Colunistas / Cinema
Diogo Berni

A gaiola dourada e a imigração na Europa

IWrong, com direção e fotografia de Quentin Dupieux, França 2012. Imagine um cidadão dito como normal em uma cidade dita normal e contraponto a esses fatos o diretor consegue criar um filme interessante
30/03/2014 às 11:26
 A Gaiola Dourada (La Cage Dorée), dirigido e co-roteirizado pelo estreante Ruben Alves, Portugal, França, 2012. Um casal de origem portuguesa de subempregados vive em Paris há mais de trinta anos, trinta e três, mais especificamente. 

O chefe da família, José, é um mestre de obras e a sua esposa, Maria, era zeladora de um prédio de classe nobre. Além do casal moravam em uma zeladoria super apertada do prédio em que a Maria trabalhava dia e noite sem parar. 

O casal tinha dois filhos: uma jovem adulta de gênio forte que peitava o pai ignorante peão de obra, e o seu irmão mais novo que sonhava em ser um astro futebolístico ou ao menos era motivado para tal oficio. Certa noite após mais um dia de trabalho castigante do pai e da mãe do casal de filhos que tinham logicamente vergonha em falarem que tinha pais no subemprego há trinta anos e com a descendência portuguesa, com certeza.

Certa noite um telegrama é recebido e lido em plena mesa de jantar com a família toda presente. No telegrama dizia que o irmão do José ( o pai ) , acabara de falecer e deixara sua herança ao irmão que há trinta anos não o via. Entretanto existia uma cláusula ou regra para José receber a herança do irmão, que era ter de voltar a viver em Portugal para o José continuar com os prósperos negócios no ramo da agricultura do falecido e nem tão próximo e querido irmão. Como já diz o ditado: “De tanto fumar o cachimbo deixa a boca torta”, ou seja, por viverem todas suas vidas como subempregados o casal não conseguia encarar agora essa nova realidade de pessoas afortunadas, pois a única coisa que fizeram na vida fora servir e servir, e agora eles seriam servidos? 

Na comédia dramática francesa isso era decididamente difícil para o casal entender esta nova realidade. Além do impacto da nova realidade o casal tinha que ainda que esconder o segredo (por culpa ou cumplicidade do serventismo de ambos ), pois nem ele e tampouco ela tinham coragem de contar a verdade aos seus chefes e abandoná-los após trinta anos de serviços “quase escravos”prestados.

 Ademais os filhos do José e da Maria eram franceses e não queriam deixar suas vidas, amigos e namoradas para morarem em uma terra estranha que era Portugal. A comédia é baseada nesse impasse: Voltar à terra natal para terem a casa própria que sempre sonharam e outras coisas mais, porém correndo o risco de ficarem sozinhos ou continuarem em suas vidinhas na França de subempregados, e de certa maneira já bem acostumados com essa situação empregatícia, escreva-se de passagem. 

Mas que abordar a decisão dessa família de origem portuguesa, entendo que o filme quis mostrar a situação da imigração na Europa e França em particular, onde cada vez mais criam leis para dificultar a entrada de estrangeiros nos países da zona do euro devida à preocupação, para não escrever pânico, de novos ataques terroristas, como por exemplo, o da estação de Madri na Espanha que este ano completou dez anos. Em suma trata-se então de um filme leve,bem feito com um humor na dose certa e algumas metáforas interessantes na relação empregado-empregador. 
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300- A Ascensão do Império, de Noam Murro, EUA, 2014. Sem titubear já escrevo: A continuação do filme 300, o primeiro lançado em 2006, nem de longe se compara com o original, ou seja, o primeiro filme. Alguns falam que as mudanças de diretor e protagonista atrapalharam e muito na continuação da estória de sucesso em quadrinhos. De fato tais mudanças tem um comprometimento no tocante final da produção. No primeiro filme tínhamos 300 guerreiros espartanos lutando contra o império do rei Xerxes, interpretado por Rodrigo Santoro. 

