o futuro rei da Inglaterra; Um homem gago e tímido (o rei George VI). Por sua extrema gagueira o homem não conseguia se enxergar como rei, se achava incompleto para o posto. A visita do futuro rei da Inglaterra aos Estados Unidos tinha um caráter político já que naquela época a relação dos países “irmãos” estavam sob tensão por guerras mundiais e interesses econômicos de ambas as partes. 

   O presidente americano era Franklin Delano Roosevelt (1881-1945), o 32º presidente dos EUA, interpretado por Bill Murray. O presidente tinha poliomielite, porém não deixava de “pular a cerca” com suas inúmeras amantes que tinha. A sua esposa, uma mulher forte, de certo modo entendia o lado poligâmico do marido. Era uma maneira que o presidente arrumara para “equilibrar” a sua incapacidade de andar. 

   De certo modo ter várias mulheres para Franklin era como falasse para si próprio: “Sou poderoso como qualquer outro presidente que sentou nessa cadeira mesmo tendo a paralisia infantil”. 

   Uma de suas amantes era uma sensível prima de quinto grau dele. A moça acabara por se apaixonar pelo sedutor político e sua lábia, e isto de fato fora um erro da parte dela, pois em momento algum o presidente deu esperanças a ela, apenas a tratava com cavalheirismo, o que para ela já bastara para se apaixonar perdidamente e além do mais ter ciúmes das outras namoradas dele e até da sua esposa, esta que, se alguma tinha o direito de se enciumar, esta era ela: a primeira dama, mas como mencionamos: tratava-se de uma mulher forte , racional e sabia que seu marido precisava daqueles mimos femininos para conseguir administrar o país. 

  Entretanto apesar deste romance com a sensível prima de quinto grau ser um tema bastante mostrado no filme, porém sobretudo a história principal do filme se pautava no final de semana em que os dois chefes de estado se encontraram e trocaram ideias e segredos sobre suas vidas e das suas nações fortalecendo a relação caída dos países. Uma cena em especial mostra esse “ficar de bem novamente” entre os EUA e a Inglaterra, que fora quando o futuro rei inglês prova uma exótica e simbólica comida norte-americana: o cachorro quente. Um filme que nos mostra os bastidores dos interesses políticos onde a gentileza ou educação, por vezes, é a melhor arma estratégica.
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   O palácio francês (Quai d´Orsay) , dirigido e mal roteirizado por Bertrand Tavernier, França, 2014. Um dos grandes problemas da sétima arte é esta não ter a mesma força em todos os lugares, ou seja, o que é sucesso em um lugar não necessariamente é noutro local. Esse é o caso de Palácio Francês; 

   Um filme que agradou critica e publico em seu país, porém não agradou ao redor do mundo. O filme se baseia na relação de um jovem recém-formado em administração de empresas com seu novo chefe: O temido ministro de relações exteriores da França. O filme se torna monótono porque tal ministro insiste em ser um patrão rabugento que a todo o momento cita versos de seu filosofo preferido: Heráclito, e por isso o filme fica dando voltas a piadas “sem sal “ do ministro " pilhado" para com seus subordinados. 
  
   De uma certeza saímos após a sessão: Que cultura difere-se de nação para nação,obviamente, e por vezes tamanhas diferenças são tão gritantes que determinada obra/produto não se encaixa em determinado mercado ou país. Por fim podemos afirmar que trata-se de um filme fraco, em que seu diretor- roteirista "erra a mão" em insistir em piadas repetitivas e bobas e por isso tem seu ritmo comprometido no sentido em ser convidativo para outras nações que não compreendem a língua francesa.
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   A criança ( L`Enfant ), com direção dupla dos irmãos Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne, França, Bélgica, 2004. O filme foi palma de ouro em Cannes neste mesmo ano, e com mérito, escreva-se de passagem. Difícil fazer um paralelo entre os adolescentes europeus com os sul-americanos, todavia o filme nos instiga a fazer isso, ou seja, ver uma realidade de jovens europeus e na medida do possível perpassar para nossos trópicos. A história começa com uma garota de dezoito anos saindo da maternidade com seu recém-nascido bebe de sexo masculino. Tal garota procurara o pai da criança, que na hora do parto,“partiu”.

