Colunistas / Cinema
Diogo Berni

A Grande Beleza, um aprendizado de vida

Álbum de Família , com direção de John Wells e roteiro de Tracy Letts, EUA, 2013. O filme mostra situações que parecerão familiares à geração conhecida por “Baby Boom”
01/03/2014 às 13:11
A grande beleza ( La Grande Bellezza), dirigido e co-roteirizado por Paolo Sorrentino, Itália, 2013. O que é mais importante: o crescimento espiritual ou o aprendizado através das experiências vividas? Essa indagação nos explica o roteiro desse selecionável à melhor filme estrangeiro ao Oscar em março. 

   A fotografia é um elemento a parte da obra desse diretor italiano que insiste em querer copiar Frederico Felinni, mas que convenhamos: Sem a genialidade do Felinni. Entretanto o enredo permeia-se entre uma crise intelectual de um escritor, bem interpretado por Carlo Buccirosso, que há dez anos não conseguia fazer outro livro. 

  O escritor que estava na beira dos seus quase setenta anos vivia bem financeiramente pela publicação de seu último best-seller, mas durante dez anos ele se pega com uma dúvida existencial para viver os últimos anos de sua vida, que era: será que vale a pena se “esconder” durante mais de um ano em uma saleta para escrever um livro, sendo que a vida é tão breve e divertida para quem sabe desfrutá-la?

    Parece que o ex-escritor preferiu suas festas particulares em estupendas paisagens na Itália com mulheres belíssimas e amigos de verdade ao invés do que ficar “ apertando” seus neurônios para escrever outro livro best-seller ou para “besta comprar”. Rico ele já era, de modo que por grana, ele não precisaria mais se preocupar. A questão era: Será que uma vida só pautada em farras poderia criar um vazio existencial dentro dele? Esta é exatamente a questão que permeia o filme; 

   O protagonista curtia suas festas, mulheres e amigos fiéis, entretanto existia dentro dele algo que não o deixava se entregar aquelas festas e momentos de prazer. Existia uma angústia no peito dele que dizia que ele poderia ser menos egoísta e fazer algo de bom não só para si próprio, mas para os seus ávidos leitores que esperavam por cerca de dez anos ao menos um último livro do escritor famoso. Os 141 minutos de filme se passam tão despercebidos por estarmos naquela angústia misturada com as farras e a felicidade egoísta do protagonista; 

   Afinal será que existe alguém que não seja egoísta? Quem não pensa primeiro em si que atire a primeira pedra, e incluo nesse grupo a Madre Tereza de Calcutá, todos os Papas e Rabinos juntos, Luther King, Mahatma Gandhi, Alan Kardec, entre outros. Apostaria minhas fichas para levar a estatueta de melhor filme estrangeiro do Oscar esse ano irá para o filme belga Alabama Monroe, mas não acharia nenhum despautério da academia se premiasse a Grande Beleza como melhor fita estrangeira, pois o filme também é muito bom. Fato  é que o filme, apesar de não estar indicado nas categorias de melhor: trilha sonora e fotografia, deveriam levar ao menos estas estatuetas. 
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   Álbum de Família , com direção de John Wells e roteiro de Tracy Letts, EUA, 2013. O filme mostra situações que parecerão familiares à geração conhecida por “Baby Boom”, que eram norte-americanos nascidos entre os anos de 1946 a 1964.

    Falar ou escrever sobre relações familiares nunca foi fácil. Nélson Rodrigues já escrevia que laços familiares são como bolhas prestes a serem explodidas em qualquer momento ou situação. O filme Álbum de família, concorrente ao Oscar, nos mostra o final de vida de um casal de uma família grande e desunida onde cada filho ou filha acabara por escolher um caminho diferente dos seus pais. 

   A mãe, com interpretação digna de Oscar pela Meryl Streep, era uma mulher viciada em mais de uma dúzia de pílulas e fazia quimioterapia devido há um câncer de boca. O pai por sua vez era um alcoólatra; As brigas do casal com uma mulher louca e com câncer o faz com seu marido tome uma decisão; Primeiro contratar uma empregada de origem indígena para cuidar da sua esposa, cuidadora essa que não é muito bem vinda por sua etnia. 

   Em seguida o marido calado e introspectivo diz que vai dar uma velejada em seu barco, porém nunca mais volta. Por se ver sozinha com uma cuidadora índia em sua casa a matriarca resolve fazer um ajustes de contas com seus filhos e filhas e colocar os “podres” literalmente em pratos limpos. A primogênita, interpretada pela Julia Roberts, era a única filha que tinha coragem para peitar a insana mãe, enquanto os outros filhos aguardavam os acontecimentos ou discussões de uma forma passível e chocávél em um final de semana onde todos foram intimados a comparecer na casa da sua matriarca, mesmo sem ninguém querendo ir, ainda sabendo que sua mãe tinha um câncer maligno na boca e por isso tinha poucos dias de vida.

