segunda-feira, 23 de setembro de 2019
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

ELA e a Menina que roubava livros, dois bons filmes, por DIOGO BERNI

O vício de roubar livros ficara tão frenético que até em encontros de comandantes nazistas a garota conseguia roubar mais alguns livros.
22/02/2014 às 10:23
   Ela, dirigido pelo excelente e inovador Spike Jonze, EUA, 2014. Em um futuro não muito distante ( chutaria que o filme tinha ambientação e tecnologia de 2040, já que só é pautado com um mundo de um futuro breve), temos um escrevedor de cartas ( não um escritor, mas sim um tipo de Fernanda Montenegro futurista do filme Central do Brasil , onde a pessoa ditava a carta e o computador escrevia com a grafia do escrevedor gravada no Hd); 

   Pois bem, como escrevedor e protagonista temos um homem solitário, recém separado há menos de hum ano e que procurava algo em que se apoiar ou alguém. Ele como era um frenético viciado em videogames e tecnologias, e com a separação foi se escondendo mais no mundo virtual e consequentemente foi sumindo do mundo real por falta de interesse e cansaço dele ou os dois, já que um explicaria o outro.

  Em 2040 a tecnologia nos permitiria termos computadores quase humanos programados a partir das intuições humanas dos seus programadores que os fizeram. O nosso escrevedor de cartas então, por solidão e por gostar bastante de tecnologia, já que só vivia no videogame, compra um desses computadores inteligentes que inclusive falava e dizia como se sentia em relação a tudo e além do mais não arrotava e tampouco flatulava ou enchia qualquer saco, ou seja, para alguém que estava sozinho e rancoroso com seu casamento que tinha acabado, não teria companhia melhor. 

   A tecnologia era tamanha que nosso protagonista ( que ator bom é o Joaquim Phoenix, lembra o nosso brasileiríssimo João Miguel por interpretar papéis sempre densos de maneira brilhante) saia pelas ruas com um fone no ouvido "trocando uma idéia - cabeça" com sua amiga cibernética chamada ou apelidada por Samantha e vivida na voz da atriz Scarlett Johansson, o que faz toda a diferença na personalidade desse computador, ao menos para um intelectual solitário como era o nosso protagonista. O HD ou a Samantha era mesmo irresistível; 

   Além de ser uma companhia culta e agradável ela ainda arrumava a vida profissional do nosso escrevedor de cartas, que por isso consegue publicar seu primeiro livro porquausa da organização da Samantha juntando suas cartas antigas e enviando-as sem que ele soubesse para um editor e este gostando do que lera e publicando. Com esses e outros mimos do HD da voz sensual o escrevedor paga para ver até onde pode ir essa suposta relação, à qual lhe fazia tão bem.

    Pagou para ver, mas não pagou um mísero centavo para adentrar-se em Samantha em suas noites insones e ela suposta ou tecnologicamente gostando e gozando com ele em sua voz sexy. Não pagou nada também com as orientações de Samantha para que ele se divorciasse da sua ex-esposa e definitivamente assumisse um compromisso “sério” com seu computador da voz sexy. Postura essa que quase acarreta em um infarto em sua ex-esposa de carne e osso, mas osso que carne , é verdade, mas isso não importa.

    O que para ele importava era essa paixão virtual e doentia que sentia pela perfeição que encontrava em Samantha. Nenhuma mulher podia com ela, nem mesmo sua vizinha recém-separada e que gostava dele. Entretanto esta também se chocou quando ele a disse que estava apaixonado por Samantha ou o seu computador de última geração inteligente que falava, e por sinal, só falava o que ele queria ouvir, pois no inicio do filme para configurar o computador, este fez uma única pergunta: “Como é a sua relação com a sua mãe?”. 

   A partir da resposta do protagonista nasce Samantha e tudo muda na vida dele. Estou vendo que o filme se classifica nos gêneros: Comédia, Drama e Romance e isso de certo modo me preocupa, principalmente o último gênero: o Romance. Será que em 2040 os nossos relacionamentos tenderiam a serem dessa forma: Virtual, ou será que um computador inteligente conseguiria preencher todos os espaços afetivos que uma pessoa necessita para viver? Isso me preocupa de fato porque já hoje, e sem esses computadores ou "Samanthas "inteligentes, cada vez mais as pessoas interagem menos umas com as outras; Basta ir a um restaurante e checar o número de pessoas que conversam umas com as outras e as que ficam em seus smartphones colados nos ouvidos. O filme é futurista, mas suas nuances e elucubrações humanas já podem ser percebidas.
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   A Menina que Roubava Livros ( The Book Thief ), de Brian Percival , EUA, Alemanha, 2013. Obviamente que para quem leu o livro o filme será mais ou menos, ainda bem que faço parte desse grupo. Alguns críticos literários consideram a obra como uma das mais influentes da contemporaneidade. Mas vamos a uma breve resenha do filme e não do livro, este do qual indico por ter uma atípica narradora: a morte. No filme, de certa maneira, ela: a morte, consegue ser humanizada em plena segunda guerra mundial.