    O pai era um garoto da mesma idade que vivia de pequenos furtos. Comandava uma mini-quadrilha, onde aliciava garotos de onze, doze anos para praticar pequenos furtos. O rapaz recebe a visita da namorada com a criança de colo e a garota avisa-o que tratava-se de seu filho aquele bebe. Não sei se para se safar ou para simplesmente mentir para ele mesmo, o rapaz revoltado, no seu intimo, não acredita que o bebe era seu filho, mas não diz nada a namorada, alias diz que ficou feliz em revê-la e ainda mais contente pela criança. 

  De fato o rapaz gostava da garota, mas não esperava ser pai tão cedo. De qualquer sorte os dois voltam a ficarem juntos, apesar de o carinha ter alugado o apartamento da namorada para descolar uma grana extra, pois os furtos estavam difíceis de rolar. 

   Quando escrevi no inicio que tentaria, por livre e espontânea tentativa mesmo, fazer uma suposta comparação entre jovens europeus aos brasileiros, de fato achei que pudesse, mas hoje sei que isso é impossível, e explicarei o por quê. Seguinte: na Europa quando se adota uma criança em cartório o governo daquele país dá, uns mais outros menos, uma receita para pais jovens e desempregados ampararem seus recém-nascidos, de modo que com essa grana esses pais jovens não necessariamente precisem trabalhar, pois o estado já dava uma bela grana somente pelo fato de ser pai. 
   Aqui no Brasil a realidade é completamente diferente da de lá ou do filme europeu. Entretanto sem perder a conexão com nosso filme, voltemos a ele após essa tentativa torpe de comparação das políticas de estado ou consciência do que governantes deveriam fazer e não fazem , mesmo estes se autointitulando como socialistas ou com slogans do tipo: “Brasil : um país rico é um país sem pobreza”. Mas voltemos a em definitivo a película, pois bem: Por esse incentivo governamental o casal de jovens vai ao cartório mais próximo para registrar a criança e assim receber as regalias as que tinham por direito de pai e mãe. 

   Todavia como lhe diz o ditado que dinheiro não consegue se plantar, é preciso trabalhar para tê-lo, que no caso especifico do jovem, era furtar. Em resumo, para o pai da criança o dinheiro que o estado lhe dava era pouco ainda para viver, o rapaz então resolve bolar um esquema genial onde ganharia uma  bolada e ainda por cima se livraria daquela criança chorona que tinha roubado sua namorada dele e ainda por cima existia o risco do filho não ser dele. 
O rapaz não tem dúvida e resolve vender a criança para uma quadrilha envolvida com trafego de menores. O seu primeiro problema fora o fato de não ter comunicado a sua namorada esta decisão da venda do bebe, coisa que obviamente a deixara puta da vida e chamasse a policia para ter seu bebe de volta. O rapaz percebe a cagada que acabara de fazer e volta para buscar o bebe. Ele até que consegue pegá-lo de volta, porém agora estava devendo a quadrilha que o comprou.

   Sem muitas escolhas o jovem pai volta ao seu oficio de furtos de bolsas e paletós, e em uns “furtos desses”, seu comparsa é pego, mas ele não. Não sei se por motivo de amadurecimento em “cair à ficha” que era pai ou pela amizade para com seu comparsa de treze anos, mas o rapaz vai a delegacia e se entrega a policia e esta libera o outro menor infrator.

   Quem ganha uma palma de ouro em Cannes nunca ganha por acaso ( quero acreditar nisso ainda ). A criança, é portanto um filme corajoso, de descobertas, de amadurecimentos dolorosos, de transições ( de criança para adulto por um acontecimento inesperado ), mas sobretudo de amor, mesmo este  sentimento sendo por vezes opaco, nebuloso , mas sem dúvidas fala-se e cria-se em tela um sentimento maior que todas as dificuldades citadas. Um filmaço, e por isso um merecido palma de ouro em Cannes.