Nessa continuação temos na mesma Grécia antiga, porém em um tempo um pouco antes da primeira batalha, o mesmo império Persa do rei Xerxes, mas só que agora com o exercito persa liderado pela bela guerreira Artemísia, interpretada pela atriz francesa Eva Green, lutando contra outro povo grego que queria a liberdade da Grécia e seus vários povos e para isso se livrar então do diabólico rei Xerxes e seu braço direito, a bela e cruel Artemísia. 

Na liderança dessa sangrenta guerra contra o poderoso império persa comandado por Artemísia, tínhamos Themistocles; Um líder que ficava na linha de frente das batalhas, interpretado pelo ator australiano Sullivan Stapleton, que tinha contas a pagar para com o rei Xerxes e Artemísia por ter lançado uma flecha certeira no peito do rei da Grécia antiga em uma épica batalha anos antes, ou seja, por ter matado o maior símbolo do império persa de todos os tempos. Com isso seu filho ( Rodrigo Santoro ) faz meio que um pacto com forças ocultas e místicas para se transformar em um “homem-mostro” de corpo fechado afim de vingar a morte de seu pai e rei da Grécia antiga. 

O problema do filme em relação a sua primeira sequência rodada em 2006, é que este de 2014 somente se baseia quase que sumariamente em uma porradaria insana em quase todas as cenas, deixando bem a desejar se fomos colocar na “mesma balança” os dois filmes. Como o épico filme acabou, apostaria minhas fichas de que teremos outra continuação no cinema dos Hqs de sucesso; Esperemos então que o terceiro seja melhor que o segundo.
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Wrong, com direção e fotografia de Quentin Dupieux, França 2012. Imagine um cidadão dito como normal em uma cidade dita normal e contraponto a esses fatos o diretor ainda consegue criar um filme nada normal e muito interessante justamente pelo poder que a produção tem de nos seduzir a cada cena do início até o final. Temos como protagonista (como mencionamos: um cara normal) que certo dia acorda e como de costume chama seu cachorro para vê-lo, mas este amigo de estimação não aparece com o chamado do seu dono, e pior, desaparece pelo filme inteiro. 

Pois bem: Este é o enredo ou ideia principal do filme, ou seja, um cara que procura seu cachorro que sumiu. Entretanto nas entrecenas do filme percebemos certas caracterizações peculiares do personagem central que nos faz afirmarmos que definitivamente não se trata de um sujeito dito e visto como normal, e seja lá o que essa palavra "normal" signifique ou não. De inicio temos o dono do cachorro sumido com um problema em seu jardim: Queria fazer uma pequena reforma no local onde seu cão fazia suas necessidades para ficar livre do mal cheiro insuportável de merda. 
Contrata então um jardineiro que cobra “o olho da cara” para um trabalho pequeno. Mas as estranhezas não param por aí; O jardineiro acaba se dando bem e traçando uma atendente de disque pizza se passando por seu chefe ou pelo dono do jardim em que fazia o bico. O filme é impregnado de um estilo Nonsense o tempo todo e isso é comprovado em cenas como quando o protagonista vai trabalhar e somente no escritório, na parte interna do estabelecimento de uma agencia de turismos, chove copiosamente o tempo inteiro onde se encontram personagens e/ou funcionários trabalhando. Tal cena pode ser entendida como uma metáfora em nossas relações interpessoais de trabalho, por em momento algum existir algum tipo de diálogo entre os funcionários naquela chuvarada toda.

 Outro detalhe interessante é que o sujeito que perdeu o seu cão já fora despedido três meses antes e ainda assim continua a ir trabalhar e enfrentar aquela chuva saindo do escritório encharcado dos pés a cabeça em um típico dia de sol. Todavia o tema central do auspicioso filme é a busca de um cachorro perdido e nesse caminho assistimos a cenas mais hilárias, impossíveis, como por exemplo, todos que tinham alguma pista do cão desaparecido supostamente conheciam um tal de Doutor Chang: um chinês especializado em achar cães desaparecidos; E o mais curioso de tudo: todos que davam informações do cachorro ao protagonista diziam que conheciam o Dr. Chang e logo após isso acabavam morrendo com fins mais tragicômicos, impossíveis de fato. Definitivamente Wrong trata-se, portanto de um filme que nos tira da zona de conforto e nos faz pensar, por isso é uma bela pedida para fugir de filmes clichês e apelativos.