   A estória começa com a voz da dita cuja afirmando que: "Quando a morte quer contar uma estória, é melhor parar e ouví-la". A nossa atípica narradora não contente ainda continua nos ameaçando com frases do tipo: “Não adianta, não tem jeito: vou lhe pegar quer queira ou não, mais cedo ou tarde estará comigo em meus braços, agora depende de você de como vir até a mim, o caminho eu deixo você escolher para chegar até meus braços”. Ok senhora morte, o que nos resta então é viver então antes que seja tarde, não? Com este aviso o filme começa num carro com duas crianças sendo transportadas de uma cidade a outra pela Alemanha nazista.

   Uma morre no trajeto e outra fica viva apesar do frio em um carro sem calefação num inverno rigoroso europeu. A menina chamada por Liesel Meminger que sobrevive , e era judia, é ajudada por um outro judeu a se mudar de sua cidade interiorana para Munique. O agora seu pai, já que a criança perdera sua família judia e seu irmão mais novo que morrera no carro durante o trajeto para a cidade nova em que eles iriam fingir que eram alemães para não morrerem como seus pais.

   Ao terror da guerra e as lembranças das perdas de seus pais e principalmente do seu irmão caçula querido no carro, a menina esperta se encontra na literatura para conseguir sobreviver naquele período frio e nazista. O problema é que naquela época livros só eram permitidos a serem lidos passando primeiro pelo aval da censura da Gestapo: a polícia alemã nazista. Somente poderia ler coisas nacionalistas que justificassem ainda mais o orgulho de ser oriundo de raça "superior" Ariana .

   Nítido fica a incompatibilidade de uma judia que perdera toda sua família pelos nazistas a gostar da tal leitura proibitiva. Por precisar e gostar de ler a menina Liesel Meminger começa então a furtar livros para manter-se sana em uma nova família, à qual ela nada conhecia de inicio. Não sei se foi pela questão da própria sobrevivência ou carência maternal, Liesel Meminger então se afeiçoa à sua rígida nova mãe, que de fato era a pessoa que sustentava a casa, pois seu marido era um sonhador que só queria saber de contar estórias para a nova filha e tocar sua sanfona para "colocar pra corer" a sua melancolia de um judeu que tinha que interpretar que era alemão, assim como a Liesel Meminger, sua nova filha agora. A mãe e provedora financeira da casa tinha que passar as roupas de praticamente a cidade de Munique inteira, inclusive a da família do prefeito. E quem ia entregar essas roupas?

    Claro que era a esperta garota Liesel . Na casa do prefeito ela vê uma estante cheia de livros, o que aos olhos dela pareciam coisas mais preciosas que dinheiro ou ouro. Era justamente daquilo, ou seja, de livros que ela precisava para continuar viva física e mentalmente naquele periodo obscure de Guerra na Alemanha. 

   Com o olhar arregalado da garota a primeira dama , sem o marido saber, a convida para ler alguns livros por poucas horas na biblioteca da sua mansão e ainda fazendo um convite que toda vez que a garota quisesse as portas da sua biblioteca estariam sempre abertas, lógico, sem que o prefeito soubesse que uma menina pobre estava usando sua biblioteca com suas roupas sujas e sapatos cheios de lama sujando sua casa. Como o prazer em ler se torna rapidamente em uma necessidade, Liesel Meminger acaba por ir à casa do prefeito à surdina para furtar alguns exemplares interessantes.

   O vício de roubar livros ficara tão frenético que até em encontros de comandantes nazistas a garota conseguia roubar mais alguns livros. E todos esses furtos tinham uma explicação plausível, além do fato de que ela era realmente uma apaixonada pela leitura. Ela roubava livros para lê-los também há um outro judeu que estava escondido em sua casa. O judeu era filho de um combatente de guerra que morreu salvando a vida de seu padrasto, se jogando literalmente em uma granada para salvar o amigo. O padrasto, que era para estar morto no lugar do pai desse rapaz, logicamente escondeu esse rapaz que era judeu também no seu porão.
 O problema é que o porão era mais gelado que a própria rua, sendo que em alguns meses o rapaz já estava a beira da morte. Só não foi levado por ela ( a morte ) porquausa da Menina que roubava livros, que amanhecia os dias frientos lendo livros para ele, deixando ao menos vivo emocionalmente, mas já pelo frio em um porão velho, a menina que roubava livros não podia fazer muito mais que fazia: ler, pois se o rapaz judeu saísse daquele porão a morte era certa pela Gestapo.

     Liesel tinha, além desse amigo que cuidava, um outro garoto que era totalmente apaixonado por ela. Era um garoto atlético que colocava piche no corpo inteiro para fingir que era o atleta afro americano que ganhou os cem e duzentos metros rasos no atletismo, acabando de uma vez por todas com essa estória de que a raça ariana seria superior as das outras. Enfim, trata-se de um filme intrigante onde temos a morte como narradora e personagens que ora eram extremamente cruéis e ora eram demasiadamente humanos pelo próprio período de guerra em que o filme era ambientado. O filme não é, e nunca será como o livro, mas vale a ida ao cinema para conferir essa bela história, onde pode existir amor ( e isto sem ser "piegas") em plena Guerra, mesmo tendo à senhora morte como narradora.