    Todavia a conversa em família ou “os pratos limpos” tinham que acontecer antes da partida da matriarca “dessa para melhor”. Como em toda família, existia personalidades diferentes: Interesses e prioridades diferentes entre seus membros ou parentes. E em especial nessa família as diferenças e “gênios” eram mastodônticos, onde cada um queria uma coisa diferente. Sim: existiam aqueles parentes que não queriam coisa alguma: 

   Apenas paz de espírito e se livrar de uma vez por todas daquela insana família. A filha primogênita por saber ou supor agora que o barco teria que ser conduzido por ela, queira ao menos que sua mãe morresse lúcida sem a dependência de suas pílulas e drinks, já que “morria” de vergonha da sua geniosa mãe careca dando vexames com pileques e surtos de uma pessoa que estava com medo da morte; Atos insanos esses compreensíveis para quem vai passar “dessa para melhor” ou pior, vai saber. 

  Mas para a sua primogênita com o gênio herdado pelo pai sumido, tais insanidades e sinceridades, como falar verdades cruas da família em nervosos jantares eram inadmissíveis, pois iam de encontro à sempre ausência de seu pai e por isso os insultos de certa forma “batia” nela por ter a natureza parecida com a do seu pai alcoólatra. O filme dificilmente ganhará o Oscar, entretanto existe a possibilidade, ainda esta mínima que seja da Meryl Streep abocanhar sua quarta estatueta de melhor atriz em dezoito indicações da atriz pela academia hollywoodiana. 
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   A Loucura de Almayer (La Folie Almayer), de Chantal Akerman, BEL,FRA, 2009. O filme é um drama livremente inspirado no primeiro conto literário homônimo de Joseph Conrad, escrito em 1895 e foi um dos filmes selecionados para o Festival de Veneza em 2011. Festival este , que do ponto de vista em valorizar filmes ditos de cunho mais artisticos e menos comerciais, é sem dúvidas o festival que faz melhor essa missão entre todos.

   O filme conta a estória de um comerciante europeu, mas precisamente um francês, que na época do ouro na Malásia o homem fica por lá para modo de enriquecer. O ouro não aparece e seus negócios não prosperam. Mais sensato para esse homem seria então voltar a sua terra natal, mas o cidadão já tinha feito vínculos fortes na Malásia, inclusive tendo uma filha com uma malaca.

   O indíviduo queria dar o melhor para sua grande paixão: a sua filha. Resolve então mandá-la ainda criança a um pensionato em Paris para que tivesse uma educação “digna”, deixando sua mãe louca com a perda de sua filhinha. A Mãe de fato enlouquece com a perda, mas o pai não ligava muito para isso, continuava na Malásia tentando agora plantar mangas enquanto via sua mulher enlouquecer a cada dia mais e nem sequer ter notícias de sua filha em Paris, ainda por cima.

    Um belo dia a filha é expulsa do pensionato e volta para sua terra natal, porém já com um outro semblante: a face de que conhecera o mal do homem; As suas pequenices formas de qualificar e desqualificar alguém por meio de regras sociais cruéis e desproporcionais. O pai logo percebe que algo de muito ruim fizeram a sua filha na Europa, e por não ter o que fazer perante a isso, se entrega ao derrotismo se tornando infeliz ( mais do que já era) por ver o estado emocional lastimável de sua filha devido as suas experiências vividas. 
Como o pai queria que sua filha malaca fosse uma madame com bons modos, ele viu justamente o contrário; Agora uma mulher “morta-viva” onde nada fazia importância para ela, nada lhe surpreendia nem a chocava. Ela ficara tão ou mais louca que sua mãe; Prazer pela vida? Nenhum e por nada. Porém surge um contrabandista de drogas nas redondezas da selva em que vivia essa exêntrica família.Mesmo a moça sendo uma “morta-viva”, ainda assim ela têm a ombridade em deixar-se ser amada pelo suposto homem fora da lei, ainda sabendo que não poderia amá-lo e nem a ninguém por seu coração ferido, ou seja, por sua falta emoção ou sentimento. De fato ela não poderia continuar naquela casa com uma mãe que contava pedrinhas na beira do rio e um pai que, quase chegando a esse patamar.

   Ela então aceita a proposta de sumir dali com o fora da lei. O filme , antes de tudo, é poético. Mostra de forma visceral o definhamento mental por parte da mãe e pai da menina malaca. Mostra também como de intenções boas o inferno está cheio, como diz o ditado. Vemos uma linha tênue entre paixão e possessão paternal. Enfim, mostra a dor em colocar alguém no mundo e não pedir nada em troca disso ou não, necessarimante.Filme indicadíssimo para fugir dos desfiles das escolas de samba e ver algo que de fato acresente na vida de qualquer pessoa.